sábado, 2 de abril de 2016

Quantos de vocês vêm de famílias disfuncionais?


Há algum tempo assisti a uma palestra sobre as raízes dos problemas relacionados ao vício, apresentada a uma audiência leiga pelo conselheiro de um centro de tratamento de dependentes.

No início da palestra, o orador perguntou aos ouvintes: "Quantos de vocês vêm de famílias disfuncionais?" Em seguida explicou que uma família disfuncional é a que cria uma estrutura comportamental em que os seus membros negam, racionalizam ou encobrem problemas e cuidadosamente guardam ou negam segredos. Indivíduos com esse sistema também tendem a se entregar a emoções exageradas e destrutivas, a esconder seus verdadeiros sentimentos ou a fugir das suas próprias questões, julgando, criticando, culpando ou tentando controlar os outros. Além disso, regularmente violam-se os limites pessoais uns dos outros ou permanecem distantes e inacessíveis atrás de fortes defesas emocionais e psicológicas.

Em resposta à pergunta do orador, quase todos na sala levantaram a mão. Ele nos disse que, segundo alguns estudos, 96 por cento de nós vêm de famílias disfuncionais. Uma voz masculina atrás de mim murmurou: "Deve ser uns 99,9 por cento, isso sim."

Quando ouvi esses números, eu ainda estava lutando para aceitar as estatísticas que refletem a alta porcentagem de abuso sexual; assim, a minha mente automaticamente rejeitou os números significativos que estava escutando. Como era possível que 96 por cento das famílias fossem disfuncionais? Mas, à medida que levei adiante o meu trabalho pessoal e a minha definição geral de abuso se expandia, refleti muitas vezes sobre o fato. Convenci-me de que pelo fato do nosso comportamento para com o outro ser muitas vezes invasivo, seja por motivações conscientes ou inconscientes, muitos de nós foram violados ou violaram outros. Infelizmente, isso muitas vezes acontece em casa. Ao reler a definição de um sistema familiar disfuncional, podemos ver que quase todas as famílias se encaixam nessa categoria em maior ou menor grau.

Como muitos foram criados em sistemas familiares disfuncionais, muitas vezes repetimos automaticamente os padrões que aprendemos durante o crescimento. E um padrão multigeracional. Como vivemos tanto tempo em um determinado clima emocional, aceitamos como normais alguns valores e comportamentos que, na verdade, são destrutivos e autodestrutivos. De acordo com esta definição, todos somos disfuncionais às vezes.

Mais uma vez, apresentamos a nossa disfunção num espectro muito largo de intensidade e comportamento. Algumas ações são ligeiramente intrusivas, outras são abertamente violentas, e outras, ainda, envolvem formas igualmente devastadoras de invasão, privação ou abandono. Uma família pode criar uma estrutura controlada, inexpressiva e rígida, aparentemente tranquila e alegre. Ela apresenta um perfil diferente do de uma família extremamente violenta, em que abusos verbais, físicos e sexuais são regularmente perpetrados contra o cônjuge e filhos. No entanto, são ambas disfuncionais.

Em outra família, um ou os dois pais podem estar ausentes devido a obrigações práticas, desatenção geral ou momentos de inconsciência devidos ao álcool ou ao uso de drogas. E diferente de uma família em que os adultos irradiam silenciosamente uma raiva subterrânea, criticando-se e às crianças de maneira furtiva, enquanto mantêm expectativas rígidas e impossíveis para todos. Em outro sistema familiar, ainda, os pais podem sentir-se esmagados pelas suas responsabilidades e tornar-se incapazes de estabelecer quaisquer limites ou orientações. Essa é dinamicamente diferente de uma família em que a mãe e/ ou o pai se estabelecem como autoridades incontestes e inflexíveis que ocupam posições elevadas ou superiores, esperando que o cônjuge e/ou os filhos obedeçam às suas exigências sem perguntas.

Podemos reconhecer vários elementos dessas descrições nas nossas próprias histórias, que se manifestem de modo extremo ou sutil. Sejam quais forem as diferenças, cada uma dessas famílias tem como parte da sua compleição uma desconsideração ocasional ou constante para com a individualidade e integridade das pessoas que fazem parte dela. Essa atitude é significativamente diferente da de um sistema familiar aberto onde os indivíduos falem honestamente sobre suas preocupações, respeitem as experiências, emoções e pensamentos dos outros, e vivam numa atmosfera de respeito e amor mútuos. 

O nosso desrespeito mútuo não é específico dos sistemas familiares. Carregamos as lições da nossa criação para uma estrutura social moderna que muitas vezes engendra a mesma falta de consideração para com os indivíduos e comunidades, bem como o desrespeito que a família disfuncional tem pelos seus membros. Ouvimos tais histórias o tempo todo. Quantas crianças recebem boletins que indicam o que elas vão ser, de acordo com as percepções e julgamentos do professor, sem reconhecer ou aceitar a sua atual individualidade. Minha avaliação escolar da sétima série descreve um comportamento que, na opinião do professor, era aceitável ou questionável. Ele afirma o que é necessário para que Christina "desenvolva uma personalidade de primeira linha". E quanto à personalidade já existente? E quanto aos dons especiais e contribuições que já estão presentes, mas que podem ou não corresponder às expectativas do professor ou da escola? Será que a criança não possui algumas qualidades especiais que podem ser obscurecidas por suas dificuldades?

Existem numerosos exemplos de situações em que a integridade de outros é ignorada, desvalorizada ou violada; acontece o tempo todo. Todos sabemos que há crianças que não têm esperança de descobrir e desenvolver os seus talentos em salas de aula lotadas e com professores cansados e irritados. Muitos sistemas universitários reduzem os candidatos a resultados de testes e os aceitam ou rejeitam nessa base. Numerosos padrões esperam uma conformidade instituída que desencoraja ou nega a criatividade dos empregados. 

Todos os dias, indivíduos são sujeitos à discriminação por raça, sexo, idade, crenças religiosas ou preferências sexuais. Além disso, estamos aferrados a uma atitude cultural que considera os seres humanos superiores às demais formas de vida, o que nos daria direito à exploração ilimitada da riqueza natural da Terra. Vivemos num sistema de poder global que estimulou o desenvolvimento de armas capazes de destruir a vida.

Sei que estou pintando um quadro bastante sombrio. Embora esteja claro para mim que essa é apenas uma parte da história, tais questões merecem a nossa atenção e os nossos esforços para remediá-las. Do outro lado desse quadro estão os muitos indivíduos ternos e compassivos que respeitam e honram as outras pessoas, as outras espécies e o mundo. Parece que esse tipo de consciência está se tornando mais difundida à medida que nos tornamos mais dispostos a reconhecer, abordar e agir sobre os problemas dentro e fora de nós. Uma das maneiras de fazê-lo é esforçarmo-nos corajosamente para sairmos da névoa da negação das ações que causam dor e medo a nós e aos outros. O nosso desconforto quando discutimos essas questões costuma apontar diretamente para os problemas que precisam de atenção, para o que precisa ser mudado. 

Christina Groff em, Sede de Plenitude - Apego, Vício e Caminho Espiritual

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"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti