quinta-feira, 28 de abril de 2016

Pode ser dissolvida a adulteração psíquica?


É importante que se realize uma revolução total — não simples reforma, reorganização da sociedade, porém a completa revolução mental. Faz-se necessária uma mente nova, não só para enfrentar a presente crise, que continuamente se expande e piora, mas essa mente nova é também necessária para descobrirmos por nós mesmos o que é verdadeiro e se há um estado de criação fora do tempo. Isso pede uma mente nova, uma mente não escravizada pela obediência à autoridade e que encerra em si, totalmente, aquele estado de humildade no qual, tão só, é possível aprender.

[...] Pode a pessoa se libertar da sociedade? Pois é só pelo se libertar da sociedade que surge o indivíduo, a individualidade. E tem esse indivíduo alguma possibilidade de tornar existente uma mente nova? A sociedade é o passado e cada um de nós é o resultado do passado. Cada um de nós resulta de seu ambiente, da sociedade em que vive, do meio cultural em que se criou, da propaganda religiosa inculcada através de séculos. Cada um é resultado de tudo isso, ou seja, do passado. É possível ao indivíduo se libertar totalmente desse passado, que não é apenas o dia de ontem, porém muitos milhares de dias pretéritos...?

O passado não é apenas tradição, mas também o resultado dessa tradição que, em conjunção com o presente, cria o futuro. Visto que para a maioria de nós a tradição é importantíssima, devemos compreendê-la. Há a tradição do tecelão, a tradição do cientista, a tradição do erudito, a tradição da chamada “pessoa religiosa”, a tradição da técnica. Onde traçar a linha de demarcação entre todas essas variedades de tradição, e quando é que o conhecimento técnico é essencial para se viver neste mundo, e quando é totalmente prejudicial para a mente criadora?

Penso que cada um de nós deveria compreender esse problema da tradição, porquanto a tradição é afinal de contas “hábito amadurecido pelo tempo”. E esse hábito dá forma ao nosso pensamento, molda a nossa existência, nos força a exercer um emprego, a manter uma família, o que acarreta responsabilidades, deveres e moralidade, que também inclui a obediência. Todas essas coisas são, por certo, tradição, compõem a tradição, constituem a tradição.

Pode a tradição concorrer para suscitar a mente criadora, isto é, a mente nova? Ou o hábito impede a total apreensão daquilo que se acha além do tempo? Não há hábito bom e hábito ruim— todo hábito é a mesma coisa. Mas, sem dúvida, é de extraordinária importância libertar a mente do hábito, porquanto um hábito nada mais é do que uma técnica, uma maneira fácil de viver, em que não se necessita pensar profundamente. É por essa razão que a maioria de nós cultiva hábitos, os quais se tornam quase automáticos, de forma que não temos necessidade de exercer em demasia nossa vitalidade ou nosso pensar. Assim, cultivamos os hábitos, os quais, gradualmente, com o tempo, se tornam tradição.

Ora, tudo isso vem a ser o passado, o passado que inclui as ideias, os deuses, as diversas influências conscientes, as várias compulsões e ânsias, as numerosas acumulações a que estamos apegados. Tudo isso — não apenas as memórias acumuladas do indivíduo, da pessoa, mas também os conhecimentos acumulados da humanidade, através dos séculos — constitui o passado. A acumulação, no consciente, é a atual educação técnica, as influências ambientes e sociais do presente. Há, também, no inconsciente, o resíduo de milênios de esforços humanos — conhecimentos, esperanças, frustrações, exigências imprevistas. Eis o passado. Você é o passado, e nada mais há senão o passado.[...]

Eu estou certo de que o passado pode ser completamente dissolvido. O futuro, o desconhecido, acha-se além da muralha do passado. Mas, para ir além, para romper a muralha, o indivíduo precisa examinar a fundo a questão do passado. Não é possível penetrar verbalmente o inteiro processo da consciência. Não é possível investigar com o pensamento. O pensamento é incapaz de investigação, porque o pensamento nasce de reação. O pensamento é reação da memória, e a memória brota da experiência; a experiência é o condicionamento em que fomos criados. O pensamento, pois, não constitui o meio de investigar, o instrumento de indagação, inquirição.

Assim, ao percebermos muito claramente, penetrantemente, que o pensamento não é o instrumento de investigação, de que maneira poderemos, então, investigar, compreender?[...]

E se o intelecto não é o instrumento de investigação, não é o meio de abrir a porta, qual é então esse meio? Não estou empregando a palavra “meio” no sentido de método, sistema, prática, disciplina — pois tudo isso são infantilidades, não importa quem diga o contrário. A mente que segue um sistema é uma mente estreita, limitada. E a mente disciplinada, moldada, controlada, deixa de pensar. Mas eu estou empregando a palavra “meio” noutro sentido, e indagando se isso a que acabo de me referir não constitui o meio, o que é então que o constitui? Se o pensamento não é o meio de descobrir como dissolver o passado, porque o próprio pensamento é o passado, resultado do passado — e, por conseguinte, incapaz de dissolver o passado — qual é então o meio? Como pode o passado ser dissolvido?[...]

A mão que dá não pode ao mesmo tempo tomar. O pensamento deseja dissolver o passado e, no entanto, o pensamento se origina do passado. Nenhuma ação, nenhuma “projeção”, nenhum desejo, nenhuma volição procedente do passado pode dissolvê-lo, pois tudo isso são ainda coisas do passado. Tudo o que você fizer, cada ação, cada sacrifício, cada movimento da mente é coisa do passado; e o pensamento, o que quer que faça, não pode dissolvê-lo.[...] O passado pode dar a técnica da existência diária, constitui ele o mecanismo da existência cotidiana; oferece-nos meios, facilidades, mas não pode nos levar muito longe. E nós temos de empreender uma viagem para além do passado, do tempo; e isso é necessário porque a única revolução importante é a revolução religiosa. E só essa revolução pode extrair a ordem desta desordem.[...]

O pensamento, pois, em nenhuma circunstância nos oferece o meio de sairmos do passado. O passado é necessário, pois, do contrário, não poderíamos saber onde moramos, não saberíamos nosso próprio nome, não poderíamos nos dirigir ao escritório, não reconheceríamos nossa mulher, nosso marido, nossos amigos, nossos filhos, não saberíamos sequer falar. O passado é memória, e a memória é essencial. Não podemos jogá-la fora. Mas o cultivo da memória, que é o conhecimento, que é a expansão do pensamento, não pode de modo nenhum quebrar a muralha do passado. E a mente, por conseguinte, nunca é nova, fresca, jovem, inocente. E é só essa mente nova, fresca, inocente que conhece a humildade — e não aquela que está levando a carga do passado.

Assim, como romper o passado? Há um ato que se realiza com o ver.[...] Nossa mente é por demais complicada, imatura, cheia de informações sem nenhum valor,  tão temerosa e insegura. Vendo-se insegura, a mente busca a segurança e, dessa maneira, aumenta a insegurança; e essa mente é incapaz de ver qualquer coisa simples e, por conseguinte, de agir com simplicidade. 

[...] Há o passado, ninguém o pode negar. Ele aí está, sólido, embrutecido, e mutilando, e destruindo a mente nova, que deve se conservar bem viva. Isso é um fato, não apenas um fato exterior, mas também um fato psicológico. É preciso ver o fato sem condenação, sem julgamento, vê-lo meramente, ver o que é o passado. 

[...] Você tem de demolir tudo, para ser capaz de criar, cumpre impugnar tudo. E, nesse próprio impugnar, torna-se existente a individualidade; do contrário, continuamos a ser a "massa". E, certamente, isso é que é necessário hoje em dia: duvidar de tudo, duvidar, mas sem desejar encontrar a solução. Se duvidamos com um motivo, isso já não é duvidar; o que se quer é meramente um resultado. Mas, se se duvida sem nenhum motivo — o que é verdadeiramente uma coisa extraordinária — a mente está então capacitada para ver o verdadeiro.  

É , portanto, muito importante que se torne existente uma mente nova, uma mente fresca. E a mente não pode se tornar assim, se está sob a carga da autoridade. A autoridade não é apenas a do guru, a do livro, a da mulher e do marido, etc., a da vontade de dominar, mas há também uma autoridade de significação mais profunda, que é a da experiência. Porque quase todos nós vivemos segundo a experiência, esta se torna nossa autoridade... — e isso, mais uma vez, é o passado: a autoridade de que a mente consciente está cônscia e também a autoridade constituída pela experiência acumulada no inconsciente. Experiência é reação a desafio.... E nenhuma "resposta" ou reação da experiência, pertencente ao passado, pode quebrar-lhe a muralha. Assim, a autoridade, de qualquer espécie que seja, interna ou externa, não libertará a mente do passado. E nunca você será senhor do futuro, a não ser nas coisas mecânicas, porquanto o futuro é o "desconhecido". Mas, nós olhamos o futuro, o amanhã, com os olhos do passado e, por conseguinte, pensamos poder controlá-lo. E, de fato, mecanicamente, nós o controlamos: amanhã irei ao escritório, amanhã colherei certos resultados em minhas atividades, etc. etc. Mecanicamente, você irá fazer coisas de todos os gêneros;  por isso você pensa que é senhor do futuro, que é o amanhã. Como você pode ser senhor de algo que desconhece? Como pode ser o senhor de uma mente nova, fresca, inocente? Assim, ao você ver que certas formas externas de autoridade são necessárias, tal a autoridade do engenheiro, do médico, do governo, da Lei, do policial, mas que qualquer outra forma de autoridade é destrutiva e impede a mente de ser livre, então sua mente poderá ser livre. E só a mente livre pode passar além.

[...]O ato de ver, sem condenação, julgamento, avaliação, sem a palavra, que é pensamento; o ato de olhar, observando cada movimento, cada sentimento, prestando atenção total a tudo o que você veste e sente — esse ato de ver produz uma mente nova, uma mente fresca. Essa mente nova não é criada pelo pensamento, pela moderna educação, pelo frequentar o templo, ler incessantemente o Gita ou o Corão ou a Bíblia. Ela só pode nascer do ver; e, para você poder ver, tem de contestar com todas as forças. E o próprio ato de ver é bem destrutivo, porquanto destrói a sociedade em que você foi criado. Já não lhe interessa nenhuma reforma da sociedade. Você não pode reformar a sociedade, porquanto a sociedade é resultado do passado. E se a quiser reformar, você ainda está dentro do passado. Mas o homem que quebrou completamente o passado — e isso é possível — esse homem, uma vez que está só, pode influir na sociedade; mas isso é secundário.

Por conseguinte, o importante e essencial é ver-se a necessidade de uma mente nova. E a mente nova não pode ser criada pelos artifícios da mente, ou seja o pensamento. A mente nova só pode nascer quando se contesta a sociedade em que se foi criado. Mas você não pode contestá-la se tem um motivo. Assim, o ver a autoridade, o ver a obediência liberta a mente da obediência. Afinal de contas, o que nos impede de ver é a condenação, a justificação — e isso é o passado. Assim, quando você olha, quando vê, quando escuta, sem condenação, está livre do passado. Você pode olhar, e para fazê-lo necessita da atenção; e a atenção é a essência da energia. E essa energia só pode tornar-se existente quando você está constantemente olhando, vigiando, observando, vendo, contestando. Assim, em virtude desse extraordinário escutar e ver a mente desfez suas amarras, sua ligação com o passado. A mente está ancorada no passado, a mente é o passado; mas quando a mente dá toda a atenção ao ver, está quebrado o passado. E só essa mente fresca, jovem, inocente, pode ultrapassar as limitações que a mente a si própria impôs. Só então é possível uma pessoa descobrir por si própria, como indivíduo que já não faz parte da sociedade, se há ou se não há o Imensurável.

Krishnamurti em, A mutação interior

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"Acredito que o maior presente que alguém me pode dar é ver-me, ouvir-me, compreender-me e tocar-me. O maior presente que eu posso dar é ver, ouvir, entender e tocar o outro. Quando isso acontece, sinto que fizemos contato" — Virginia Satir

"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti