sábado, 30 de abril de 2016

Podemos ser totalmente livres do passado?


Nossa consciência é condicionada pela educação e por diferentes estados, herdados ou adquiridos, por contradições várias e pelo conflito dos opostos. Parece-me bem óbvio que esse estado mental condicionado só pode ser descoberto pela observação objetiva de nós mesmos. A "observação de nós mesmos" se nos afigura uma das coisas mais difíceis do mundo - vermos a nós mesmos exatamente como somos, sem teorias de espécie alguma, sem desespero nem esperança, sem exigências nem opiniões: vermos simplesmente a nós mesmos. A menos que o façamos, não percebo de que maneira possamos transcender esse limitado e estreito círculo em que estamos vivendo.

Como suscitar o estado de percebimento interior, em que possamos ver tudo o que está ocorrendo dentro de nós, sem parcialidades, sem suposições neuróticas - possamos estar cônscios, sem escolha, dos fatos? Não sei se alguma vez você tentou (não, psicanaliticamente) examinar cada pensamento, cada sentimento; descobrir a fonte de tal pensamento ou sentimento; ver, pelo exame do comportamento, sua causa e motivo, e as diferentes camadas (se se pode usar tal palavra) da mente, da consciência. Ora, isso exigiria muito tempo e não nos levaria a parte alguma, porque o processo analítico supõe "o analista", e este está condicionado: por conseguinte, tudo o que examinar será visto através de seu estado condicionado. O processo analítico é obviamente limitado, e não é, portanto, o caminho certo. Deve haver uma maneira de nos olharmos totalmente, sem as complicações da análise introspectiva, etc.; deve haver um estado, uma maneira de olhar, de observar, capaz de revelar-nos todo o conteúdo da nossa consciência. Não sei se você já inquiriu a esse respeito e, se o fez, qual é sua resposta? Compreende o problema? Os entes humanos estão condicionados; seus padrões de conduta, seus pontos de vista, suas atividades, sua agressividade, seus contraditórios estados mentais - ódio e amor, prazer e dor, desespero e esperança - a batalha constante que se verifica no campo da consciência, a invenção de deuses, crenças, seitas - tudo isso é produto da mente condicionada. Nossas nacionalidades, as divisões entre pessoas, raças, etc., tudo isso é o resultado da educação que recebemos e da influência da sociedade que nós mesmos edificamos. Eis-nos, pois, em pleno campo da consciência - desta nossa consciência que, tão obviamente, se acha condicionada. Como nos libertarmos dessa consciência condicionada, completamente, de modo que não haja mais conflito de espécie alguma? Conflito, luta, batalha - tudo isso é desperdício de energia. Toda a nossa existência se consome dessa maneira - um desejo oposto a outro, uma exigência, um impulso, um instinto em contradição com outro. Tal é nossa maneira de vida - e perguntarmos a nós mesmos se temos possibilidade de abandoná-la de todo, e, se temos, como fazê-lo? É realmente possível isso?

Dissemos que os sistemas, filosofias e religiões não deram liberdade ao homem; ele continua na prisão em que converteu sua consciência, e isso de modo nenhum é liberdade. É o mesmo que um prisioneiro, vivendo entre quatro paredes, dizer que é livre. Não é livre; poderá dar voltas no pátio da prisão, mas a liberdade é uma coisa totalmente diferente, acha-se inteiramente fora da prisão. Vendo-se todo esse complexo das relações humanas, esse complexo de condicionamento, batalha, luta, medo da morte, solidão, desespero, falta de amor, brutalidade, agressividade, temos possibilidade de libertar-nos dele, de ultrapassá-lo completamente? Nenhum agente exterior pode socorrer-nos; o "agente exterior" é outra invenção dá mente condicionada, outra ideologia da mente que é incapaz de descobrir a saída e, por conseguinte, necessita de uma crença. Ora, quando você varre tudo isso para o lado, resta-lhe apenas o fato de que a mente está toda condicionada, tanto a mente consciente como a camada inconsciente, mais profunda. Se estamos cônscio desse fato, que sucede? Se me torno cônscio de que tudo o que faço, todo movimento de pensamento, todo meu esforço, se acha entre os limites desse condicionamento, que sucede então? Entende esta pergunta? Percebo que minha mente e até mesmo todo o complexo de células cerebrais estão gravados do enorme peso do passado - memórias, experiência, conhecimentos, tradições, sistemas de comportamento, aceitos em nome da lei e da ordem e que, contudo, permitem a agressão, o assassínio mútuo, a mútua destruição pela palavra, os gestos, as ações. Ora, como posso tornar-me cônscio disso? Intelectualmente? (Tenha a bondade de acompanhar-me até o fim; não fique meramente escutando, ouvindo, mas acompanhe-me realmente.) Como posso tornar-me cônscio desse fato? Preciso perguntar a mim mesmo: "Que entendo por 'estar cônscio'?", "Como estou olhando o meu condicionamento?" É bem óbvio que, ao olhá-lo, ou o condeno, ou o justifico, ou o aceito como inevitável.

[...] Assim, que entendemos por "percebimento de um fato"? Sinto que estou condicionado; isso é um fato, e eu o percebo, dele estou cônscio, conheço-o; que significa isso? Existe alguma separação entre esse percebimento e a coisa percebida? Estou cônscio de meu condicionamento como uma pessoa que o observa "de fora"? Sei que somos agressivos, em palavras, em sentimentos, em atos. Sei-o como conhecimento, ou estou em comunhão com o fato, não como uma entidade externa: uma comunhão que se estabeleceu entre a entidade que está cônscia e a coisa de que está cônscia? Entende? Muito importa compreender isso. Você diz "sei que estou condicionado"; ora, "sei" é uma palavra muito complexa. Você esteve antes olhando o seu condicionamento, aprendeu alguma coisa a respeito dele e diz "sei". Mas, dizendo "sei", já acumulou conhecimentos a respeito dele, e é com esses conhecimentos que o olha. Mas, no ínterim, a coisa, o condicionamento, está sujeita a modificar-se, e de fato se modifica. Por conseguinte, é perigoso em extremo dizer "sei". Dizer "eu conheço você" é um absurdo. Ao dizer "conheço minha mulher, meu marido, meus filhos, meu amigo, meu Deus (este vem por último) - isso significa que conhece sua esposa, ou seu marido, ou seu amigo, como eram há dois ou três dias antes. Ora, no ínterim, o amigo, o marido ou a esposa modificou-se. Portanto, dizer "sei" (ou "conheço") é errôneo (se posso usar essa palavra). O conhecimento, pois, lhe impede de olhar. Ora, posso "olhar" sem a experiência prévia, sem o conhecimento, isto é, posso olhar de maneira nova, "com olhos novos"? A vida é uma série de experiências, conscientes ou inconscientes; as experiências, as influências de vária espécie, as idéias, a propaganda - tudo isso está constantemente a despejar-se e a deixar marcas em nossa mente. É com essas marcas, memórias - na forma de conhecimento - que olhamos. Por conseguinte, minha visão nunca é límpida, clara. Posso olhar-me com olhos que nunca foram contaminados pela experiência? Por favor, preste atenção a isso - e faça-o. Faça-o, e verá algo. Se me olho com os olhos da experiência, com olhos que já viram tantas coisas por que passei - tragédias, pensamentos, desesperos e sofrimentos - esses olhos não poderão ver nada claramente. Pode a mente libertar-se de todo o passado, para olhar?

Pode a mente tornar-se cônscia de seu condicionamento, olhá-lo sem nenhuma deformação, nenhuma parcialidade? Eis o problema. É possível olharmos qualquer coisa - a árvore, a nuvem, a flor, a criança, um rosto de mulher ou de homem como se a estivéssemos olhando pela primeira vez? É este com efeito, o problema central: olhar com liberdade.

Liberdade significa "estar livre de todo o passado". O passado é a cultura em que fomos educados, são as influências sociais e econômicas, as peculiares tendências de cada um de nós, os impulsos, os dogmas e crenças religiosas. Com esse passado queremos olhar-nos e, todavia, nós mesmos somos esse passado.

Há duas qualidades de liberdade. Há a liberdade consistente em estar livre de alguma coisa - estar livre da cólera, por exemplo. Mas libertar-se de uma coisa é uma reação, não é, obviamente, liberdade. Estar livre do nacionalismo não significa nada; todo homem verdadeiramente inteligente está livre desse veneno, mas isso não significa liberdade. Há uma liberdade de espécie completamente diferente, um estado mental em que não existe esforço algum. Essa liberdade é o amor. Este não existe quando você diz: "Preciso aprender a amar, preciso "praticar amor", "Detesto as outras pessoas, mas vou lutar, vou tentar amar." Isso não é amor. A liberdade é um estado mental em que existe o amor, e este não é o oposto do ódio, do ciúme ou da agressividade. Quando se trata de opostos e estamos tentando livrar-nos de um deles para alcançarmos o outro, esse outro tem sua raiz em seu próprio oposto, não é verdade? Por meio de conflito, a liberdade jamais será compreendida.

Jiddu Krishnamurti em, A libertação dos condicionamentos

Como dissolver nossa adulteração psíquica?


ESTAMOS vivendo num mundo completamente fragmentado, um mundo onde se vê luta constante de um grupo contra outro grupo, de uma ideologia contra outra, uma classe contra outra, etc. Tecnologicamente, observa-se um assombroso progresso e, contudo, há mais fragmentação do que nunca. E, observando-se objetivamente o que está ocorrendo, percebe-se a essencial necessidade de o homem aprender a cooperar. Não temos possibilidade de trabalhar juntos em qualquer coisa que seja - a questão da "escola nova", a questão das relações entre os homens, a questão de pôr fim às guerras monstruosas a que estamos assistindo - se cada indivíduo, se cada um de nós está a isolar-se numa ideologia, com sua vida baseada num princípio, numa disciplina, numa técnica, numa crença, num dogma; sobre tais bases não há possibilidade de cooperação. Isso me parece tão óbvio, que dispensa discussão. E estivemos investigando se é possível demolirmos todos esses valores opostos que deliberadamente criamos, para que o homem tenha a possibilidade de ser livre.

Dissemos que a liberdade, seja exterior, seja interior, não pode ser criada por meio de nenhum sistema -político ou econômico, comunista ou capitalista - nem tampouco por nenhuma organização religiosa, ou pelo seguirmos um certo grupo insignificante, separado dos demais. Examinamos suficientemente esta matéria na última reunião. Dissemos, também, que a liberdade não pode ser produto de nenhuma filosofia, de nenhuma teoria intelectual. Nesta manhã, vamos examinar a possibilidade de cada um de nós tornar-se realmente livre de todo e qualquer sistema ou método. E esta é uma das coisas mais complexas e mais difíceis de compreender. Falando em sistemas, queremos referir-nos não apenas ao fato exterior de seguir uma crença, um guru, um instrutor, uma determinada religião organizada, etc., mas também ao fato interior de seguir um certo hábito de pensamento, de viver em conformidade com uma certa crença, dogma ou princípio. Tudo isso constitui uma espécie de sistema. Somos, pois, forçados a perguntar por que razão teima o homem em seguir um sistema. Em primeiro lugar, por que razão interiormente - você e eu desejamos um sistema; e, em segundo lugar - externamente - que necessidade há de algum sistema? Por que necessitamos de qualquer sistema que seja? Todo sistema representa uma tradição, uma disciplina, um hábito, um certo conjunto de canais que a mente deve percorrer. Por que isso? Se abandonamos um dado conjunto de canais, logo adotamos outro.

Dissemos ser impossível haver paz, amor ou beleza, quando não há liberdade total; e que, evidentemente, não há possibilidade nenhuma de sermos livres, total e completamente, se, interiormente, psicologicamente, estamos seguindo um método, um sistema, ou um determinado hábito que vimos cultivando há muitos anos ou há muitas gerações e que se tornou uma tradição. Por que fazemos isso? É porque a mente está continuamente buscando segurança, certeza? Pode ser livre, psicologicamente, uma pessoa que só busca segurança para si própria? E, se não é livre, como poderá ela ver o verdadeiro através de um sistema ou tradição que promete, para o fim, a beleza, um inimaginável estado mental?

Pense junto comigo sobre esta matéria, ou, melhor, examinemos juntos. Se me permite sugerir, não se limite a ouvir palavras e mais palavras. Dizer "Intelectualmente, compreendo" é fazer uma declaração absolutamente falsa. Ao dizermos que compreendemos intelectualmente, isso significa que ouvimos uma série de palavras cujos significados compreendemos. Mas, "compreender" significa também ação imediata , e não: primeiro, compreender e, depois, talvez daqui a muitos dias, a ação. Veja a importância deste problema; veja que a liberdade não é possível quando se está cultivando a aceitação ou a obediência a uma dada ideologia ou tradição. Se você vê esse fato, realmente e não verbalmente, há então ação imediata, você abandona instantaneamente tal ideologia ou tradição. Mas, se diz "verbalmente compreendo o que você está dizendo" - isso é apenas uma fuga ao fato.

Por que razão desejamos segurança, psicologicamente? Necessitamos, é óbvio, da segurança física, necessitamos de alimentos, roupas e morada. Mas, por que razão a mente busca a certeza, porque necessita de uma estrutura que se converterá num sistema que nos garantirá essa certeza? E porque insiste a mente em buscar sua própria segurança, sua própria proteção, sua própria certeza? Pode a pessoa que, psicologicamente, está certa a respeito de alguma coisa, ser livre? - O que não significa que ela deva achar-se sempre num estado de incerteza. Isso faz surgir um problema de dualidade. O conflito, em qualquer forma, é um desperdício de energia; havendo dualidade, há conflito, e este, em essência, é um verdadeiro desperdício de energia. A pessoa que busca a certeza cria inevitavelmente o respectivo oposto. Buscar constantemente um estado em que não haja tribulações, perturbações, conflito, é correr justamente para o oposto desse estado - a tribulação, a perturbação, o conflito. Há incerteza e necessidade de certeza; entre essas duas coisas há conflito. E esse conflito em que nos vemos envolvidos, quase todos nós, é um desperdício de energia. Assim, porque busca a mente a certeza?

[...]Só há, para o homem, um problema, crise ou desafio central: tornar-se completamente livre. Enquanto ele estiver apegado a uma estrutura, método ou sistema, não terá liberdade. Pode essa estrutura ser abandonada de todo, imediatamente? O condicionamento da mente, que vem sendo cultivado há muitos anos ou séculos, esse próprio condicionamento é o sistema, a tradição, o hábito, etc. Enquanto a ele estiver sujeita, a mente jamais será livre. Essa liberdade não se encontra no fim, não é questão de, com o tempo, nos tornarmos livres. Não existe tal coisa de "com o tempo nos libertarmos" - quer dizer, tornar-nos livres por meio de uma disciplina, de uma fórmula. A fórmula ou o sistema só serve para, de diferentes maneiras, tornar mais forte ainda o condicionamento; não dá liberdade. A questão, por conseguinte, é esta: condicionada como está, pode a mente libertar-se de todo o seu condicionamento, incontinente, porque, de outro modo, o condicionamento continuará existente sob diferentes formas? Podemos prosseguir daí?

Uma pessoa nasceu cristã, católica, ou pertence a um dos muitos ramos do protestantismo. Desde criança foi condicionada para crer num Salvador, nos sacerdotes, nos ritos, num Deus, etc. etc. Ou ela é comunista, foi criada no comunismo, condicionada pelo que disse Lenine ou Marx. Surpreende-me a facilidade com que nos deixamos enredar por palavras; os comunistas substituíram a palavra "Cristo" e a respectiva filosofia pela palavra "Lenine" e a respectiva filosofia. Tão facilmente nos deixamos colher numa rede de palavras! Estamos condicionados, e o desafio, a crise existente no todo da consciência, é que o homem deve ser livre; do contrário, ele irá destruir a si próprio.

Pode a mente livrar-se de todo esse condicionamento e tornar-se - realmente, e não verbal, teórica ou ideologicamente livre? Eis o único desafio, o único problema de todos os tempos. Se você também percebe a importância desta questão - se a mente é capaz de descondicionar-se - podemos então examiná-la juntos. Nela estão implicadas várias coisas. Em primeiro lugar, qual a entidade que irá descondicionar a mente condicionada? Compreende? Desejo descondicionar-me: nasci hinduísta, fui criado numa certa parte do mundo com todas as respectivas influências, disciplinamentos, livros, revistas, o que certas pessoas disseram ou não disseram. Essa pressão constante moldou minha mente. E vejo que ela deve ser totalmente livre.

Como poderá tornar-se livre? Existe uma entidade que a tornará livre? Diz-se que há uma entidade - chamam-na "Atman", na Índia, "alma" ou "a graça de Deus", no Ocidente - a qual, se lhe damos oportunidade, produzirá aquela liberdade. Inculcam-me que, se eu viver justamente, se fizer certas coisas, seguir certas fórmulas, certos sistemas, certas crenças, me tornarei livre. Assim, em primeiro lugar supõe-se que existe uma entidade ou agente externo que pode ajudar-me a me libertar, que libertará a minha mente. Mas "fazer certas coisas" significa um sistema que irá condicionar-lhe - como está sempre acontecendo. Os teólogos e os teóricos, bem como os vários indivíduos religiosos, têm dito: "Façam estas coisas, exercitem-se, meditem, controlem, forcem reprimam, sigam, obedeçam, e virá então aquele agente exterior e fará um milagre: torná-los-á livres." Veja como isso é falso; entretanto, todas as religiões o creem, cada uma à sua maneira. Assim, se você ver esta verdade, que não há nenhum agente externo - Deus, 'ou como quiserdes chamá-lo – que libertará a mente condicionada, então, toda a estrutura religiosa, de sacerdotes com seus rituais e suas murmurações de palavras e mais palavras sem nenhuma significação, não terá mais sentido algum. Em segundo lugar, se de fato você rejeitar todas essas idéias, como poderá ser dissolvido o seu condicionamento?

Qual a entidade que o dissolverá? Se você rejeita o agente exterior, "sagrado", "divino", deve haver então alguma entidade que poderá dissolvê-lo. Quem é ela? - O observador? O "eu", o "ego", que é o observador? Atenhamo-nos a esta última palavra - "observador" - basta-nos ela. É o observador que irá dissolver o condicionamento? Diz o observador: "Preciso ser livre e, portanto, tenho de livrar-me de todo o meu condicionamento." Você rejeitou o agente exterior, divino, mas criou outro agente: o observador. Mas, o observador difere da coisa que ele observa? Continue acompanhando-me, por favor. Está compreendendo? Para nos libertarmos, dependíamos de um agente externo - Deus, um salvador, um Mestre, um guru, etc. Se você rejeita tais agentes, deve perceber ser necessário rejeitar também o observador, que é uma outra espécie de "agente". O observador é produto da experiência, do conhecimento, do desejo de libertar-se, a si próprio, de seu condicionamento; diz: "Eu preciso ser livre." Esse "eu" é o observador. O "eu" diz "Preciso ser livre". Mas, é o "eu" diferente da coisa observada? Ele diz: "Estou condicionado, sou nacionalista, sou católico, sou isto sou aquilo. É o "eu", de fato, diferente da coisa que ele diz estar separada de si, a que chama "meu condicionamento"? Dessa forma, está o "observador" - o "eu" que diz "sou diferente da coisa de que desejo libertar-me" - está esse "eu" realmente separado da coisa que ele observa? Há duas entidades distintas, o observador e a coisa observada, ou só existe uma entidade única - a coisa observada é o observador, e o observador é a coisa observada? (Isto se está tornando complicado demais?)

Ao percebermos a verdade de que o observador é a coisa observada, não há então dualidade e, por conseguinte, não há conflito (que, como dissemos, é desperdício de energia). Só há então o fato: a mente condicionada. O fato não é "eu estou condicionado e vou libertar-me do condicionamento". Assim, quando a mente percebe essa verdade, já não há dualidade, só há uma coisa: um estado de condicionamento, um estado condicionado - e nada mais! Podemos prosseguir deste ponto?

Pois bem; você está percebendo, não como ideia, está percebendo realmente que só há o condicionamento, e não "eu" e o condicionamento, como duas coisas diferentes, sendo que uma delas, o "eu", está exercendo a vontade para libertar-se do "condicionamento", havendo, por isso, conflito? Ao vermos que o observador é a coisa observada, não há conflito nenhum, o conflito foi totalmente eliminado. Assim, quando a mente vê que só há um estado condicionado, que aconteceu? Eliminou-se a entidade que ia exercer a força, a disciplina ou a vontade, a fim de libertar-se de seu condicionamento, e isso significa, essencialmente, que a mente eliminou por inteiro o conflito.

Ora, você o fez? Do contrário, não poderemos ir mais longe. Em palavras mais simples: Quando você vê uma árvore, existe o observador, a entidade que vê, e a coisa vista. Entre o observador e a coisa observada há espaço; entre a entidade que vê a árvore e a árvore há espaço. O observador que vê a árvore tem várias imagens ou idéias a respeito de árvores; através dessas inumeráveis imagens ele vê a árvore. Pode ele eliminar essas imagens - botânicas, estéticas, etc. - de modo que possa olhar a árvore sem nenhuma imagem, nenhuma ideia? Já tentou fazê-lo? Se nunca o tentou, se nunca o fez, não terá possibilidade de examinar este outro problema que estamos investigando: o problema da mente que sempre olhou as coisas como "observador", como entidade diferente da coisa observada e, por conseguinte, com um espaço, uma distância, entre si, como "observador" e a "coisa observada" - tal como o espaço que há entre a árvore e você. Se você é capaz disso, de olhar uma árvore sem nenhuma imagem, sem nenhum conhecimento, então o observador é a coisa observada. Isso não significa que ele se torna a árvore (uma ideia absurda), mas, sim, que desapareceu a distância entre o "observador" e a "coisa observada". Isso não é uma espécie de estado místico, abstrato, inefável; não significa cair em êxtase.

Quando a mente rejeita o agente exterior, divino, místico, etc. (uma invenção da mente que não soube resolver o problema de seu próprio condicionamento), quando a mente rejeita esse agente externo, inventa outro agente, o "eu", o "ego", o "observador ", que diz "vou libertar-me de meu condicionamento". Mas o fato é que só há uma mente num estado condicionado, e não uma dualidade, isto é, uma mente que diz "estou condicionada, preciso ser livre, preciso exercer a vontade sobre meu estado condicionado". Só há uma mente condicionada. Preste toda a atenção a isto; se realmente escutar com atenção, com seu coração e sua mente, verá o que sucederá. A mente está condicionada - só isso! - não há mais nada. Todas as invenções psicológicas - relação permanente, divindade, deuses, etc. etc., nascem dessa mente condicionada. Só ela existe e nada mais. Isso é um fato para você? Eis a questão; trata-se de uma coisa realmente extraordinária, se você puder chegar até lá. Porque, na observação só dessa coisa e de nada mais, começa a existir o estado de liberdade - que significa estar livre de todo conflito.

Jiddu Krishnamurti em, A libertação dos condicionamentos

É possível sermos realmente livres?


Nós, entes humanos, não somos livres, levamos uma pesada carga de condicionamento, imposta pela cultura em que vivemos, pelo ambiente social, pela religião, etc. Assim, visto que estamos condicionados, somos agressivos. Os sociólogos, os antropólogos e os economistas explicam essa agressividade. Há duas teorias: ou herdamos essa agressividade do animal, ou a sociedade, que cada ente humano construiu, impele -nos, força-nos a ser agressivos. Mas, o fato é mais relevante do que a teoria: não importa se a agressividade vem do animal ou da sociedade: nós somos agressivos, somos brutais, incapazes de olhar e examinar imparcialmente as sugestões, idéias ou pensamentos de outrem. Porque está assim condicionada, a vida se torna fragmentária. Nossa vida - o viver de cada dia, nossos diários pensamentos e aspirações, o desejo de aperfeiçoamento pessoal (uma coisa horrível) - é fragmentária. Esse condicionamento faz de cada um de nós um ente humano egocêntrico, que luta no interesse de seu "eu", sua família, sua nação, sua crença. Surgem assim as diferenças ideológicas - vós sois cristão, outro é muçulmano ou hinduísta. Podeis tolerar-vos reciprocamente, mas, basicamente, interiormente, há uma profunda divisão, há desprezo, sentimento de superioridade, etc. Por conseguinte, esse condicionamento não só nos faz egocêntricos, mas também, nesse próprio egocentrismo, há um processo de isolamento, de separação, de divisão, que torna absolutamente impossível a cooperação.

Perguntamos: É possível sermos livres? Podemos nós, na situação em que nos encontramos, condicionados, moldados por tantas influências, pela propaganda, pelos livros que lemos, pelo cinema, o rádio, as revistas - tudo isso a martelar-nos e a moldar-nos a mente - podemos nós viver, neste mundo, completamente livres, não só conscientemente, mas nas raízes mesmas de nosso ser? É este - assim me parece o desafio, o problema único. Porque, se não somos livres, não há amor: há ciúme, ansiedade, medo, domínio, cultivo do prazer - sexual ou outro. Se não somos livres, não podemos ver claramente e não há sensibilidade à beleza. Isto não são simples argumentos em prol da "teoria" de que o homem deve ser livre; uma tal teoria se torna, por sua vez, uma ideologia, e esta, a seu turno, separa as pessoas. Assim, se, para você, é este o problema central, o desafio máximo da vida, não há então nenhuma questão de ser feliz ou infeliz (isso se torna uma coisa secundária), de poder ou não conviver em paz com outros, ou de ser suas crenças e opiniões mais importantes que as de outrem. Tudo isso são problemas secundários, que serão resolvidos se o problema central for plena e profundamente compreendido e solucionado. Se, observando os fatos reais que lhe cercam e os fatos reais existentes dentro de você mesmo, sente realmente que é este o desafio único da vida; se percebe que a dependência das idéias, opiniões e juízos de outrem, a veneração da opinião pública, dos heróis, dos exemplos, geram a fragmentação e a desordem; se você vê claramente todo o mapa da existência humana, com suas nacionalidades e guerras, a separação entre seus deuses, sacerdotes e ideologias, o conflito, a angústia, o sofrimento; se você mesmo vê tudo isso, não como coisa ensinada por outrem, nem como ideia ou aspiração - surge então um estado de completa liberdade interior, não há medo da morte, e você e o orador estão em comunhão, em comunicação um com o outro.

Mas se, para você, não é este o principal interesse, o principal desafio e você pergunta se é possível a um ente humano achar Deus, a Verdade, o Amor, etc. - então você não é livre e, nesse estado, como pode achar alguma coisa? Como pode explorar, viajar, com toda essa carga, todo esse medo que acumulou através de sucessivas gerações? É este o único problema: É possível aos entes humanos serem realmente livres?

[...]A questão é esta: se é possível a um ente humano, a um indivíduo que vive neste mundo, numa sociedade tão complexa, tendo de trabalhar, manter casa, filhos, etc., tendo relações íntimas - ser livre. É possível viverem um homem e uma mulher numa relação em que exista liberdade completa, não haja domínio, nem ciúme, nem obediência - por conseguinte, numa relação em que haja amor? É possível? Como se pode ver alguma coisa claramente - as árvores e as estrelas, o mundo e a sociedade que o homem criou e que é você mesmo - se não há liberdade? Se, abeirando-se desta questão, você a olha com uma ideia, uma ideologia, com medo, com esperança, com ansiedade, "sentimentos de culpa" e as respectivas agonias - é óbvio que não pode ver claramente.

Se você vê tão claramente como o orador a importância de um indivíduo ser completamente livre - livre do medo, do ciúme, da ansiedade; livre do medo da morte e do medo de não ser amado do medo da solidão e do medo de não conseguir livre de todos os temores - se é este, podemos então partir daí. A libertação total é o único problema da existência humana, pois o homem vem buscando a liberdade desde o começo dos tempos, embora dizendo "só há liberdade no céu, e não na Terra". Cada grupo, cada comunidade tem uma diferente ideologia acerca da liberdade. Rejeitando e lançando para o lado todas as ideologias, perguntamos se, vivendo agora neste mundo, temos possibilidade de ser livres. Se você e eu percebemos ser este o único desafio de nossa vida, podemos então começar a descobrir por nós mesmos de que maneira irmos ao seu encontro, olhá-lo, entrar em contato com ele. Podemos começar deste ponto?

Jiddu Krishnamurti em, A libertação dos condicionamentos

Por que não arde em seu coração a chama do amor?


A sociedade, como atualmente está constituída, é uma coisa horripilante, com suas intermináveis guerras de agressão — não importa se agressão defensiva ou ofensiva. Necessitamos de uma coisa totalmente nova, de uma revolução, uma mutação na própria psique. O velho cérebro nenhuma possibilidade tem de resolver o problema humano das relações. O velho cérebro é asiático, europeu, americano ou africano, e, assim, interrogamos a nós mesmos se é possível operar-se uma mutação nas próprias células cerebrais. 

Investiguemos, também, agora que chegamos a compreender-nos melhor, se é possível a um ente humano que vive sua vida normal de cada dia, neste mundo brutal, violento, cruel — um mundo que se está tornando cada vez mais eficiente e, por conseguinte, cada vez mais cruel — se é possível a esse ente humano promover uma revolução não só em suas relações externas, mas também em toda a esfera do seu pensar, sentir, agir e reagir.

Todos os dias vemos ou lemos coisas aterradoras que estão acontecendo no mundo, como resultado da violência no homem existente. Você pode dizer: "Eu nada posso fazer a esse respeito", ou "Como posso influir no mundo?" Eu acho que você pode influir no mundo de uma maneira admirável se em si mesmo não é violento, se vive realmente, em cada dia, uma vida pacífica, uma vida sem competição, sem ambição, sem inveja, uma vida não causadora de inimizade. Pequenas chamas podem tornar-se em incêndio. Reduzimos o mundo ao seu atual estado de caos com nossa atividade egocêntrica, nossos preconceitos, nosso nacionalismo, e quando dizemos que nada podemos fazer a tal respeito, estamos aceitando como inevitável a desordem em nós mesmos existente. Partimos o mundo em fragmentos e, se nós mesmos estamos partidos, fragmentados, nossa relação com o mundo será também fragmentária. Mas se, quando agimos, agimos totalmente, então a nossa relação com o mundo passa por uma enorme revolução. 

Afinal de contas, todo movimento que vale o esforço, toda ação de profunda significação, tem de começar em cada um de nós. Eu tenho de mudar primeiro; tenho de ver qual é a natureza e a estrutura de minha relação com o mundo — e no próprio ato de ver está o fazer — por conseguinte, como ente humano que vive neste mundo, devo criar uma coisa diferente, e essa coisa, a meu ver, é a mente religiosa. 

A mente religiosa difere completamente da mente que crê na religião. Você não pode ser religioso e ao mesmo tempo hinduísta, muçulmano, cristão, budista. A mente religiosa nada busca, não pode fazer experiências com a verdade. A verdade não é uma certa coisa ditada por seu prazer ou sua dor, ou por seu condicionamento hinduísta — ou qualquer que seja a religião a que você pertence. A mente religiosa é um estado de espírito em que não há medo e, por conseguinte, não há crença de espécie alguma, porém, tão-só o que é, o que realmente é

Na mente religiosa há aquele estado de silêncio que não é produzido pelo pensamento, mas é oriundo do percebimento, ou seja da meditação com completa ausência do meditador. Nesse silêncio há um estado de energia isento de conflito. Energia é ação e movimento. Toda ação é movimento e toda ação é energia. Todo desejo é energia. Todo sentimento é energia, todo pensamento é energia. Todo viver é energia. Toda vida é energia. Se se deixa essa energia fluir sem nenhuma contradição, nenhum atrito, nenhum conflito, ela é então ilimitada, infinita. Quando não há atrito, não há limites à energia. O atrito é que dá limites à energia. Assim, percebido isso, por que é que o ente humano sempre introduz o atrito na energia? Por que cria atrito, nesse movimento a que chamamos vida? A energia pura, a energia ilimitada é para ele apenas uma ideia? Não tem realidade? 

Necessitamos de energia, não só para promovermos a revolução total em nós mesmos, mas também para podermos investigar, olhar, atuar. E, enquanto houver atrito, de qualquer natureza, em qualquer de nossas relações, seja entre marido e mulher, seja entre um homem e outro, entre uma e outra comunidade, ou uma e outra nação, ou uma ideologia e outra — se há qualquer atrito, interior ou exterior, em qualquer forma, por mais sutil que seja — há desperdício de energia. 

Enquanto houver um intervalo de tempo entre o observador e a coisa observada, esse intervalo criará atrito e, por conseguinte, desperdício de energia. Essa energia se acumula até o mais alto grau quando o observador é a coisa observada, e nisso não há nenhum intervalo de tempo. Haverá então energia sem motivo, a qual encontrará seu próprio canal de ação, porque, então, o EU não existe.

Necessitamos de uma enorme abundância de energia para compreender a confusão em que estamos vivendo, e o sentimento "tenho de compreender" produz a vitalidade necessária para a compreensão. Mas, o descobrir, o investigar, implica o tempo, e, como já vimos, o gradual descondicionamento da mente não é a maneira certa de proceder. 

O tempo também não é o caminho certo. Quer sejamos velhos, quer jovens, é agora que o integral processo da vida pode ser levado a uma dimensão diferente. A busca do oposto do que somos não é, tampouco, o caminho certo e também não o é a disciplina artificial imposta por um sistema, por um instrutor, um filósofo ou sacerdote; tudo isso é muito infantil. Ao percebermos isso, perguntamos a nós mesmos: "Será possível libertarmo-nos imediatamente desta secular e pesada carga de condicionamento, sem cairmos noutro condicionamento — sermos livres, com a mente completamente nova, sensível, viva, alertada, intensa, capaz?". Eis o nosso problema. Não há outro problema, porque, quando a mente se renova é capaz de enfrentar e resolver qualquer problema, É essa a única pergunta que temos de fazer a nós mesmos. 

Mas, nós não a fazemos. Preferimos ser ensinados. Um dos aspectos mais curiosos da estrutura de nossa psique é o querermos, todos nós, ser ensinados, porquanto somos o resultado de uma propaganda de dez mil anos. Queremos ver o nosso modo de pensar confirmado e corroborado por outrem, ao passo que fazer uma pergunta é fazê-la a nós mesmos. O que eu digo tem muito pouco valor. Você o esquecerá no mesmo instante em que fechar este livro, ou se lembrará de algumas frases, as quais ficará repetindo, ou comparará o que aqui leu com o que leu noutro livro; você não quer olhar de frente a sua própria vida. E só ela é que importa: a sua vida, você mesmo, sua mediocridade, sua superficialidade, sua brutalidade, sua violência, sua avidez, sua ambição, sua diária agonia e infinito sofrer; é isso que você tem de compreender, e ninguém, nem na terra, nem no céu, pode salvar-lhe, senão você mesmo. 

Vendo tudo o que se passa em sua vida diária, em suas atividades cotidianas, quando escreve, quando fala, quando sai de carro ou passeai a sós numa floresta, você pode, num só alento, num só olhar, conhecer a si mesmo, muito simplesmente, tal como é? Quando se conhecer como é, compreenderá então toda a estrutura da luta do homem — seus embustes, suas hipocrisias, sua busca. Para tanto, você tem de ser sumamente honesto perante você mesmo, em todo o seu ser. Quando você age de acordo com seus princípios, está sendo desonesto, porque, quando age conforme o que julga ser correto, você não é o que é. É uma coisa brutal — ter ideais. Se você tem ideais, crenças ou princípios de qualquer espécie, não pode de modo nenhum olhar-se diretamente. Portanto, você pode ser completamente negativo, manter-se inteiramente tranqüilo, sem pensar, sem temer, e ao mesmo tempo estar extraordinariamente, apaixonadamente, vivo? 

Aquele estado em que a mente já não é capaz de lutar constitui a verdadeira mente religiosa, e, nesse estado mental, você pode encontrar-se com essa coisa denominada verdade ou realidade ou bem-aventurança ou Deus ou beleza ou amor. Essa coisa não pode ser chamada. Por favor, compreenda esse simples fato. Ela não pode ser chamada, não pode ser buscada, porque sua mente é tão estúpida e limitada, suas emoções tão vulgares, sua maneira de vida tão confusa, que aquela imensidade, aquela coisa ilimitada não pode ser chamada a sua pequena casa, ao insignificante canto em que você vive, tão pisado e cuspido. Não pode chamá-la. Para a chamar, você deve conhecê-la, e você não pode conhecê-la. No momento em que alguém, não importa quem, diz: "Sei" — não sabe. No momento em que você diz que achou, não achou. Se diz que a experimentou, nunca a experimentou. Tudo isso são maneiras de explorar um homem — seu amigo ou inimigo. 

Perguntamos então, a nós mesmos, se é possível encontrar-nos com essa coisa sem a chamarmos, sem a esperarmos, sem a buscarmos ou explorarmos — se é possível ela "acontecer", tal como a brisa fresca que entra na sala quando deixamos a janela aberta. Você não pode convidar o vento a entrar, mas tem de deixar aberta a janela — o que não significa ficar num estado de espera; essa é uma outra maneira de nos enganarmos. Não significa que deva "abrir-se" para receber; essa é uma outra forma de pensamento. 

Você nunca perguntou a si mesmo por que aos entes humanos falta essa coisa? Eles geram filhos, satisfazem o sexo, têm ternuras, a capacidade de compartilhar as coisas num estado de companheirismo, de amizade, de camaradagem, mas essa coisa — por que razão não a tem? Nunca lhe ocorreu, num momento de folga — ao andar sozinho por uma rua imunda, ao viajar num ônibus, ao passar umas férias à beira-mar, ao passear numa floresta, entre os pássaros, as árvores, os regatos, os animais selvagens — nunca lhe ocorreu perguntar por que razão o homem, que vive há milhões e milhões de anos, ainda não possui essa coisa, essa flor maravilhosa e imarcescível; por que razão você, um ente humano, dotado de tanta capacidade, tanta inteligência, tanta sutileza; você, que tanto compete, que possui uma tão maravilhosa tecnologia, que é capaz de elevar-lhe aos espaços e de descer ao fundo do mar, de inventar fantásticos cérebros eletrônicos — por que razão você não possui essa única coisa verdadeiramente importante? Não sei se alguma vez você já considerou seriamente esta questão: Por que o seu coração está vazio? 

O que você responderia se fizesse a si mesmo essa pergunta; qual seria sua resposta imediata, inequívoca, sem sutilezas? Sua resposta deveria corresponder à intensidade com que fizesse a pergunta, e ao seu sentimento de urgência; mas você não é intenso, nem sente aquela urgência, e isso porque você não tem energia, a energia que é paixão — pois nenhuma verdade se pode descobrir sem paixão — paixão impelida por intenso fervor, paixão sem nenhum desejo secreto. A paixão é uma coisa um tanto assustadora, porque, se você tem paixão, não sabe aonde ela o levará. 

Assim, será o medo a razão por que você não possui a energia daquela paixão, para descobrir por si mesmo por que lhe falta aquela essência do amor, por que não arde em seu coração essa chama? Se você examinou com muita atenção sua mente e seu coração, saberá por que não a tem. Se você é apaixonado, no descobrir por que não a possui, ela se lhe mostrará. Só pela negação completa, a mais alta forma da paixão, torna-se existente aquela coisa que é o amor. Como a humildade, você não pode cultivar o amor. A humildade vem à existência com a total cessação da presunção — e, então, você jamais saberá o que é ser humilde. O homem que sabe o que significa ter humildade é um homem vaidoso. Do mesmo modo, quando você aplica sua mente e seu coração, seus nervos, seus olhos, todo o seu ser, a descobrir o caminho da vida, a ver o que realmente é, e a ultrapassá-lo, a rejeitar total e completamente a vida que hoje vivemos — nessa negação do maléfico, do brutal, torna-se existente a outra coisa. E você nunca o saberá. O homem que sabe que está em silêncio, o homem que sabe que ama, não sabe o que é o amor ou o que é o silêncio. 

Jiddu Krishnamurti em, Liberte-se do Passado

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Pode ser dissolvida a adulteração psíquica?


É importante que se realize uma revolução total — não simples reforma, reorganização da sociedade, porém a completa revolução mental. Faz-se necessária uma mente nova, não só para enfrentar a presente crise, que continuamente se expande e piora, mas essa mente nova é também necessária para descobrirmos por nós mesmos o que é verdadeiro e se há um estado de criação fora do tempo. Isso pede uma mente nova, uma mente não escravizada pela obediência à autoridade e que encerra em si, totalmente, aquele estado de humildade no qual, tão só, é possível aprender.

[...] Pode a pessoa se libertar da sociedade? Pois é só pelo se libertar da sociedade que surge o indivíduo, a individualidade. E tem esse indivíduo alguma possibilidade de tornar existente uma mente nova? A sociedade é o passado e cada um de nós é o resultado do passado. Cada um de nós resulta de seu ambiente, da sociedade em que vive, do meio cultural em que se criou, da propaganda religiosa inculcada através de séculos. Cada um é resultado de tudo isso, ou seja, do passado. É possível ao indivíduo se libertar totalmente desse passado, que não é apenas o dia de ontem, porém muitos milhares de dias pretéritos...?

O passado não é apenas tradição, mas também o resultado dessa tradição que, em conjunção com o presente, cria o futuro. Visto que para a maioria de nós a tradição é importantíssima, devemos compreendê-la. Há a tradição do tecelão, a tradição do cientista, a tradição do erudito, a tradição da chamada “pessoa religiosa”, a tradição da técnica. Onde traçar a linha de demarcação entre todas essas variedades de tradição, e quando é que o conhecimento técnico é essencial para se viver neste mundo, e quando é totalmente prejudicial para a mente criadora?

Penso que cada um de nós deveria compreender esse problema da tradição, porquanto a tradição é afinal de contas “hábito amadurecido pelo tempo”. E esse hábito dá forma ao nosso pensamento, molda a nossa existência, nos força a exercer um emprego, a manter uma família, o que acarreta responsabilidades, deveres e moralidade, que também inclui a obediência. Todas essas coisas são, por certo, tradição, compõem a tradição, constituem a tradição.

Pode a tradição concorrer para suscitar a mente criadora, isto é, a mente nova? Ou o hábito impede a total apreensão daquilo que se acha além do tempo? Não há hábito bom e hábito ruim— todo hábito é a mesma coisa. Mas, sem dúvida, é de extraordinária importância libertar a mente do hábito, porquanto um hábito nada mais é do que uma técnica, uma maneira fácil de viver, em que não se necessita pensar profundamente. É por essa razão que a maioria de nós cultiva hábitos, os quais se tornam quase automáticos, de forma que não temos necessidade de exercer em demasia nossa vitalidade ou nosso pensar. Assim, cultivamos os hábitos, os quais, gradualmente, com o tempo, se tornam tradição.

Ora, tudo isso vem a ser o passado, o passado que inclui as ideias, os deuses, as diversas influências conscientes, as várias compulsões e ânsias, as numerosas acumulações a que estamos apegados. Tudo isso — não apenas as memórias acumuladas do indivíduo, da pessoa, mas também os conhecimentos acumulados da humanidade, através dos séculos — constitui o passado. A acumulação, no consciente, é a atual educação técnica, as influências ambientes e sociais do presente. Há, também, no inconsciente, o resíduo de milênios de esforços humanos — conhecimentos, esperanças, frustrações, exigências imprevistas. Eis o passado. Você é o passado, e nada mais há senão o passado.[...]

Eu estou certo de que o passado pode ser completamente dissolvido. O futuro, o desconhecido, acha-se além da muralha do passado. Mas, para ir além, para romper a muralha, o indivíduo precisa examinar a fundo a questão do passado. Não é possível penetrar verbalmente o inteiro processo da consciência. Não é possível investigar com o pensamento. O pensamento é incapaz de investigação, porque o pensamento nasce de reação. O pensamento é reação da memória, e a memória brota da experiência; a experiência é o condicionamento em que fomos criados. O pensamento, pois, não constitui o meio de investigar, o instrumento de indagação, inquirição.

Assim, ao percebermos muito claramente, penetrantemente, que o pensamento não é o instrumento de investigação, de que maneira poderemos, então, investigar, compreender?[...]

E se o intelecto não é o instrumento de investigação, não é o meio de abrir a porta, qual é então esse meio? Não estou empregando a palavra “meio” no sentido de método, sistema, prática, disciplina — pois tudo isso são infantilidades, não importa quem diga o contrário. A mente que segue um sistema é uma mente estreita, limitada. E a mente disciplinada, moldada, controlada, deixa de pensar. Mas eu estou empregando a palavra “meio” noutro sentido, e indagando se isso a que acabo de me referir não constitui o meio, o que é então que o constitui? Se o pensamento não é o meio de descobrir como dissolver o passado, porque o próprio pensamento é o passado, resultado do passado — e, por conseguinte, incapaz de dissolver o passado — qual é então o meio? Como pode o passado ser dissolvido?[...]

A mão que dá não pode ao mesmo tempo tomar. O pensamento deseja dissolver o passado e, no entanto, o pensamento se origina do passado. Nenhuma ação, nenhuma “projeção”, nenhum desejo, nenhuma volição procedente do passado pode dissolvê-lo, pois tudo isso são ainda coisas do passado. Tudo o que você fizer, cada ação, cada sacrifício, cada movimento da mente é coisa do passado; e o pensamento, o que quer que faça, não pode dissolvê-lo.[...] O passado pode dar a técnica da existência diária, constitui ele o mecanismo da existência cotidiana; oferece-nos meios, facilidades, mas não pode nos levar muito longe. E nós temos de empreender uma viagem para além do passado, do tempo; e isso é necessário porque a única revolução importante é a revolução religiosa. E só essa revolução pode extrair a ordem desta desordem.[...]

O pensamento, pois, em nenhuma circunstância nos oferece o meio de sairmos do passado. O passado é necessário, pois, do contrário, não poderíamos saber onde moramos, não saberíamos nosso próprio nome, não poderíamos nos dirigir ao escritório, não reconheceríamos nossa mulher, nosso marido, nossos amigos, nossos filhos, não saberíamos sequer falar. O passado é memória, e a memória é essencial. Não podemos jogá-la fora. Mas o cultivo da memória, que é o conhecimento, que é a expansão do pensamento, não pode de modo nenhum quebrar a muralha do passado. E a mente, por conseguinte, nunca é nova, fresca, jovem, inocente. E é só essa mente nova, fresca, inocente que conhece a humildade — e não aquela que está levando a carga do passado.

Assim, como romper o passado? Há um ato que se realiza com o ver.[...] Nossa mente é por demais complicada, imatura, cheia de informações sem nenhum valor,  tão temerosa e insegura. Vendo-se insegura, a mente busca a segurança e, dessa maneira, aumenta a insegurança; e essa mente é incapaz de ver qualquer coisa simples e, por conseguinte, de agir com simplicidade. 

[...] Há o passado, ninguém o pode negar. Ele aí está, sólido, embrutecido, e mutilando, e destruindo a mente nova, que deve se conservar bem viva. Isso é um fato, não apenas um fato exterior, mas também um fato psicológico. É preciso ver o fato sem condenação, sem julgamento, vê-lo meramente, ver o que é o passado. 

[...] Você tem de demolir tudo, para ser capaz de criar, cumpre impugnar tudo. E, nesse próprio impugnar, torna-se existente a individualidade; do contrário, continuamos a ser a "massa". E, certamente, isso é que é necessário hoje em dia: duvidar de tudo, duvidar, mas sem desejar encontrar a solução. Se duvidamos com um motivo, isso já não é duvidar; o que se quer é meramente um resultado. Mas, se se duvida sem nenhum motivo — o que é verdadeiramente uma coisa extraordinária — a mente está então capacitada para ver o verdadeiro.  

É , portanto, muito importante que se torne existente uma mente nova, uma mente fresca. E a mente não pode se tornar assim, se está sob a carga da autoridade. A autoridade não é apenas a do guru, a do livro, a da mulher e do marido, etc., a da vontade de dominar, mas há também uma autoridade de significação mais profunda, que é a da experiência. Porque quase todos nós vivemos segundo a experiência, esta se torna nossa autoridade... — e isso, mais uma vez, é o passado: a autoridade de que a mente consciente está cônscia e também a autoridade constituída pela experiência acumulada no inconsciente. Experiência é reação a desafio.... E nenhuma "resposta" ou reação da experiência, pertencente ao passado, pode quebrar-lhe a muralha. Assim, a autoridade, de qualquer espécie que seja, interna ou externa, não libertará a mente do passado. E nunca você será senhor do futuro, a não ser nas coisas mecânicas, porquanto o futuro é o "desconhecido". Mas, nós olhamos o futuro, o amanhã, com os olhos do passado e, por conseguinte, pensamos poder controlá-lo. E, de fato, mecanicamente, nós o controlamos: amanhã irei ao escritório, amanhã colherei certos resultados em minhas atividades, etc. etc. Mecanicamente, você irá fazer coisas de todos os gêneros;  por isso você pensa que é senhor do futuro, que é o amanhã. Como você pode ser senhor de algo que desconhece? Como pode ser o senhor de uma mente nova, fresca, inocente? Assim, ao você ver que certas formas externas de autoridade são necessárias, tal a autoridade do engenheiro, do médico, do governo, da Lei, do policial, mas que qualquer outra forma de autoridade é destrutiva e impede a mente de ser livre, então sua mente poderá ser livre. E só a mente livre pode passar além.

[...]O ato de ver, sem condenação, julgamento, avaliação, sem a palavra, que é pensamento; o ato de olhar, observando cada movimento, cada sentimento, prestando atenção total a tudo o que você veste e sente — esse ato de ver produz uma mente nova, uma mente fresca. Essa mente nova não é criada pelo pensamento, pela moderna educação, pelo frequentar o templo, ler incessantemente o Gita ou o Corão ou a Bíblia. Ela só pode nascer do ver; e, para você poder ver, tem de contestar com todas as forças. E o próprio ato de ver é bem destrutivo, porquanto destrói a sociedade em que você foi criado. Já não lhe interessa nenhuma reforma da sociedade. Você não pode reformar a sociedade, porquanto a sociedade é resultado do passado. E se a quiser reformar, você ainda está dentro do passado. Mas o homem que quebrou completamente o passado — e isso é possível — esse homem, uma vez que está só, pode influir na sociedade; mas isso é secundário.

Por conseguinte, o importante e essencial é ver-se a necessidade de uma mente nova. E a mente nova não pode ser criada pelos artifícios da mente, ou seja o pensamento. A mente nova só pode nascer quando se contesta a sociedade em que se foi criado. Mas você não pode contestá-la se tem um motivo. Assim, o ver a autoridade, o ver a obediência liberta a mente da obediência. Afinal de contas, o que nos impede de ver é a condenação, a justificação — e isso é o passado. Assim, quando você olha, quando vê, quando escuta, sem condenação, está livre do passado. Você pode olhar, e para fazê-lo necessita da atenção; e a atenção é a essência da energia. E essa energia só pode tornar-se existente quando você está constantemente olhando, vigiando, observando, vendo, contestando. Assim, em virtude desse extraordinário escutar e ver a mente desfez suas amarras, sua ligação com o passado. A mente está ancorada no passado, a mente é o passado; mas quando a mente dá toda a atenção ao ver, está quebrado o passado. E só essa mente fresca, jovem, inocente, pode ultrapassar as limitações que a mente a si própria impôs. Só então é possível uma pessoa descobrir por si própria, como indivíduo que já não faz parte da sociedade, se há ou se não há o Imensurável.

Krishnamurti em, A mutação interior

quarta-feira, 27 de abril de 2016

A vida não é só indústria e o exercício de um emprego


Nós não somos verdadeiros indivíduos; somos o resultado do "coletivo". Você é o resultado de sua sociedade, da religião, da educação, do clima, da alimentação, dos trajes, da tradição, do meio em que você foi educado — você é isso, exatamente. E pensar que você é um "indivíduo" constitui verdadeiro absurdo, como você verá, se investigar profundamente a questão. Você pode ter um nome, um corpo diferente, uma conta de banco, certas qualidades superficiais; mas, essencialmente, a totalidade de sua mente está bem condicionada pela sociedade em que foi educada. E a capacidade de perceber essa condição e de romper a crosta secular do passado — essa é a qualidade, a intensidade, a compreensão que faz nascer a individualidade. Porque só a entidade individual, e não a coletiva, é capaz de descobrir o que é real. Só a mente individual, e não a coletiva, pode verificar se há, ou se não há aquilo que se chama "Deus". A mente coletiva só sabe repetir a palavra; mas a palavra "deus" não é Deus. A mente "coletiva" pode ler o Gita, citar os Upanishads e todas as autoridades religiosas; mas essa mente nunca descobrirá o verdadeiro. Só a mente que rompeu com a tradição, que debruçou os valores impostos pela sociedade, que se libertou do passado — só ela é capaz de descobrir

E o que nos interessa é descobrimento, e não asserções, acordos e desacordos. Nós mesmos é que temos de descobrir. Mas é quase impossível descobrir o verdadeiro, descobrir se existe o atemporal, além dos limites da mente — se você pertence a qualquer religião organizada; porque crença e dogma são, essencialmente, obstáculos ao descobrimento. Só a mente que percebe todas as falsidades e influências condicionadoras dessa propaganda rotulada de "religião" — só essa mente pode se libertar, descobrir. 

Mas isso requer muita penetração, muita investigação, vigilância, percebimento das coisas como são, e não mera aceitação ou rejeição puramente intelectual. Porque o aceitar ou rejeitar é simples questão de intercâmbio verbal. Mas, se realmente empreendermos o trabalho de descobrir — e nós precisamos descobrir — temos de colocar em dúvida todas as instituições. Pois todos devemos nos tornar conscientes da situação mundial, da geral deterioração. As religiões falharam completamente. A educação não trouxe a paz ao mundo, embora se pensasse, outrora, que, se dando instrução ao homem, ele se tornaria tão civilizado que deixaria de haver guerras, já não haveria nacionalidades. Mas tudo isso foi "por água abaixo", porquanto, com os atuais meios de intercomunicação, está se verificando extraordinária mutação. A rapidez com que está se processando essa mutação é bem mais significativa do que a própria mutação. E não há paz neste mundo, e nenhum político, de qualquer espécie que seja, jamais conseguirá trazer a paz ao mundo. Isso porque os políticos — tal como a generalidade das pessoas, que também são parcialmente políticas — estão interessados principalmente nos problemas imediatos: o imediato bem-estar, a ação imediata, sem se preocupar com a perspectiva. Observando sua própria vida, poderá ver que você não sente interesse na totalidade da vida, se lhe interessando o "imediato" — seu emprego, sua posição, sua família, etc. — tudo isso dentro dos limites do "imediato". O político é obviamente um homem interessado nas coisas imediatas. E os chamados líderes sociais e religiosos estão igualmente interessados no "imediato". 

Mas é necessário promover uma revolução radical. Pode uma pessoa não estar consciente da atuação da deterioração mental. Entretanto, se você observar, verá que há cada vez menos liberdade no mundo. As democracias falam em liberdade; mas todos têm de se submeter às regras do partido, ou á tradição. E a observância da tradição é, evidentemente, uma coisa fatal, porque impossibilita o homem de ver claramente, de discernir profundamente. E, em vista não só do estado em que se acha o mundo, mas também da angústia e da confusão nele reinantes, os que pensam com certa clareza tratam de negar a importância dos líderes e da autoridade; e o resultado é mais confusão, mais conflito e, por conseguinte, mais deterioração. 

Estou certo de que você tem feito a si mesmo esta pergunta: Que se deve fazer num mundo que se acha em rápido declínio; que se pode fazer a respeito da guerra, da ameaça da boma, da tirania e do cerceamento da liberdade; e que pode fazer um indivíduo em face do problema da fome em todo o Oriente, da pobreza, da degradação, da geral desumanidade? Que podemos fazer, você e eu? Ou a ação cabe ao Governo e em nada concerne ao indivíduo? E, também, você deve ter perguntado a si mesmo: vendo-se o mundo como é, existe alguma realidade, uma coisa que se possa "experimentar", descobrir? estas perguntas só podem ser feitas quando a pessoa está muito profundamente insatisfeita, em profundo descontentamento. Mas a maioria de nós, quando nos vemos descontentes, encontramos fáceis possibilidades de nos contentarmos, fáceis maneiras de nos satisfazermos. E não sei se você tem notado que, quanto maior a confusão, quanto maior a incerteza, tanto maior se torna a busca de autoridade, tanto maior o desejo de nos apoiar nas coisas do passado. E observando tudo isso, observando os fatos os fatos que estão realmente sucedendo — os fatos, e não as opiniões relativas aos fatos, não o seu concordar ou sua tradução dos fatos em conformidade com o seu fundo — se torna evidente a necessidade de você ter uma mente nova, para enfrentar esses fatos, para compreendê-los e instituir uma diferente maneira de viver.

Sem dúvida, o problema é que há um imenso acúmulo de conhecimentos provenientes dos séculos passados, o peso do passado diante do futuro, que é desconhecido, uma parede lisa, que você desconhece completamente, mas o traduz nos termos do pretérito e, por conseguinte, pensa conhecê-lo. Mas, realmente, não o conhece. E esse me parece ser o problema central para o homem que realmente sentiu e, profundamente, fez a si próprio perguntas irrespondíveis — pois a maioria das pessoas faz perguntas com o fim de encontrar as respostas. 

[...] Assim sendo, observando-se tudo isso — que a religião perdeu todo o seu significado, que a educação está formando técnicos e não entes humanos, que a existência moderna é extremamente superficial — que cumpre fazer? Como encontrar uma saída desse matagal, desse caos? Tudo depende da maneira como você faz a pergunta. Você pode fazê-la em consequência de reação e encontrar, assim, uma resposta que será  também uma reação; ou pode fazê-la sem esperar resposta alguma. Ao fazer uma pergunta sem esperar resposta, pois não há uma resposta, você é reenviado a si mesmo e, por conseguinte, tem de indagar dentro de si mesmo e não fora de si.

Em geral fazemos perguntas porque desejamos respostas. Tenho um problema que desejo resolver; portanto, faço uma pergunta. Não desejo descobrir a verdade contida no próprio problema, não desejo penetrá-lo profunda e inflexivelmente; o que eu quero, a todo transe, é encontrar a solução, porque o problema me perturba. Desejo uma resposta satisfatória, confortante, conveniente — e essa resposta naturalmente, será uma reação. Dessa forma, toda indagação produtiva de reação só pode produzir mais reações e, consequentemente, mais problemas. Você pode aplicar isso a si mesmo, se lhe apraz, por si mesmo pode ver a sequência lógica de tal indagar. Ou pode perguntar, sem estar buscando, sem estar desejando nenhuma resposta; e, então, quando o faz, você é reenviado a si mesmo e, por conseguinte, tem de indagar, interiormente, como sua mente pensa, o que pensa e o porque o pensa — pois o que você pensa e porque você pensa, o que sente e o porque sente, isso é que cria o problema. Se, sem se compreender, se limitar a fazer uma pergunta que lhe proporcione resposta satisfatória, está evitando o fato —  o que é — e esse fato é que você é o criador do problema, e não a sociedade, não a religião, em seu estado atual.

Assim, é muito importante a maneira como você faz a pergunta — e você tem de fazê-la. Se você a formula com o desejo de encontrar uma saída das aflições e da confusão reinantes no mundo, encontrará facilmente um guru, algum profeta, algum guia ou líder que momentaneamente poderá aplacar seu descontentamento, sua aflição. Mas, no fim de tudo, onde você fica? Continua no mesmo lugar onde estava por não ter compreendido que é o criador dos problemas. Mas, se pergunta e não tenta obter resposta, sua pergunta então tem o fim de descobrir; mas você só pode descobrir examinando seu próprio pensar, a qualidade do seu sentir, a natureza de suas emoções.

O que vamos fazer nestas palestras não é dar soluções a problemas, já que isso é sem valor, trivial; o que vamos fazer é aprender como olhar os problemas, como investigar cada problema que a vida apresenta, de modo que, pelo correto investigar, possamos descobrir. Com as palavras "correto investigar" quero dizer: jamais procurar a solução em ninguém, em nenhum livro, nenhuma autoridade, porém, sim, investigar com o fim de compreender todo o conteúdo do problema. E para esse investigar se necessita de uma mente bem clara, penetrante, lógica, sã, capaz de enfrentar fatos. Você deve ver que a sua mente está completamente presa ao passado, à tradição, à memória, à experiência de milhares de dias idos, e que com ela é que você olha a vida — a vida que é perene movimento e variação, que nunca pára. Assim, a mente promana do tempo, sendo "tempo" o passado que molda cada pensamento e sentimento. Com essa mente, que é o passado, o resultado de séculos de tempo, estamos tentando compreender a extraordinária mutação que está ocorrendo no mundo, estamos procurando compreender o sofrimento. Com essa mente, buscamos compreender o futuro, o desconhecido.

Assim, impende compreender por nós mesmos, e para isso precisamos investigar o estado de nossa própria mente — não tentando "resolver" o estado da mente, porém, sim, compreendê-lo. É necessário compreendê-lo. Com a palavra "compreender" quero dizer: olhar as coisas sem condenação, olhá-las sem avaliação — o que é dificílimo para a maioria das pessoas, senão todas; olhar, ver, escutar, sem introduzir opiniões, juízos, condenações e justificações: apenas olhar. Não sei se alguma vez você já fez isso — olhar sem pensamento, olhar uma flor sem lhe aplicar todos os seus conhecimentos de botânica — olhá-la, simplesmente. Se o experimentar, verá o quanto isso é difícil, pois a mente é escrava das palavras. Para a maioria de nós a palavra é mais significativa  do que o fato. Enquanto a mente for escrava de palavras, de conclusões, de ideias, será totalmente incapaz de olhar e compreender

Compreender um fato não é ter opinião a respeito dele, mas, sim, ter a capacidade de olhá-lo — olhá-lo sem julgamento, sem a palavra. Não sei se alguma vez você já olhou para uma ave ou uma árvore, ou para a esqualidez, a imundície das ruas. Estou empregando as palavras "esqualidez" e "imundície" no sentido lexicográfico, sem lhe emprestar nenhum conteúdo emocional. Porque, veja bem, se você está apto a olhar, deixa de haver medo. Não há temor ao ser capaz de olhar, capaz de olhar a si mesmo. E você precisa dessa maneira, pois só assim poderá se conhecer. Se não se conhece, nenhuma razão você tem para pensar, nenhuma base tem para o pensamento, pois é um mero autômato, que pensa o que lhe é mandado pensar. Mas, se você for capaz de se observar, se observar seus modos de ser, seu pensar, suas atividades, observar como olha as pessoas, o que vê, o que faz, como fala — tudo isso — descobrirá então que essa observação, esse ver, esse total percebimento é energia, é a chama que consome o passado.

E verá então, por si mesmo, que a mente penetrou fundo em si mesma profundamente, porque o fomento da educação, do progresso, da industrialização, está nos tornando cada vez mais superficiais. E a vida não é só indústria, não é só exercer um emprego, ganhar dinheiro e gerar filhos. A vida é coisa bem mais grandiosa do que tudo isso, incluindo também tudo isso. Mas o menor não pode conter o maior; o maior é que contém o menor. Entretanto, aparentemente, nos contentamos com o menor e, por conseguinte, estamos interessados no "imediato" E a vida está se tornando sobremodo superficial. Você pensa que ir semanalmente ou diariamente a uma cerimônia hinduísta, a isto ou áquilo, lhe torna muito "direto", você pensa ser muito atencioso porque leu uns tantos livros; mas tudo isso é muito superficial. O profundo não se encontra em nenhum livro, ainda que seja o Gita ou os Upanishads. Não se encontra em nenhum guru, nenhum templo ou igreja. Cumpre ser encontrado dentro de você mesmo. Você tem de penetrar muito, penetrar profundamente em si mesmo, passo a passo, observando cada movimento de seu ser, cada ação, cada sentimento. E verá então que não há limite, que nunca se alcança o fundo daquilo que você vê.

Certamente, só a mente que de todo se dissociou da sociedade, da tradição, que se tornou capaz de estar completamente , só ela pode descobrir se existe o inefável, o incognoscível. E existe. Digo que existe; mas isso nenhum valor tem para você, absolutamente, porque você é que tem de descobri-lo. O laboratório é você mesmo; cabe-lhe demolir, destruir tudo, para poder descobrir. Essa é a única revolução interessante, de profunda significação; não o é a revolução econômica, a revolução social, a revolução industrial a que estamos assistindo neste país.

Só há uma revolução: a revolução da mente, a revolução da consciência; e essa revolução não se realiza com discussões, com palavras, com inferências e conclusões. Essa revolução chega, profunda, douradora, precisa, ao penetrar em si mesmo, sem aceitar coisa alguma e, por conseguinte, contestando tudo. E, com esse próprio contestar, que não é busca de nenhuma resposta, você descobrirá que uma extraordinária revolução ocorrerá sem esforço algum. E só então a mente pode descobrir por si mesma se há, ou não, o atemporal.

Jiddu Krishnamurti em, A Mutação Interior

O que nos dará uma mente não adulterada?

A mente religiosa (não adulterada) é aquela que não está ligada a nada; só ela pode descobrir o que é verdadeiro e o que é falso. Só ela pode descobrir se há, ou não, uma Realidade, Deus, uma coisa Atemporal — mas não a mente ligada a alguma coisa, a mente que acredita ou não acredita. O homem que vai à igreja, que mantém práticas espirituais e toda espécie de artifícios, de certo, não possui uma mente religiosa. A mente religiosa vê a falsidade de tudo isso, totalmente, completamente; assim sendo, porque é livre e não está firmada numa posição, numa base, , da qual parte para investigar, ela inicia sua investigação livremente. Essa mente, por conseguinte, é desapaixonada, sã, racional, capaz de raciocinar — e tal é, afinal de contas, a característica da mente científica. Mas a mente científica não é uma mente religiosa. A mente científica está interessada em examinar uma certa parte da existência, um segmento da vida; a mente científica, portanto, não pode compreender a totalidade em que a mente religiosa compreende. 

Para se ter essa mente religiosa (não adulterada), necessita-se de uma revolução, não econômica ou social, porém psicológica — uma revolução na psique, no próprio processo do nosso pensar. Ora, como fazer despontar essa mente? Vemos a necessidade dessa mente (não adulterada) — da mente nova, sem fronteiras; da mente nova, não ligada a nenhum grupo, raça, família, cultura ou civilização; da mente nova não resultante da moralidade social. A moralidade social não é moralidade nenhuma, pois só lhe interessa a moral social; cada um pode ser ambicioso, cruel, vão e invejoso, à vontade. E a moral social é inimiga da mente religiosa. 

Assim, como nascerá uma mente religiosa, a mente nova? Como você tratará de obtê-la? Esta não é uma pergunta retórica. Este problema se apresenta para todos nós: como ter uma mente fresca, jovem, nova — pois a mente velha não resolveu coisa alguma e multiplicou os seus problemas. Como você tratará disso, que empreenderá para suscitar essa mente? Você precisa de algum sistema, algum método? Veja, por favor, a importância desta pergunta que estou fazendo, veja o seu significado. Necessitamos de uma mente nova, que é de essencial importância; mas como alcançá-la? Por meio de algum método — que é sistema, que é prática, ação que se repete dia a dia? Um método pode produzir a mente nova?[...]

Sem dúvida, todo método implica em prática continuada, dirigida por um certo caminho, para a obtenção de determinado resultado — e isso, afinal, significa adquirir um hábito mecânico, e, por meio desse hábito mecânico, fazer surgir uma mente que não é mecânica. É isso, essencialmente, o que implica o método. Você diz "Disciplina", mas toda disciplina se baseia num método ajustado a um certo padrão; e o padrão lhe promete um resultado, predeterminado pela mente que já tem uma dada crença, que já adotou uma certa posição.  Assim, pode um método, no sentido mais amplo ou mais restrito da palavra, produzir aquela mente nova? Se não pode, então o método, como hábito, deve desaparecer completamente, porque é falso. Não importa se foi Sankara, Buda ou o santo mais moderno que lhe preconizou o método, ele é completamente falso, porque todo método só serve para condicionar a mente de acordo com o resultado desejado. Mas, você sabe o que é a mente nova — a mente fresca, jovem, "inocente"? Como pode saber? Não pode saber; precisa descobri-la. Por conseguinte, deve abolir todo o processo mecânico da mente.[...] A mente deve se livrar de todo o processo mecânico do pensamento. Não é verdadeira a ideia de que um método, sistema, disciplina, hábito, produzirá essa mente. Portanto, tudo isso tem de ser abolido completamente, por serem coisas mecânicas. A mente mecânica é uma mente tradicional, não está apta a enfrentar a vida, que não é mecânica; o método, consequentemente, tem de ser colocado de lado. Desse modo, o que deve ser feito para o alcance da mente nova? 

O conhecimento — que é experiência — lhe dará a mente nova? Experiência é a reação a um desafio, e o desafio, por certo, de de acordo com a sua memória, de acordo com seu condicionamento. O conhecimento, pois — que é experiência — lhe ajudará a alcançar a mente nova? Não deve a mente nova se achar num estado de "não experiência"? [...] Há desafio e "resposta" reação). Vivemos dessa maneira. A cada instante a vida nos desafia, e nós "respondemos". Respondemos segundo o nosso condicionamento hinduísta, muçulmano, etc. Se você rejeita o desafio externo — e muito poucos o fazem — cria seu próprio desafio interno, psicológico — as incertezas interiores e suas reações a elas. E tudo isso, tanto a reação externa como a interna, baseiam-se na experiência. E essa experiência sempre se acumula como conhecimento, como tempo.[...] Sendo o tempo experiência, na forma de conhecimento, ele produzirá uma mente nova? Claro que não, porque a própria expressão "mente nova" sugere algo novo, totalmente novo, que não pode ser produzido pela experiência. A experiência é sempre o passado — isto é, tempo. Percebe-se assim que nem o hábito, nem a experiência como conhecimento, produzirão a mente nova, e tampouco a alcançaremos por meio do tempo. 

Se você negar tudo isso — como não poderá deixar de fazer, se tiver penetrado em si mesmo e se examinado — verá então que a total negação de tudo o que você sabe, de toda experiência, toda tradição, todo movimento nascido do tempo, é o começo da mente nova. Para negar totalmente, se necessita de energia. Em geral recebemos energia da resistência. Recebemos energia da fuga; recebemos energia da inveja, da ambição, da avidez, da brutalidade, do desejo de amor. Mas essa energia cria a correspondente contradição, e esta dissipa a energia. A maioria de nós não tem energia para negar e permanecer nesse estado de negação, que constitui a mais elevada forma de pensar. Mas essa negação gera energia, porque nela não há contradição. 

Assim, a mente religiosa, ou mente nova, é a mente revolucionária. Porque, então, a mente já não é ambiciosa, invejosa; percebeu o significado da inveja, da ambição, da autoridade e, por conseguinte, delas se livrou — não no fim, porém no presente, imediatamente. E essa negação é própria da meditação. Meditação não é essa coisa simplória consistente em repetir palavras, sentado à frente de uma imagem, procurando ter visões e todas as correspondentes sensações; meditação é, sim, o percebimento constante que nos faz ver o falso e negá-lo totalmente. Essa negação provê energia — não a energia que nasce do conflito, não a energia recomendada pela chamada mente religiosa, que nos manda ser celibatários toda a vida, etc. etc; tudo isso são formas de resistência e, por conseguinte, contradição. Pode-se ver realmente a totalidade desse processo, compreendê-lo completamente, quando não nos colocamos num "ponto alto" para, daí, o examinarmos. Só a mente religiosa pode ir muito longe, só a mente religiosa pode descobrir o que transcende as medidas da mente. 

Jiddu Krishnamurti em, A Mutação Interior    

Não é nada fácil despertar

Não é nada fácil despertar para o fato de que se é um adulto adulterado adulterante; de que até o momento do despertar, nunca se soube o que é, de fato, a alegria de viver, mas sim, a triste dualidade imposta pela euforia e o esforço desumano pelo "sub-existir". Mais difícil ainda é a constatação de que, de forma totalmente inconsciente, acabamos transferindo para terceiros tal adulteração sofrida através da cultura e da chamada educação. Não é fácil fazer o balanço e constatar o enorme prejuízo mental, emocional, espiritual — e também material —, que sofremos e que automaticamente transferimos à outros seres humanos que, como nós, no momento de seus contatos conosco, também se mantinham adormecidos, enredados na compactuada ilusão de estarem vivendo. A lista de reparação é tão enorme que não sabemos nem mesmo por onde começar.

terça-feira, 26 de abril de 2016

A desadulteração nasce da agitação, confusão e desespero


Sabemos que temos de mudar, não só externamente, mas também profundamente, psicologicamente.

As mudanças externas são muitas. Somos forçados a nos ajustar a um certo padrão de atividade, mas, para enfrentarmos os desafios da vida diária, necessitamos de uma profunda revolução. Em geral temos uma ideia, um conceito do que "deveríamos ser", entretanto nunca mudamos fundamentalmente. Ideias ou conceitos sobre o que "deveríamos ser", não nos fazem mudar, em absoluto. Só mudamos quando somos obrigados a fazê-lo e nunca vemos diretamente a necessidade de tal mudança. Quando realmente queremos mudar, se apresenta muito conflito e resistência, e desperdiçamos uma grande soma de energia em resistir e em erguer barreiras. 

A mera aquisição de conhecimentos, a mera audição de uma grande quantidade de ideias e de discursos, não produz sabedoria. O que produz sabedoria é a auto-observação, o auto-exame. Para esse exame, devemos estar livres do censor, da entidade que está sempre a avaliar, a julgar, a comparar. Só então se pode olhar, examinar. Só há ação imediata, com aquela observação em que não se criam ideias. O homem vive aparentemente há mais de dois milhões de anos, e a história da humanidade registra um total de quinze mil guerras (nos últimos 5.500 anos) — quase três guerras por ano! Estamos perpetuamente em conflito uns com os outros, tanto externa como internamente. Nossa vida é um campo de batalha e parecemos totalmente incapazes de resolver os nossos problemas. Estamos sempre a adiá-los, evitá-los, ou a procurar resolvê-los de acordo com nossos conceitos, ideias, preconceitos, conclusões. Podemos continuar por mais dois milhões de anos, vivendo dessa maneira superficial, talvez melhor alimentados, com melhores roupas e moradias, porém interiormente estaremos sempre em guerra — com nós mesmos e com nosso próximo. Tal foi sempre o padrão  de nossas vidas. 

Para a criação de uma boa sociedade, os entes humanos precisam mudar. Você e eu temos de achar a energia, o ímpeto, a vitalidade necessária para operar essa radical transformação da mente, que não é possível se não temos suficiente energia. Necessitamos de muita energia para operar uma mudança em nosso interior; entretanto, desperdiçamos nossa energia em conflitos, resistência, ajustamento, aceitação, obediência. Estamos desperdiçando energia quando estamos procurando nos ajustar  a um padrão. Para conservarmos nossa energia, temos de estar atentos a nós mesmos, à maneira como dissipamos energia. Este é um problema secular, pois a maioria dos entes humanos sempre foi indolente. Preferem aceitar, obedecer e seguir. Se nos tornamos conscientes dessa indolência, dessa preguiça tão profundamente arraigada, e procuramos estimular a mente e o coração, a intensidade desse esforço se torna, por sua vez, conflito, que é também dissipação de energia. 

Nosso problema — um dos muitos que temos — é como conservar essa energia, a energia necessária para provocar a explosão na consciência — explosão não preparada pelo pensamento, porém que se verifica naturalmente, quando não há desperdício de energia. O conflito, em qualquer forma, em qualquer nível, em qualquer profundidade de nosso ser, representa sempre dissipação de energia. Bem o sabemos, e entretanto aceitamos o conflito como norma de vida. Para compreender a natureza e a estrutura do conflito, temos de considerar a questão da contradição. A maior parte de nossa vida de cada dia é uma fonte de conflito. Se observamos nossa existência diária, nossa vida, percebemos quanto conflito há em nós — o que somos e o que "deveríamos ser", desejos contraditórios, prazeres contraditórios, variadas influências, pressões, tensões, resistência criada por nossas ânsias e apetites. Aceitamos o conflito como parte de nossa existência. Por que vivemos em conflito? Nesse mundo moderno, e levando a vida que levamos, temos possibilidade de viver sem conflito? Isso significa viver sem contradição. 

Ao se fazer uma tal pergunta, ou ficamos esperando uma resposta, uma explicação, ou nos tornamos conscientes da natureza de nossas contradições e de nosso conflito. Por "estar consciente" entendo observar, examinar, sem julgar, sem escolher — perceber nossa vida de cada dia e seus conflitos; só isso. Começaremos, etão, a compreender a estrutura da contradição. Sabemos, em geral, que estamos vivendo em contradição, reprimindo uma coisa e seguindo outra, o oposto; ou tratando de esquecer completamente nossa contraditória existência e de viver superficialmente, a fugir. Mas, quando nos tornamos conscientes da contradição, a tensão se torna muito maior, porque não sabemos como resolver esse conflito, essa batalha incessante que se trava dentro de cada um de nós, de cada ente humano. Incapazes, que somos, de resolvê-la, esclarecê-la, a tensão se torna muito maior, ocasionando neuroses e psicoses. Entretanto, se nos tornamos conscientes, sem escolha, dessa contraditória natureza de nosso existir, se ficamos simplesmente a observar o conflito, sem o desejo de resolvê-lo e sem parcialidades — observar simplesmente — descobriremos que existirá sempre conflito enquanto o "observador", o "censor", for diferente da coisa que está olhando. É esta, a meu ver, a raiz do conflito. Oxalá pudéssemos compreender isso não filosoficamente, não por meio de explicações, de aceitação, porém pela simples observação!

Consideremos, por exemplo, a solidão, esse sentimento de isolamento que cada um de nós conhece. Ao nos tornar conscientes dele, tratamos de fugir — para as igrejas, para os museus; vamos ouvir música, ouvir rádio; vamos beber, fazer tantas outras coisas... E a tensão vai aumentando. Lá está o fato: nos vemos terrivelmente sós, isolados, sem relação com coisa alguma. Incapazes, que somos, de compreender o fato, de lhe enfrentar, de entrar em contato direto com ele — fugimos. E a fuga, como é natural e evidente, é um desperdício de energia, porque o fato continua existente

Ao se tomar conhecimento do fato, descobre-se um observador olhando a solidão como coisa diferente do observador.[...] Se você se tornar consciente da solidão e a observar, notará que a olha como coisa diferente do observador (você): a solidão não é você; o observador difere da coisa observada e, por essa razão, se esforça por superá-la ou dela fugir. Começa a fazer perguntas sobre o que deve fazer, o que não deve fazer, como dissolver a solidão. Mas o fato real é que o observador é a coisa observada e, enquanto houver essa separação entre observador e coisa observada, haverá necessariamente conflito. 

Vejamos outro esforço que costumamos fazer. Há desejos contraditórios — cada desejo a nos puxar numa direção diferente. Trava-se uma batalha constante. Por pouco que estejamos vigilantes, atentos, sabemos o que está ocorrendo em nossa consciência: o observador escolhe o desejo que deverá prevalecer, que deverá ser satisfeito (ou, se não está atento, trata de satisfazer um dado desejo) e, desse modo, gera conflito. 

Há também conflito quando não compreendemos o prazer. Estamos considerando o prazer, sem nenhum propósito puritano de lhe opor resistência, de evitá-lo, de dissolvê-lo ou dominá-lo. Se tentamos dominar o desejo, o prazer, qualquer fato real, criamos conflito, resistência contra ele. Mas, tão logo começamos a compreender a estrutura do prazer, a maneira como opera nossa mente, nosso cérebro, nossos desejos, em relação ao prazer, começamos também a descobrir que sempre que há prazer, há dor. Ao se compreender isso, não intelectual ou verbalmente, porém de maneira real, ao se perceber o fato verdadeiro, não haverá mais nenhum impulso para evitar o prazer; apresenta-se aquele estado real que se verifica ao ser compreendida a natureza e a estrutura do prazer. Estamos falando da necessidade de reunirmos todas as energias, a fim de realizarmos uma revolução radical na própria consciência; pois temos a necessidade de uma mente nova, precisamos olhar a vida de maneira diferente. Para provocarmos essa explosão, temos de descobrir como estamos desperdiçando nossas energias. O conflito é dissipação de energia. A resistência ao prazer ou a aceitação do prazer é também desperdício de energia. 

[...] Você descobrirá, ao começar a aprender a respeito de si mesmo — não analiticamente, examinando o que você é camada por camada, por isso requer um tempo imenso — descobrirá que só é possível se tornar consciente da totalidade do seu ser quando se compreende que toda a consciência está limitada, condicionada. Quando você percebe isso, quando você dá total atenção a esse condicionamento, então a análise se torna inteiramente inútil. Não sei se você já viu, por si mesmo, a verdade relativa a sua mente, a seus pensamentos e sentimentos. Ela pode ser vista imediatamente. Mas, repito, isso requer sensibilidade, e não conhecimentos ou disciplina. Ser sensível — não num certo sentido, como o artista, porém totalmente sensível, consciente de tudo que o cerca, das cores, das árvores, dos pássaros, de seus próprios pensamentos e sentimentos — torna a mente sobremodo alertada, penetrante, clara. Pode-se então fazer frente aos problemas da existência. Só existe um problema quando lhe oferecemos solo para se enraizar.  Mas, se compreendemos o problema imediatamente, ele deixa de existir. Quando a reação é adequada ao desafio, não existe problema. Só quando não somos capazes de reagir adequadamente ao desafio, há problema. 

Considere o problema do medo — não o problema de como nos livramos dele, do que se deve fazer em relação a ele. Na maioria de nós, existe constante medo. Ou temos consciência dele, ou temos temores inconscientes, profundamente arraigados, com os quais nunca entramos em contato. Temos ideias, imagens, em relação ao medo, porém nunca estamos realmente em contato com o fato. Por mais intimidade que tenhamos com uma pessoa — a isso chamamos "estar em relação" — a relação que existe é entre as imagens que ambas as pessoas têm uma da outra. É isto que chamamos "estar em relação": uma imagem em contato com outra imagem. Da mesma maneira, nunca entramos em contato com o medo real. O medo é um sinal de perigo. Quando nos deparamos com um perigo físico — uma serpente, um precipício — há ação imediata. Não há conclusão, não há refletir sobre o caso. O corpo reage imediatamente. Mas, há perigos psicológicos de que não estamos conscientes e, por conseguinte, não há ação imediata. 

Temos numerosos temores, e um dos maiores é o medo da morte. Quando somos sensíveis à vida, tomamos consciência dessa coisa extraordinária que se chama "morte". Não sabemos entrar em contato com ela, porque a tememos. Para o encontro com isso que chamamos "morte", temos primeiramente de nos libertar do medo — desse medo constante ao desconhecido, ou, melhor, de nos separarmos do conhecido, das coisas que conhecemos: nossas experiências, nossas lembranças, nossa família, nosso saber, nossas atividades. É disso que temos medo, e não propriamente da morte. Sabemos que há a morte. Nos consolamos com a reencarnação, a ressurreição, com várias formas de crença; ou racionalizamos a morte, dizendo: "Ora, ela é inevitável, e a vida é toda de aflições"; ou ainda: "A vida nos proporciona muitos deleites; tratemos de aproveitá-la". Mas se você deseja realmente compreender a questão da morte, que é de fato uma coisa extraordinária, não só temos de compreender o viver, mas também compreender o medo, porque, quando compreendemos o viver, verificamos que o viver e o morrer estão estreitamente ligados entre si; não são duas coisas diferentes. Não podemos viver se temos medo, se estamos constantemente batalhando, lutando para nos preencher, para, no fim, nos vermos frustrados e descobrirmos em nós mesmos uma imensa solidão e insuficiência.

Tal é a nossa vida; queremos nos preencher, "nos realizar", "vir a ser". O pensamento intervém e trata de evitar a morte, afastá-la para longe, se aferrar às coisas que conhece. Não sabemos o que é o viver. O que chamamos "viver" é uma existência lastimosa, uma horrorosa confusão, uma batalha entrecortada de ocasionais lampejos de alegria, de extraordinários prazeres; contudo, a maior parte de nossa vida é tão superficial e insípida, que não sabemos o que é viver. Mas se morrêssemos para todas as coisas que o pensamento criou dentro de nós, morrêssemos para nossos prazeres, nossas lembranças, nossos temores — encontraríamos então um viver diferente. Este viver nunca está distanciado da morte; mas, para alcançá-lo, necessitamos de paixão,de intensidade, de energia, para aprendermos a respeito de nós mesmos, a respeito da morte, a respeito do medo, porque no momento em que começamos a aprender tudo isso, desaparece o medo. Não podemos aprender, se não sabemos observar. Afinal, aprender a respeito da morte é uma coisa verdadeiramente extraordinária, porque existe a morte física. O organismo se esgota, por velhice ou doença. A mente já não é então capaz de rápida percepção, porque nos deixamos impor uma enorme carga de condicionamento. Quando estamos doentes, quando as células cerebrais estão cansadas, já não podemos aprender e, então, infelizmente, vivemos de crenças e de esperanças — e por esse caminho não há saída. Mas, se nos tornamos conscientes de nossas vidas, da maneira como vivemos, de nossos pensamentos e sentimentos, dos prazeres que constantemente buscamos, então, nessa compreensão, as coisas que estamos tão profundamente apegados caem por si. Morremos então todos os dias. De outro modo, nunca há nada novo. 

Essa é, afinal de contas, a mente religiosa, pois religião não são as crenças, os dogmas, os rituais, as seitas, a propaganda que se faz há dois mil ou dez mil anos; isso, absolutamente, não é religião. Somos escravos da propaganda — não só do comerciante, mas também do sacerdote. A religião é uma coisa de todo diferente. Para se descobrir o verdadeiro, descobrir se existe isso a que o homem chama seu Deus — o Desconhecido — temos de morrer para o conhecido, pois, de contrário, não poderemos nos encontrar com essa coisa inefável que o homem busca há milhares e milhares de anos. O homem, o pensamento inventou um conceito sobre o que é Deus e o que não é. Crê e descrê, conforme seu condicionamento. O comunista, o autêntico comunista, não crê. Para ele, só o estado existe. Provavelmente, com o tempo, venha a endeusar Lenine ou outro. E há os que foram condicionados para crer. Ambos são iguais, o crente e o não-crente. A fim de descobrirmos se existe alguma coisa além daquilo que o pensamento construiu, temos de negar tudo — dogma, crença, esperanças, temores. Isso afinal não é muito difícil, porque, quando queremos aprender, colocamos de lado todos os absurdos que o homem criou com o seu medo. 

Quando termina efetivamente o pensamento, quando morremos para o pensamento, então surge algo inteiramente diferente, uma dimensão diferente, dimensão que não pode ser explicada, colocada em palavras, que nada tem em comum com a crença, o dogma e o medo. Não é uma palavra. Aquele verbo não pode tornar-se carne e, para ser descoberto, deve deixar de existir o experimentador, o observador, o censor. Foi por isso que dissemos, no começo, que temos de compreender o conflito, e que haverá conflito enquanto existir observador e objeto observado; pois esta é a raiz do conflito. Quando digo "preciso compreender", ou "Tenho medo", o EU julga-se separado do próprio medo. Em verdade não está separado dele. O medo é o EU; os dois são inseparáveis. Quando o observador é o objeto observado, quando o pensador, a fonte do pensamento, deixa de existir, verifica-se, então, que o medo, em qualquer forma, deixou também de existir. 

Nisso há uma concentração de energia. Essa energia explode e surge o novo — o novo irreconhecível. Quando reconhecemos uma coisa, essa coisa não é nova. É uma experiência que já tivemos. Por conseguinte, não é nova. As maravilhosas experiências e visões dos santos e das pessoas religiosas são projeções de coisas velhas, projeções de suas mentes condicionadas. O cristão vê o seu Cristo, porque foi condicionado pela sociedade em que vive, em que cresceu. 

Enquanto houver "experimentador" e a cosia que ele vai "experimentar", nesse estado não existirá nenhuma realidade, porém somente conflito. Só quando deixa de existir o experimentador, pode surgir aquela coisa que o homem sempre buscou. Em nossa vida, estamos sempre buscando — buscando a Felicidade, buscando Deus, buscando a Verdade. Não podemos achá-lo por meio de busca, porém, tão-só, quando cessa a busca, quando a pessoa é a luz de si própria. Para se ser a luz de si próprio, deve haver paixão e intensidade ardentes. Essa paixão não é uma coisa mansa. Com ela nasce — de toda esta agitação, aflição, confusão e desespero — a revolução, a mutação interior. Só uma mente nova pode encontrar-se com aquilo que se chama Deus, a Verdade, ou o nome que você preferir. Mas, o conhecido não pode conhecer o desconhecido, e nós somos resultado do desconhecido. Tudo o que o conhecido — o pensamento — fizer afastará para mais longe ainda o desconhecido. Só quando o pensamento compreendeu a si próprio e se tonou quieto, pode haver a compreensão de todo esse processo do pensamento, prazer e medo. Isso é meditação. Não é prática, não é disciplina ou o ajustamento que torna a mente quieta. O que a torna verdadeiramente silenciosa é a compreensão de si própria, de seus pensamentos, seus desejos, suas contradições, seus prazeres, seus apegos, sua solidão, seu desespero, sua brutalidade, sua violência. Dessa compreensão nasce o silêncio, e só a mente silenciosa pode perceber, pode ver realmente o que é

Jiddu Krishnamurti em, Encontro com o Eterno
10 de maio de 1966
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"É porque se espalha o grão que a semente acaba
por encontrar um terreno fértil."-
Júlio Verne


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"A aventura é, sempre e em todos os lugares, uma passagem pelo véu que separa o conhecido do desconhecido; as forças que vigiam no limiar são perigosas e lidar com elas envolve riscos; e, no entanto, todos os que tenham competência e coragem verão o perigo desaparecer." — Joseph Campbell em, O Herói de Mil Faces

"Acredito que o maior presente que alguém me pode dar é ver-me, ouvir-me, compreender-me e tocar-me. O maior presente que eu posso dar é ver, ouvir, entender e tocar o outro. Quando isso acontece, sinto que fizemos contato" — Virginia Satir

"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti