quarta-feira, 30 de março de 2016

Filme: Call Me Crazy: A Five Film

O longa é composto por cinco curta-metragens dirigidos e estrelados por atores de sucesso. Cada um é nomeado de acordo com seu personagem principal: Lucy (Brittany Snow), Eddie (Mitch Rouse), Allison (Sofia Vassilieva), Grace (Sarah Hyland) e Maggie (Jennifer Hudson). Através dos cinco curtas são construídas poderosas relações sobre esperança e triunfo que ajudam a criar uma nova compreensão do que acontece quando um ente querido sofre de uma doença mental.
Disponível na NETFLIX

Como surge nossa auto-imagem?


K: Qual é o começo disto? Por favor, apenas me deixe resumir primeiro. Praticamente todo ser humano tem uma imagem de si mesmo, da qual ele não tem consciência, ou não está cônscio. 

DS: Inicialmente é algum tipo de idealização.

K: Idealizada, ou não idealizada, é uma imagem.

DS: Certo. É uma imagem, é idealizada e eles têm que tê-la.

K: Eles têm.

DB: Eles têm.

DS: Eles têm todas as suas ações dirigidas ao "precisar ter essa imagem". Em outras palavras, para completá-la, para realizá-la. 

DB: A pessoa considera que toda a sua sua vida depende da imagem. 

K: Sim. 

DS: A depressão é quando eu não a tenho. 

K: Chegaremos a isso. Então, a próxima pergunta é: "como ela surge?"

DS: Eu acho que ela surge quando como crianças há esta ferida e até o sentimento de que não existe outra saída na qual esta ferida possa ser amenizada ou aliviada. Funciona na família de algum modo. Você é meu pai e eu compreendo ao observar você que se eu for esperto você gostará de mim. Certo?

K: Exato. 

DS: Aprendo isso muito rápido. Então vou assegurar de ter esse amor, então vou indo daqui para ali. Indo me tornar aquilo.

K: Isso tudo é muito simples. Mas estou perguntando o início disso. A origem de se fazer imagens sobre si mesmo. 

DB: Se não tenho nenhuma imagem absolutamente então nunca entrarei nisso, não é?

K: É nisso que quero chegar. 

DS: Se eu nunca criar imagens.

DB: Se eu nunca criar qualquer imagem absolutamente, não importa o que meu pai fez, isso não teria efeito, teria?

DS: Essa é a questão. 

K: Isto é muito importante.

DB: Digo, talvez a criança não possa fazer isso, mas suponha que sim.

K: Não tenho certeza, não tenho absoluta certeza. 

DB: Talvez ele possa, mas pelo menos em condições comuns elam nunca controla isso. 

DS: Você está sugerindo que a criança já possui uma imagem que foi ferida?

K: Ah, não. Eu não sei. Estamos perguntando. 

DB: Mas suponha que existisse uma criança que não construiu imagens de si mesma. 

DS: Ok, vamos admitir que ela não tenha imagem. 

DB: Então ela não pode ficar ferida. 

K: Não pode ser ferida. 

DS: Agora, veja, acho que você está em terreno perigoso psicologicamente porque uma criança...

K: Não, nós dissemos "suponha". 

DS: Suponha. 

DB: Não a criança real, mas antes suponha que haja uma criança que não construiu uma imagem de si mesma, então ela não dependeu dessa imagem para tudo. A criança de que você fala dependeu da imagem de que seu pai gosta dela. E portanto, tudo acontece quando seu pai não a ama, tudo acabou. Certo?

DS: Certo. 

DB: Portanto, ela fica ferida. 

DS: Está certo. 

DB: Mas se ela não tem nenhuma imagem de que deve ser amada pelo pai daí ela apenas olhará para o pai. 

DS: A criança que está, observará seu pai. Digamos, vamos olhar isso de um modo um pouco mais pragmático, eis aqui a criança e ela está de fato ferida. 

DB: Mas espere, ela não pode ser ferida sem a imagem. 

DS: Bem, isso é...

DB: O que ficará ferido?

K: Não existe... (risos)... É como espetar um alfinete no ar! 

DS: Não, esperem um minuto, não vou deixar vocês se safarem desta, rapazes! (Risos)... Aqui você tem esta criança, muito vulnerável, no sentido de que ela precisa de apoio fisiológico. Ela tem enormes tensões. 

K: Senhor, concordei com tudo isso. Tal criança possui uma imagem. 

DS: Não, sem imagem. Ela simplesmente não está sendo amparada biologicamente.

K: Não. Hein?

DB: Bem, ela pode fazer uma imagem do fato de que não está biologicamente amparada. Temos que fazer a diferença entre o fato real que acontece biologicamente e o que ela pensa dele. Certo? Eu já vi algumas vezes uma criança caindo de repente e ela de fato fica arrasada não porque caiu  seriamente mas devido a essa sensação de...

K: Perda, insegurança.

DB: A segurança de sua mãe acabou. Parece que tudo acabou. E ela fica totalmente atordoada e gritando, mas caiu, somente isto. Mas, o ponto é que ela tinha uma imagem do tipo de segurança que teria com sua mãe.

DS: É assim que o sistema nervoso funciona.

DB: Bem, essa é a questão, a coisa que estamos discutindo: é necessário funcionar assim? Ou isso é resultado do condicionamento?

K: Sim.

DS: Sim, eu diria sim.

K: Esta é uma questão importante.

DS: Oh, terrivelmente importante.

K: Porque, quando você observa as crianças na América ou neste país, as crianças estão fugindo de seus pais; milhares estão fugindo. Os pais parecem não ter controle sobre elas. Elas não obedecem, não ouvem, não... — estão seguindo? São selvagens.

DS: Sim.

K: E os pais sentem-se terrivelmente feridos. Eu vi na TV o que está acontecendo na América. E a mulher estava em lágrimas. — Está seguindo?... Ela disse: "Sou mãe dela, ela não me trata como uma mãe, ela só me dá ordens... me dê uma garrafa de leite" e todo o resto disso. E ela fugiu meia dúzia de vezes. E isto está acontecendo, esta separação entre os pais e os filhos; está crescendo no mundo inteiro. Eles não tem relação entre si, um com o outro. Então, qual é a causa de tudo isto? Tirando as pressões sociológicas, econômicas e tudo isso, que faz a mãe sair e trabalhar e deixar a criança sozinha e ela brinca... e tudo isso, admitindo isso, mas muito mais profundo que isso? É que os pais têm uma imagem deles mesmos e insistem em criar uma imagem nas crianças?

DS: Entendo o que está dizendo.

K: E a criança se recusa a ter essa imagem, mas ela tem sua própria imagem. Assim, a batalha está iniciada.

DS: Isso é bem o que eu estava dizendo quando disse que inicialmente a ferida da criança...

K: Ainda não chegamos na ferida.

DS: Mas era nisso que eu estava tentando chegar, o que há nessa relação inicial? Qual é a relação inicial entre a criança...

K: Duvido que tenham alguma relação. É isso que estou tentando apontar.

DS: Concordo com você. Há alguma coisa errada com a relação. Eles têm uma relação mas é uma relação errada.

K: Eles têm uma relação?

DS: Eles têm uma...

K: Os jovens se casam, ou não casam. Eles têm um filho por descuido ou intencionalmente. Os jovens, eles próprio, são crianças; não compreendem o universo, o cosmos, a ordem ou o caos, apenas têm aquela criança.

DS: Certo. É isso que acontece.

K: E brincam com ela por um ou dois anos e dizem: "Por Deus! Estou cheio desta criança!"... E dirigem-se para outras coisas. E a criança se sente largada, perdida.

DS: Está certo.

K: E ela precisa de segurança, desde início ela precisa de segurança. Que os pais não podem dar, ou são incapazes de dar: segurança psicológica, no sentido de "Você é meu filho, eu amo você, eu cuidarei de você, olharei você por toda a vida, que se comporte apropriadamente". — Cuidado. Eles não tiveram isso, esse sentimento. Depois de alguns anos ficam enjoados dela. Está certo?

DS: Sim.

K: É que eles não têm relação desde o início; nem o marido, nem a esposa, ou garoto ou garota; é somente uma relação sexual, a relação de prazer. Admitindo que eles não irão aceitar o princípio da dor envolvido no princípio do prazer.

DS: Está certo. Não vão e não apenas isso: eles não deixarão a criança passar por isso.

K: A criança está passando por isso!

DS: Sim, mas eles fazem coisas que não deixam a criança ter o prazer que acontece de todo o modo, nem deixam a criança ter a dor.

K: Assim, o que estou tentando perceber é que não existe de fato relação nenhuma, exceto biológica, sexual, relação sensorial.

DS: Sim. Ok.

K: Estou questionando isso. Não estou dizendo que é assim, estou questionando.

DS: Não acho que é assim. Acho que eles têm uma relação, mas é uma relação errada, que existem todos os tipos de...

K: Não existe relação errada! Ou há relação, ou não há relação.

DS: Bem, então temos que dizer que eles têm uma relação. Agora temos que entender a relação. Mas acho que a maioria dos pais têm uma relação com seus filhos.

DB: Você diria que é a imagem que está em relação? Suponha que os pais e a criança têm imagens uns dos outros e a relação é dirigida por estas imagens; a questão é se isso é de fato uma relação ou não, ou se é algum tipo de fantasia de relação.

K: Uma relação fantasiosa.

DB: Sim.

K: Senhor, você têm filhos — perdoe-me se me volto a você — Você têm alguma relação com eles? No sentido verdadeiro dessa palavra?

DS: Sim. No sentido verdadeiro, sim.

K: Isso significa que você não tem imagem de si mesmo.

DS: Certo.

K: E não está impondo uma imagem a eles. E a sociedade não está impondo uma imagem a eles.

DS: Há momentos assim.

K: Ah não, isso não é bom o suficiente!... — é como um ovo podre! (Risos)

DS: Esse é um ponto importante.

DB: Se são momentos, não é isso. É como dizer que uma pessoa que está ferida, há momentos em que não está ferida, mas isso está ali repousando, esperando para explodir quando algo acontecer. Desse modo ela não pode ir muito longe. É como alguém amarrado numa corda: assim que ela chega ao limite da corda ele é impedido de prosseguir. Então você poderia dizer: estou em relação  enquanto certas coisas estão bem; mas além desse ponto isso como que explode. Entende ao que estou me referindo?

DS: Entendo ao que se refere.

DB: Esse mecanismo está lá dentro, enterrado, de modo que isso domina você potencialmente.

DS: Realmente, o que você acabou de dizer é fato. Comprovo que é isso o que acontece. Em outras palavras, parece que existe, mas parece que há momentos em que eles estão...

DB: Bem, é como um homem que está preso a uma corda e diz: "Há momentos em posso me mover para onde quiser, mas não posso realmente porque se continuo me movendo, com certeza, vou chegar ao fim".

DS: parece que é isso que acontece, de fato: há uma reverberação na qual há um puxão para trás.

DB: Sim. Ou eu chego ao fim da corda, ou alguma coisa puxa a corda e então... — mas a pessoa que está  na corda, realmente não está livre, nunca.

DS: É verdade, quero dizer, eu acho que é verdade.

DB: Do mesmo modo, a pessoa que tem a imagem nunca está realmente em relação, você entende?

K: Esse é exatamente o ponto! Você pode jogar com isso; pode brincar com o verbal, mas, realmente, você não tem nenhuma relação.

DS: Você não tem relação enquanto houver a imagem.

K: Enquanto você tiver uma imagem de si mesmo, você não tem nenhuma relação com o outro. Esta é uma tremenda revelação — entende? Não é simplesmente uma afirmação intelectual.

DS: Deixem-me partilhar uma coisa com vocês, me ressinto disso...

K: Eu percebo isso.

DS: Você percebe isso. Quero dizer, fico bem zangado com você. (risos)... Existe um verdadeiro... e nós vimos isto em algum lugares.

DB: Sempre acontece na análise, não é?

DS: Acontece na análise. Mas eu estava pensando que nós tivemos psicoterapia no encontro com os psicoterapeutas, isto veio à tona. Há um tremendo ressentimento dizer... porque eu não tenho a memória dos tempos quando eu tinha o que eu penso ser uma relação, embora eu deva ser honesto com você e dizer que depois de tal relação, parece inevitavelmente haver este puxão para trás.

DB: O puxão da corda, sim.

DS: Então eu devo, quero dizer... me ressentir... (risos)... Existe isso. Não há dúvida que a imagem — existe um lugar onde você diz ter uma relação com alguém mas você só irá até ali. É aí que a imagem aparece.

DB: Certo. Mas então realmente a imagem controla o tempo todo, porque a imagem é o fator dominante. Uma vez que você passa aquele ponto, não importa o que aconteça, a imagem assume.

DS: Está certo. É como aquela bobagem de René Thom. Cabe perfeitamente.

DB: Sim, ela cabe.

K: Então, a imagem fica ferida. E a criança, você impõe uma imagem à criança? Você está fadado a isso, porque você tem uma imagem.

DS: Você está tentando impor.

K: Não.

DB: Você tem que.

DS: Bem, você está trabalhando nela e a criança pega ou não pega.

K: Não, não. Porque você tem uma imagem de si mesmo está fadado a criar uma imagem na criança. Ah, senhor. Está seguindo, você descobriu?

DS: Sim.

K: E a sociedade está fazendo isto a todos nós.

DB: Então você está dizendo que a criança pega uma imagem naturalmente, por assim dizer, calmamente e então de repente fica ferida.

K: Ferida. Está certo.

DB: Então, a ferida foi preparada e precedida por esse processo invariável de construir uma imagem.

DS: Certo. Bem, há evidência, por exemplo: nós tratamos os meninos diferente das meninas.

K: Olhe para isso, não verbalize isso tão rapidamente.

DB: Se o processo invariável de construir uma imagem não ocorreu então não haveria nenhuma base, nenhuma estrutura para ser ferida. Em outras palavras, a dor é devida inteiramente a algum fator psicológico, algum pensamento que é atribuído a mim ao dizer "Estou sofrendo esta dor". Ao passo que antes eu estava apreciando o prazer de dizer "Meu pai me ama, estou fazendo o que ele quer". Agora vem a dor: "Não estou fazendo o que ele quer, ele não me ama".

K: Simples. Sim.

DS: Mas e as feridas iniciais? Quero dizer, a criança...

K: Não, se você uma vez...

DB: Acho que fomos além desse ponto.

K: Além desse ponto.

DS: Não acho que tocamos na questão da situação biológica da criança sentindo-se negligenciada.

DB: Bem, isso ainda é — oh, você quer dizer — se a criança é negligenciada acho que ela deve pegar uma imagem nesse mesmo processo. 

K: Evidente. Se você admite, uma vez que você admite, percebe a realidade que enquanto os pais têm uma imagem  deles mesmos eles são fadados a dar essa imagem à criança, uma imagem.

DB: É a imagem que faz os pais negligenciarem as crianças.

DS: Bem, você está certo nisso.

K: Está certo.

DS: Não há dúvida de que enquanto o pai é um criador de imagem, e tem uma imagem, por conseguinte, ele não pode ver a criança.

K: E, portanto, dá uma imagem para a criança.

DS: Certo. Você condiciona a criança a ser algo.

K: Sim.

DB: E talvez, inicialmente através do prazer, então ela irá se ferir. Mas se ele começa por negligenciá-la, acho que o processo da negligência é também o resultado de uma imagem e ele deve transmitir uma imagem à criança ao negligenciá-la.

DS: Que é negligência.

DB: Sim, essa negligência é a imagem que ele transmite.

K: E também os pais com certeza negligenciarão se eles têm uma imagem deles mesmos.

DB: Sim.

DS: Ele está certo. Eles devem.

K: É inevitável.

DS: Porque eles estão fragmentando mais do que percebendo o todo.

DB: Sim, a criança terá a imagem que ela não importa para os seus pais.

DS: Exceto naquele fragmento.

DB: No fragmento que eles gostam e assim por diante.

DS: Está certo. Então se você é desse jeito, estou com você; se você não é desse jeito...

K: Mas veja, a sociedade faz isto com todo ser humano. A Igreja está fazendo; igrejas, religiões, políticas, toda a cultura em volta de nós está criando está imagem.

DS: Está certo.

K: E essa imagem fica ferida, e todo o resto disso. Agora, a próxima pergunta é: a pessoa está cônscia disto tudo que é parte de nossa consciência? O conteúdo da consciência compõe a consciência. Certo? Isto está claro? Um dos conteúdos é a formação de imagem, ou talvez seja o principal mecanismo que está funcionando, o principal dínamo, o principal movimento. Ser ferido, o que todo ser humano é, pode essa ferida ser curada, e ele nunca ser ferido novamente? Pode uma mente humana que aceitou a imagem, que cria a imagem, deixar a imagem de lado completamente e nunca ser ferida? E consequentemente, na consciência, uma grande parte dela, estar vazia, não ter conteúdo. Imagino.

DS: É possível isso? Eu realmente não sei a resposta para isso. Sei responder somente que eu creio que você poderia...

K: Quem é o criador de imagem? Qual é o mecanismo ou o processo que está criando a imagem? Posso me livrar de uma imagem que está criando imagens? Posso me livrar de uma imagem e pegar outra: eu sou católico, sou um protestante, sou hindu, eu sou um monge zen, sou isto, sou aquilo. Está seguindo? Elas são todas imagens.

DS: Certo. Quem é o criador de imagem?

K: Afinal, se existe uma imagem desse tipo, como você pode ter amor em tudo isto?

DS: Nós não temos abundância dele.

K: Nós não o temos!

DS: Está certo... Temos uma porção de imagens. Por isso eu digo, eu não sei. Sei sobre a criação de imagem.

K: É terrível, senhor, ter estes... — está acompanhando?

DS: Certo. Sei sobre criar imagens e vejo isto. Mesmo enquanto você estava falando sobre isso, posso ver aqui e o sentimento é de, é como um mapa, você sabe onde está, porque se não crio esta imagem criarei outra. Se você não cria esta, criará outra.

K: Naturalmente. Estamos dizendo, é possível interromper o mecanismo que está produzindo as imagens? E qual é o mecanismo? É querer ser alguém?

DS: Sim. É querer ser alguém, é querer saber onde querer ter, reduzir, de um modo ou de outro, parecer ser querer manipular o sentimento de que não tenho ela ou não sei onde estou.

K: Estar perdido.

DS: Sim.

K: Veja que esperteza — estar de algum modo... Compreende? O sentimento de que você está perdido, não confiar em nada, não ter nenhum amparo, gera mais desordem.

DS: Certo.

DB: Essa é uma das imagens que foi transmitida a ela enquanto criança, para dizer que se você não possui uma imagem de si mesmo, você não sabe o que fazer. Você não sabe o que seus pais vão fazer se você começar a agir sem uma imagem. (Risos) Você pode fazer alguma coisa e eles simplesmente ficarão horrorizados.

DS: Está certo.

K: A imagem é produto do pensamento. Certo?

DS: É organizada.

K: Sim, um produto do pensamento. Pode passar por várias formas de pressões e todo o resto disso, muitas esteiras de montagem e no final produz uma imagem.

DS: Certo. Sem dúvida. Concordo com você aí. É definitivamente o produto do pensamento e esse pensamento parece ser como a ação imediata em saber onde você está; ou em tentar saber onde você está. É como se houvesse um espaço.

K: Assim, pode o mecanismo parar? Pode o pensamento que produz estas imagens, que destrói toda relação, e portanto, nenhum amor — ah, não verbalmente, de fato nenhum amor! Não diga: "Sim, eu amo minha..." — Isso não é... Quando um homem que tem uma imagem acerca de si mesmo diz, "Amo meu marido", ou minha esposa, ou meus filhos, é apenas sentimento, romantismo, um sentimento fantasioso.

DS: Certo.

K: Desse modo, como está agora, não existe amor no mundo. Não há o sentimento de verdadeiro cuidado por alguém.

DS: Isso é verdade. As pessoas não têm.

K: Quanto mais rico, pior se torna. Não que os pobres possuam isto. Não estou dizendo isso. As pessoas pobres também não têm isto. Elas estão atrás de encher seus estômagos e roupas e trabalho, trabalho, trabalho.

DB: Eles também têm uma porção de imagens.

K: Claro. Eu disse tanto o rico como o pobre têm estas imagens, incluindo Brezhnev e Sakharov, ou quem quer que seja. E estas são as pessoas que estão concertando o mundo. Certo? Que dizem "bem, isto deve..." — estão seguindo? Eles são a ordenação do universo. (Risos). Então, me pergunto: pode esta criação de imagens, parar? Parar, não ocasionalmente — parar isso. Porque então eu não sei o que o amor significa. Não sei como cuidar de alguém. E eu acho que é isso o que está acontecendo no mundo, pois as crianças são realmente almas perdidas, seres humanos perdidos. Eu encontrei muitas, centenas delas agora, pelo mundo todo. Elas são de fato uma geração perdida. Compreende, senhor? Como as pessoas mais velhas são uma geração perdida. Então, o que tem um ser humano a fazer? Qual é a ação correta na relação? Pode haver ação correta na relação enquanto você tem uma imagem?

DS: Não.

K: Ah! Não senhor, está é uma coisa tremenda — está seguindo?

DS: Por isso eu estava pensando: pareceu a mim que você deu um salto aí. Você disse, tudo o que conhecemos de um modo ou de outro são imagens, e a criação de imagem, e o pensamento. É tudo o que conhecemos.

K: Mas nós nunca dizemos "isso pode parar?"

DS: Nunca dizemos "pode parar", está certo!

K: Nunca dizemos: "Por deus, se isso não parar, vamos nos destruir uns aos outros".

DB: Você poderia dizer que agora a noção de isso poderia parar é mais alguma coisa que sabemos, que não sabíamos antes. Em outras palavras...

K: Torna-se um outro pedaço de conhecimento. (Risos)

DB: Mas eu estava tentando dizer que , quando você diz "tudo o que sabemos", é a mesma coisa que antes. Sinto que um bloqueio surge.

DS: Então você está de volta a isso. Certo.

DB: Em outras palavras, não é muito comum dizer: "tudo o que sabemos".

DS: Porque ele disse, "pode isso parar" — isso é mais do que...

DB: Se você diz "isto é tudo o que sabemos", então isso nunca vai parar.

K: Ele está fazendo objeção ao seu uso de "tudo". (Risos)

DS: Sou grato por isso.

DB: Esse é um dos fatores bloqueando isso.

DS: Sim. Bem, se voltarmos a isso, o que fazemos com essa pergunta: "pode ele parar?" Aqui estamos, temos esta questão: "ele pode parar?"

K: Eu fiz essa pergunta para você. Você a ouve?

DS: Ouço. Certo.

K: Ah, você ouve? 

DS: Isso para por um...

K: Não, não. Não estou interessado se isso pára. Você ouve à afirmação "ela pode parar". Nós agora examinamos, analisamos, ou examinamos todo este processo de criar imagem, o resultado dele, a miséria, a confusão, as coisas apavorantes que estão acontecendo; o árabe tem sua imagem, o judeu, o hindu, o muçulmano, o cristão, o não — estão seguindo? — o comunista. Existe esta tremenda divisão de imagens: símbolos, todo o resto disso. Se isso não pára você vai ter um mundo de tal forma caótica. Eu vejo isto, não como uma abstração, mas como uma atualidade como aquela flor. E sinto, enquanto ser humano, o que vou fazer? Porque eu, pessoalmente, não tenho imagem sobre isto. Realmente quero dizer, não tenho imagem sobre mim mesmo: uma conclusão, um conceito, um ideal, tudo isso são imagens. Eu não tenho nenhuma! E digo a mim mesmo: "O que eu posso fazer?" Quando todos a minha volta estão construindo imagens, e assim, destruindo esta encantadora Terra, onde estávamos destinados a vivermos felizes numa relação humana, e olhar para os céus e ser feliz com isso. Então, qual é a ação correta para um homem que tem uma imagem? Ou não há ação correta?

DS: Deixe-me voltar: O que acontece com você, quando lhe digo "pode isso parar?"

K: Eu digo: naturalmente! É muito simples para mim. Naturalmente que isso pode parar. Não me faça a pergunta seguinte: "Como você faz isso? Como isso acontece?"

DS: Não, eu quero só escutar por um minuto quando você diz "sim, naturalmente". Ok. Agora, como você acha que pode?

K: Cinco minutos, temos somente cinco minutos.

DS: Ok. Bem, vamos apenas tocar... Como isso pode parar? Eu não tenho... Deixe-me colocar isso diretamente. Vejamos se consigo ser direto. Eu não tenho absolutamente nenhuma evidência de que pode. nenhuma experiência de que pode.

K: Eu não quero evidência.

DS: Você não quer nenhuma evidência.

K: Não quero a explicação de ninguém.

DS: Ou a experiência.

K: Porque elas se baseiam em imagens. Imagem futura, ou imagem passada, ou imagem viva. Então, eu digo: "pode isso parar?" Digo que pode, definitivamente. Não é apenas uma afirmação verbal para divertir vocês. Para mim isto é tremendamente importante.

DS: Eu acho que concordamos que é tremendamente importante, mas como?

K: Não "Como". Porque então você entra na questão de sistemas, processo mecânico que é parte de nosso processo de criar imagens. Se lhe digo como, então você diz: "Diga-me o sistema, o método, a prática, vou fazê-lo todos os dias e terei uma nova imagem".

DS: Sim.

K: Agora, eu vejo o fato que está acontecendo no mundo.

DS: Eu entendi. Estou com você, sim.

K: Fato. Não minhas reações a ele; não minhas teorias românticas, fantasiosas sobre como não deveria ser. É um fato que enquanto houver imagens, não ocorrerá paz no mundo, nem amor no mundo, seja sendo a imagem de Cristo, ou do Buda ou a muçulmana, não haverá paz no mundo. Vejo isso como um fato. Eu permaneço com esse fato. Isso é tudo — acabou. Como dissemos esta manhã, se a pessoa permanece com o fato há uma transformação. O que é, não deixar o... não... o pensamento começar a interferir no fato.

DB: O mesmo que de manhã, mais imagens surgem.

K: Mais imagens surgem. Assim, nossa consciência está preenchida com estas imagens.

DS: Sim. Isto é verdade.

K: Eu sou um hindu, brâmane, eu sou minha tradição, eu sou melhor que qualquer outro; eu sou o povo escolhido, eu sou ariano — estão seguindo? Eu sou o único inglês... Tudo isso está abarrotando minha consciência.

DB: Quando você diz ficar com o fato, uma das imagens que pode surgir é "isso é impossível, não pode ser feito".

K: Sim, essa é outra imagem.

DB: Em outras palavras, se a mente pudesse ficar com esse fato, sem nenhum comentário qualquer que fosse.

DS: Bem, a coisa que chega a mim quando você diz isso, é que quando você diz, "fique com o fato", você está de fato pedindo uma ação exatamente aqui. Para permanecer realmente com ele é que a ação da percepção está ali.

K: Senhor, você não... Por que você faz isso tão... Está a sua volta! Você está envolvido nisso.

DS: Mas isso é diferente de ficar com o fato.

K: Fique com isso!

DS: Para realmente vê-lo.

K: Sim, isso é tudo.

DS: Sabe o que isso parece? Parece que alguma coisa... é levada, porque estamos sempre fugindo.

K: Então, nossa consciência é esta imagem, conclusões, ideias, tudo isso.

DS: Sempre fugindo.

K: Preencher, preencher, e essa é a essência da imagem. Se não há criação de imagem, então, o que é a consciência? Essa é uma coisa completamente diferente.

Diálogos realizados entre David Bohm (Físico), David Shainberg (Psiquiatra), e J.Krishamurti. em Brockwood Park em Maio de 1976, abordando

Uma criança nasce sem qualquer conhecimento


Uma criança nasce sem qualquer conhecimento, sem qualquer consciência de seu próprio eu. E quando uma criança nasce, a primeira coisa da qual ela se torna consciente não é ela mesma; a primeira coisa da qual ela se torna consciente é o outro. Isso é natural, porque os olhos se abrem para fora, as mãos tocam os outros, os ouvidos escutam os outros, a língua saboreia a comida e o nariz cheira o exterior. Todos esses sentidos abrem-se para fora. O nascimento é isso.

Nascimento significa vir a esse mundo: o mundo exterior. Assim, quando uma criança nasce, ela nasce nesse mundo. Ela abre os olhos e vê os outros. O outro significa o tu.

Ela primeiro se torna consciente da mãe. Então, pouco a pouco, ela se torna consciente de seu próprio corpo. Esse também é o 'outro', também pertence ao mundo. Ela está com fome e passa a sentir o corpo; quando sua necessidade é satisfeita, ela esquece o corpo. É dessa maneira que a criança cresce.
Primeiro ela se torna consciente do você, do tu, do outro, e então, pouco a pouco, contrastando com você, com tu, ela se torna consciente de si mesma.

Essa consciência é uma consciência refletida. Ela não está consciente de quem ela é. Ela está simplesmente consciente da mãe e do que ela pensa a seu respeito. Se a mãe sorri, se a mãe aprecia a criança, se diz 'você é bonita', se ela a abraça e a beija, a criança sente-se bem a respeito de si mesma. Assim, um ego começa a nascer.

Através da apreciação, do amor, do cuidado, ela sente que é ela boa, ela sente que tem valor, ela sente que tem importância. Um centro está nascendo. Mas esse centro é um centro refletido. Ele não é o ser verdadeiro. A criança não sabe quem ela é; ela simplesmente sabe o que os outros pensa a seu respeito.

E esse é o ego: o reflexo, aquilo que os outros pensam. Se ninguém pensa que ela tem alguma utilidade, se ninguém a aprecia, se ninguém lhe sorri, então, também, um ego nasce - um ego doente, triste, rejeitado, como uma ferida, sentindo-se inferior, sem valor. Isso também é ego. Isso também é um reflexo.

Primeiro a mãe. A mãe, no início, significa o mundo. Depois os outros se juntarão à mãe, e o mundo irá crescendo. E quanto mais o mundo cresce, mais complexo o ego se torna, porque muitas opiniões dos outros são refletidas.

O ego é um fenômeno cumulativo, um subproduto do viver com os outros. Se uma criança vive totalmente sozinha, ela nunca chegará a desenvolver um ego. Mas isso não vai ajudar. Ela permanecerá como um animal. Isso não significa que ela virá a conhecer o seu verdadeiro eu, não.

O verdadeiro só pode ser conhecido através do falso, portanto, o ego é uma necessidade. Temos que passar por ele. Ele é uma disciplina. O verdadeiro só pode ser conhecido através da ilusão. Você não pode conhecer a verdade diretamente. Primeiro você tem que conhecer aquilo que não é verdadeiro. Primeiro você tem que encontrar o falso. Através desse encontro, você se torna capaz de conhecer a verdade. Se você conhece o falso como falso, a verdade nascerá em você.

O ego é uma necessidade; é uma necessidade social, é um subproduto social. A sociedade significa tudo o que está ao seu redor, não você, mas tudo aquilo que o rodeia. Tudo, menos você, é a sociedade. E todos refletem. Você irá à escola e o professor refletirá quem você é. Você fará amizade com as outras crianças e elas refletirão quem você é. Pouco a pouco, todos estarão adicionando algo ao seu ego, e todos estarão tentando modificá-lo, de modo que você não se torne um problema para a sociedade.

Eles não estão interessados em você. Eles estão interessados na sociedade. A sociedade está interessada nela mesma, e é assim que deveria ser. Eles não estão interessados no fato de que você deveria se tornar um conhecedor de si mesmo. Interessa-lhes que você se torne uma peça eficiente no mecanismo da sociedade. Você deveria ajustar-se ao padrão.

Assim, estão interessados em dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Ensinam-lhe a moralidade. Moralidade significa dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Se você for imoral, você será sempre um desajustado em um lugar ou outro...

Moralidade significa simplesmente que você deve se ajustar à sociedade. Se a sociedade estiver em guerra, a moralidade muda. Se a sociedade estiver em paz, existe uma moralidade diferente. A moralidade é uma política social. É diplomacia. E toda criança deve ser educada de tal forma que ela se ajuste à sociedade; e isso é tudo, porque a sociedade está interessada em membros eficientes. A sociedade não está interessada no fato de que você deveria chegar ao auto-conhecimento.

A sociedade cria um ego porque o ego pode ser controlado e manipulado. O eu nunca pode ser controlado e manipulado. Nunca se ouviu dizer que a sociedade estivesse controlando o eu - não é possível.

E a criança necessita de um centro; a criança está absolutamente inconsciente de seu próprio centro. A sociedade lhe dá um centro e a criança pouco a pouco fica convencida de que esse é o seu centro, o ego dado pela sociedade.

Uma criança volta para casa. Se ela foi o primeiro lugar de sua sala, a família inteira fica feliz. Você a abraça e beija; você a coloca sobre os ombros e começa a dançar e diz 'que linda criança! você é um motivo de orgulho para nós.' Você está dando um ego para ela, um ego sutil. E se a criança chega em casa abatida, fracassada, foi um fiasco na sala - ela não passou de ano ou tirou o último lugar, então ninguém a aprecia e a criança se sente rejeitada. Ela tentará com mais afinco na próxima vez, porque o centro se sente abalado.

O ego está sempre abalado, sempre à procura de alimento, de alguém que o aprecie. E é por isso que você está continuamente pedindo atenção.

Você obtém dos outros a idéia de quem você é. Não é uma experiência direta.

É dos outros que você obtém a idéia de quem você é. Eles modelam o seu centro. Mas esse centro é falso, enquanto que o centro verdadeiro está dentro de você. O centro verdadeiro não é da conta de ninguém. Ninguém o modela. Você vem com ele. Você nasce com ele.

Assim, você tem dois centros. Um centro com o qual você vem, que lhe é dado pela própria existência. Esse é o eu. E o outro centro, que é criado pela sociedade - o ego. Esse é algo falso - é um grande truque. Através do ego a sociedade está controlando você. Você tem que se comportar de uma certa maneira, porque somente assim a sociedade irá apreciá-lo. Você tem que caminhar de uma certa maneira; você tem que rir de uma certa maneira; você tem que seguir determinadas condutas, uma moralidade, um código. Somente assim a sociedade o apreciará, e se ela não o fizer, o seu ego ficará abalado. E quando o ego fica abalado, você já não sabe onde está, você já não sabe quem você é.

Os outros deram-lhe a idéia. E essa idéia é o ego. Tente entendê-lo o mais profundamente possível, porque ele tem que ser jogado fora. E a não ser que você o jogue fora, nunca será capaz de alcançar o eu. Por estar viciado no falso centro, você não pode se mover, e você não pode olhar para o eu. E lembre-se: vai haver um período intermediário, um intervalo, quando o ego estará se despedaçando, quando você não saberá quem você é, quando você não saberá para onde está indo; quando todos os limites se dissolverão. Você estará simplesmente confuso, um caos.

Devido a esse caos, você tem medo de perder o ego. Mas tem que ser assim. Temos que passar através do caos antes de atingir o centro verdadeiro. E se você for ousado, o período será curto. Se você for medroso e novamente cair no ego, e novamente começar a ajeitá-lo, então, o período pode ser muito, muito longo; muitas vidas podem ser desperdiçadas...

Até mesmo o fato de ser infeliz lhe dá a sensação de "eu sou". Afastando-se do que é conhecido, o medo toma conta; você começa sentir medo da escuridão e do caos - porque a sociedade conseguiu clarear uma pequena parte de seu ser... É o mesmo que penetrar numa floresta. Você faz uma pequena clareira, você limpa um pedaço de terra, você faz um cercado, você faz uma pequena cabana; você faz um pequeno jardim, um gramado, e você sente-se bem. Além de sua cerca - a floresta, a selva. Mas aqui dentro tudo está bem: você planejou tudo.

Foi assim que aconteceu. A sociedade abriu uma pequena clareira em sua consciência. Ela limpou apenas uma pequena parte completamente, e cercou-a. Tudo está bem ali. Todas as suas universidades estão fazendo isso. Toda a cultura e todo o condicionamento visam apenas limpar uma parte, para que ali você possa se sentir em casa.

E então você passa a sentir medo. Além da cerca existe perigo.

Além da cerca você é, tal como você é dentro da cerca - e sua mente consciente é apenas uma parte, um décimo de todo o seu ser. Nove décimos estão aguardando no escuro. E dentro desses nove décimos, em algum lugar, o seu centro verdadeiro está oculto.

Precisamos ser ousados, corajosos. Precisamos dar um passo para o desconhecido.
Por um certo tempo, todos os limite ficarão perdidos. Por um certo tempo, você vai se sentir atordoado. Por um certo tempo, você vai se sentir muito amedrontado e abalado, como se tivesse havido um terremoto.

Mas se você for corajoso e não voltar para trás, se você não voltar a cair no ego, mas for sempre em frente, existe um centro oculto dentro de você, um centro que você tem carregado por muitas vidas. Esse centro é a sua alma, o eu.

Uma vez que você se aproxime dele, tudo muda, tudo volta a se assentar novamente. Mas agora esse assentamento não é feito pela sociedade. Agora, tudo se torna um cosmos e não um caos, nasce uma nova ordem. Mas essa não é a ordem da sociedade - essa é a própria ordem da existência.

É o que Buda chama de Dhamma, Lao Tzu chama de Tao, Heráclito chama de Logos. Não é feita pelo homem. É a própria ordem da existência. Então, de repente tudo volta a ficar belo, e pela primeira vez, realmente belo, porque as coisas feitas pelo homem não podem ser belas. No máximo você pode esconder a feiúra delas, isso é tudo. Você pode enfeitá-las, mas elas nunca podem ser belas...

O ego tem uma certa qualidade: a de que ele está morto. Ele é de plástico. E é muito fácil obtê-lo, porque os outros o dão a você. Você não precisa procurar por ele; a busca não é necessária. Por isso, a menos que você se torne um buscador à procura do desconhecido, você ainda não terá se tornado um indivíduo. Você é simplesmente mais um na multidão. Você é apenas uma turba. Se você não tem um centro autêntico, como pode ser um indivíduo?

O ego não é individual. O ego é um fenômeno social - ele é a sociedade, não é você. Mas ele lhe dá um papel na sociedade, uma posição na sociedade. E se você ficar satisfeito com ele, você perderá toda a oportunidade de encontrar o eu. E por isso você é tão infeliz. Como você pode ser feliz com uma vida de plástico? Como você pode estar em êxtase ser bem-aventurado com uma vida falsa? E esse ego cria muitos tormentos. O ego é o inferno. Sempre que você estiver sofrendo, tente simplesmente observar e analisar, e você descobrirá que, em algum lugar, o ego é a causa do sofrimento. E o ego segue encontrando motivos para sofrer...

E assim as pessoas se tornam dependentes, umas das outras. É uma profunda escravidão. O ego tem que ser um escravo. Ele depende dos outros. E somente uma pessoa que não tenha ego é, pela primeira vez, um mestre; ele deixa de ser um escravo.

Tente entender isso. E comece a procurar o ego - não nos outros, isso não é da sua conta, mas em você. Toda vez que se sentir infeliz, imediatamente feche os olhos e tente descobrir de onde a infelicidade está vindo, e você sempre descobrirá que o falso centro entrou em choque com alguém.

Você esperava algo e isso não aconteceu. Você espera algo e justamente o contrário aconteceu - seu ego fica estremecido, você fica infeliz. Simplesmente olhe, sempre que estiver infeliz, tente descobrir a razão.

As causas não estão fora de você.

A causa básica está dentro de você - mas você sempre olha para fora, você sempre pergunta: 'Quem está me tornando infeliz?' 'Quem está causando a minha raiva?' 'Quem está causando a minha angústia?'
Se você olhar para fora, você não perceberá. Simplesmente feche os olhos e sempre olhe para dentro. A origem de toda a infelicidade, da raiva e da angústia, está oculta dentro de você, é o seu ego.

E se você encontrar a origem, será fácil ir além dela. Se você puder ver que é o seu próprio ego que lhe causa problemas, você vai preferir abandoná-lo - porque ninguém é capaz de carregar a origem da infelicidade, uma vez que a tenha entendido.

Mas lembre-se, não há necessidade de abandonar o ego. Você não o pode abandonar. E se você tentar abandoná-lo, simplesmente estará conseguindo um outro ego mais sutil, que diz: 'tornei-me humilde'...

Todo o caminho em direção ao divino, ao supremo, tem que passar através desse território do ego. O falso tem que ser entendido como falso. A origem da miséria tem que ser entendida como a origem da miséria - então ela simplesmente desaparece. Quando você sabe que ele é o veneno, ele desaparece. Quando você sabe que ele é o fogo, ele desaparece. Quando você sabe que esse é o inferno, ele desaparece.

E então você nunca diz: 'eu abandonei o ego'. Você simplesmente irá rir de toda essa história, dessa piada, pois você era o criador de toda essa infelicidade...

É difícil ver o próprio ego. É muito fácil ver o ego nos outros. Mas esse não é o ponto, você não os pode ajudar.

Tente ver o seu próprio ego. Simplesmente o observe.

Não tenha pressa em abandoná-lo, simplesmente o observe. Quanto mais você observa, mais capaz você se torna. De repente, um dia, você simplesmente percebe que ele desapareceu. E quando ele desaparece por si mesmo, somente então ele realmente desaparece. Porque não existe outra maneira. Você não pode abandoná-lo antes do tempo. Ele cai exatamente como uma folha seca.

Quando você tiver amadurecido através da compreensão, da consciência, e tiver sentido com totalidade que o ego é a causa de toda a sua infelicidade, um dia você simplesmente vê a folha seca caindo... e então o verdadeiro centro surge.

E esse centro verdadeiro é a alma, o eu, o deus, a verdade, ou como quiser chamá-lo. Você pode lhe dar qualquer nome, aquele que preferir."

OSHO, Além das Fronteiras da Mente.

Educação não é moldar a criança


A educação correta não está interessada em ideologia alguma, por mais promissora que seja uma futura Utopia; não se baseia em sistema algum, por mais escrupulosamente que tenha sido concebido; não é, tampouco, um meio de condicionar o indivíduo de determinada maneira. Educação no sentido verdadeiro, é ajudar o indivíduo a tornar-se um ente amadurecido e livre, para "florescer ricamente em amor e bondade". Nisso é que devemos estar interessados, e não, em moldar a criança de acordo com um padrão idealista.

Todo método de classificar as crianças segundo seus temperamentos e aptidões põe em relevo suas diferenças, cria antagonismo, fomenta divisões na sociedade e não ajuda a produzir entes humanos integrados. É bem evidente que nenhum método ou sistema pode promover a educação correta, e a estrita aderência a determinado método denota a indolência da parte do educador. Enquanto a educação se fundar em princípios rígidos, poderá produzir homens e mulheres proficientes, mas nunca formará entes humanos criadores.

Só o amor pode despertar a compreensão para com outrem. Quando há amor, há comunhão instantânea com outra pessoa, no mesmo nível, ao mesmo tempo. Porque somos tão áridos, vazios e sem amor é que deixamos os governos e os sistemas se encarregarem da educação de nossos filhos e da direção de nossas vidas; mas os governos precisam de técnicos eficientes e não de entes humanos, pois que estes se tornam perigosos para os governos — assim como para as religiões organizadas. É por isso que os governos e organizações religiosas têm interesse em controlar a educação.

A vida não pode ser posta em conformidade com um sistema, não podemos metê-la à força num molde, por melhor que este tenha sido concebido; e a mente que só se exercita no saber positivo, é incapaz de compreender a vida na sua variedade e sutilidade, nas suas profundezas e grandes alturas. Quando educamos nossos filhos de acordo com um sistema de pensamento ou uma determinada disciplina, quando os ensinamos a pensar "especializadamente", impedimos que eles se tornem homens e mulheres integrados, e por isso são incapazes de pensar inteligentemente, isto é, de encarar a vida como um todo.

A mais alta função da educação consiste em produzir um indivíduo integrado, capaz de entrar em relação com a vida como um todo. O idealista, tal como o especialista, não está interessado no todo, mas apenas na parte. Não poderá haver integração, enquanto estivermos interessados em algum padrão ideal de ação; e a maioria dos preceptores, que são idealistas, repudiaram o amor; suas mentes são áridas e seus corações insensíveis.

(...) Outra finalidade da educação é a de criar novos valores. Inculcar, simplesmente, na mente da criança os valores prevalescentes, fazê-la ajustar-se a ideais, é condicioná-la, sem despertar-lhe a inteligência. A educação está estreitamente ligada à presente crise mundial, e o educador que percebe as causas deste caos universal deve perguntar a si mesmo como despertar a inteligência do estudante e contribuir, deste modo, para que a geração futura não produza novos conflitos e desastres. Deve consagrar todo o seu pensamento, todo o seu desvê-lo e cuidado à criação do ambiente adequado e ao desenvolvimento da compreensão, para que, atingindo a madureza, a criança seja capaz de atender inteligentemente aos problemas que a vida lhe oferecer. Mas, para fazê-lo, precisa o educador compreender a si mesmo, em vez de confiar em ideologias, sistemas e crença.

Deixemos de lado os princípios e os ideais e interessemo-nos pelas coisas tais como são; o estudo do que é desperta a inteligência, e a inteligência do educador é muito mais importante do que seu conhecimento de um novo método de educação. Quando seguimos um método, ainda que tal método haja sido elaborado por pessoa sensata e inteligente, ele se torna tão importante que as crianças são consideradas importantes apenas quando se ajustam a ele. Tomamos as medidas da criança, classificamo-la e passamos a educá-la de acordo com um gráfico, um plano. Esse processo de educação pode ser muito conveniente para o preceptor, mas nem a prática de um sistema, nem a tirania da opinião e do saber podem produzir um ser humano integrado.

A educação correta consiste em compreender a criança tal como é, sem lhe impor nenhum ideal relativo ao que pensamos que ela "deveria ser". Enquadrá-la em um ideal é induzi-la a adaptar-se, o que gera temor e produz na criança um conflito constante entre o que ela é e o que "deveria ser". E todos os conflitos interiores têm suas manifestações exteriores na sociedade. os ideais constituem verdadeiro obstáculo à nossa compreensão da criança e a compreensão de si própria, pela criança.

O pai, que deseja de verdade compreender o filho, não o olha através da cortina de um ideal. Se ama o filho, observa-o, estuda-lhe as tendências, disposições e peculiaridades. Só quando não temos amor à criança lhe impomos um ideal, porque então pretendemos ver realizadas nela nossas próprias ambições e queremos que ela seja isso ou aquilo. Quem ama não o ideal, mas a criança, tem a possibilidade de ajudá-la a compreender-se a si própria, tal como é.

(...) para ajudar a criança, necessitamos de tempo para estudá-la e observá-la, e isso requer paciência, amor e carinho; mas, quando não temos amor, quando não temos compreensão, forçamos a criança a agir de acordo com um padrão a que chamamos "ideal".

Os ideais constituem escapula muito conveniente, e o preceptor que os segue é incapaz de compreender os seus discípulos e de cuidar deles inteligentemente; para ele o ideal do futuro, "o que deve ser ", é muito mais importante do que a criança atual. A fidelidade a um ideal exclui o amor, e sem amor nenhum problema humano pode ser resolvido.

O bom preceptor não confiará em método algum, estudará cada um dos seus discípulos individualmente. Nas relações que mantemos com as crianças e os adolescentes, não devemos encará-los como máquinas, passiveis de "endireitar" num instante, mas como seres vivos, impressionáveis, volúveis, sensíveis, medrosos, afetivos; e no trato com eles necessitamos de muita compreensão, da força da paciência e do amor. Quando carecemos dessas qualidades, recorremos a remédios prontos e fáceis, esperando resultados automáticos e maravilhosos. Quando somos desatentos, mecânicos em nossas atitudes e ações, eximimo-nos de todo e qualquer mister que nos pareça incômodo e que não possamos executar automaticamente; esta é uma das principais dificuldades na educação.

A criança tanto é resultado do passado como do presente, e como tal já está condicionada. Se lhe transmitimos nossa própria mentalidade, perpetuamos tanto o seu como o nosso condicionamento. Só há transformação radical se compreendemos nosso próprio condicionamento e nos livramos dele. Discutir sobre o deve ser educação correta, enquanto estamos condicionados, é totalmente fútil.

Enquanto as crianças são muito novas, devemos, é claro, protegê-las contra danos físicos e não deixar que se sintam fisicamente inseguras. Mas, infelizmente, não paramos aí; queremos formar suas maneiras de pensar e de sentir, queremos moldá-las de acordo com nossas próprias aspirações e intentos. Queremos preencher-nos em nossos filhos, perpetuar-nos através deles. Erguemos muralhas em redor deles, condicionamo-los a nossas crenças e ideologias, temores e esperanças — e depois choramos e rezamos quando morrem ou ficam mutilados nas guerras, ou quando as experiências da vida lhes infligem sofrimentos.

Essas experiências não trazem liberdade alguma;ao contrário, fortificam a vontade do "eu". O "eu" se constitui de uma série de reações defensivas e expansivas, e seu preenchimento está sempre em suas próprias projeções e agradáveis identificações. Enquanto traduzimos a experiência em termos relativos ao "eu", a "mim", ao "meu"; enquanto o "eu", o "ego", se mantiver por meio de suas reações, a experiência não pode ser livre de conflito, confusão e dor. A liberdade vem quando compreendemos a natureza do "eu", do "experimentador". Só quando o "eu", com suas reações acumuladas, não é mais o "experimentador", a experiência assume um significado inteiramente diferente e se transforma em criação.

Para ajudar a criança a libertar-se dos ditames do "eu", causadores de tantos sofrimentos, cada um de nós deverá modificar profundamente sua atitude e suas relações com a criança. Os pais e os educadores podem, com seu próprio entendimento e conduta, ajudar a criança a ser livre e a florescer em amor e bondade.

A educação, no seu estado atual, não favorece de maneira alguma a compreensão das tendências hereditárias e das influências ambientais, que condicionam a mente e o coração e sustentam o temor; por conseguinte, ela não nos ajuda a romper esses condicionamentos, para produzir um ente humano integrado. Qualquer forma de educação que só atenda a uma parte e não à totalidade do homem, conduz, inevitavelmente, a conflitos e sofrimentos cada vez maiores.

Só na liberdade individual pode florescer o amor e a bondade; e só a educação correta pode oferecer essa liberdade. Nem o ajustamento à sociedade atual nem a promessa de uma futura Utopia pode, em tempo algum, dar ao indivíduo aquele discernimento, sem o qual ele está sempre criando problemas.
O verdadeiro educador, que percebe a natureza intrínseca da liberdade, ajuda cada um dos seus discípulos, individualmente, a observar e compreender os valores e ilusões por ele próprio (discípulo) criados e "projetados"; ajuda-o a se tornar cônscio das influências condicionantes que o cercam, bem como dos seus próprios desejos, que limitam a mente e geram o temor; ajuda-o, no caminho para a virilidade, a observar e a compreender a si próprio em relação a todas as coisas, porque a ânsia de realizar nosso próprio preenchimento é a causadora de conflitos e tribulações infindáveis.

É certo que se pode ajudar o indivíduo a perceber os valores perenes da vida, sem condicioná-lo... A confusão que já existe no mundo surgiu porque o indivíduo não foi educado para compreender a si próprio. Deram-lhe alguma liberdade superficial, mas também lhe ensinaram a ajustar-se, a aceitar valores prevalecentes.

Contra estar "arregimentação", muitos estão insurgindo; esta revolta, infelizmente, é mera reação egoística, que ensombra mais ainda a nossa existência. O verdadeiro educador, cônscio da tendência da mente para a reação, ajuda o discípulo a alterar os valores atuais, não por meio da reação contra eles, mas pela compreensão do processo total da vida. A plena cooperação entre um homem e outro não é possível sem a integração, que a educação correta pode contribuir para o despertar do indivíduo.

Krishnamurti – A educação e o significado da vida

Toda criança nasce em êxtase


A sociedade fez uma grande obra. A educação, a cultura e os agentes culturais, os pais, os professores - fizeram uma grande obra. Transformaram criadores extasiados em criaturas miseráveis. Toda criança nasce em êxtase. Toda criança é um deus ao nascer. E todo homem morre como um louco. A menos que você descubra, a menos que recupere sua infância não será capaz de tornar-se como as nuvens brancas sobre as quais estou falando. Este é todo o seu trabalho, o sadhana - recobrar sua infância, recuperá-la. Se vocês puderem se tornar crianças novamente então... então não haverá nenhuma miséria. Isto não significa que para uma criança não existam momentos de miséria - existem. Mas mesmo assim não existe nenhuma miséria. Tente compreender isto. Uma criança pode sentir-se miserável, pode ficar infeliz, intensamente infeliz em um momento, mas ela é tão total nessa infelicidade, ela é tão inteira nessa infelicidade, que não existe nenhuma divisão. A criança separada da infelicidade não existe. A criança não olha para sua infelicidade dividida, à parte. Quando a criança está infeliz, fica totalmente envolvida. E quando você se torna inteiro na infelicidade, a infelicidade não é infelicidade. Se você se torna unido a ela, então ela tem sua própria beleza.

Olhe para uma criança - uma criança não mimada, eu quero dizer. Se ela estiver com raiva, toda a sua energia se transformará em raiva: nada será deixado para trás, nada será retido. Ela avançou e ficou com raiva; não há ninguém manipulando e controlando isso. Não há nenhuma mente. A criança tornou-se a raiva - ela não está com raiva, transformou-se na raiva. E então veja a beleza, o florescimento da raiva. A criança nunca fica feia - mesmo na raiva é bela. Fica apenas mais intensa, mais vital, mais viva - um vulcão prestes entrar em erupção. Uma criança tão pequena, uma energia tão grande, um ser tão atômico - com o universo inteiro a explodir.

E após a raiva, a criança fica silenciosa. Após a raiva, a criança fica em paz. Após a raiva, a criança relaxa. Podemos pensar que é uma miséria estar com raiva, mas a criança não fica miserável - ela tem prazer nisso. 

Se você se tornar inteiro em alguma coisa, ficará feliz. Se separar a si mesmo de qualquer coisa, mesmo da felicidade, tornar-se-á miserável. Portanto, esta é a chave: Fique dividido com o ego e esta será a base de toda a miséria. Fique inteiro, fluindo com tudo o que a vida traz, fique nisso intensamente, totalmente, de modo a não ser mais, a se perder... e tudo será felicidade. A escolha existe, mas você se tornou inconsciente dela. Escolheu o errado tão continuamente, fez disso um hábito tão morto, que escolhe automaticamente. Nenhuma escolha lhe resta.

Torne-se alerta. Em todos os momentos em que estiver escolhendo ser miserável lembre-se: a escolha é sua. Essa conscientização o auxiliará - essa percepção de que a escolha é minha, de que eu sou responsável, e de que isto é o que estou escolhendo para mim mesmo, de que sou eu que estou fazendo isto. Imediatamente você sentirá a diferença. A qualidade da mente será mudada. Será mais fácil caminhar para a felicidade. E uma vez que você sabe que a escolha é sua, a coisa toda se torna um jogo. Então, se você ama ser miserável, seja miserável. Mas lembre-se: a escolha é sua. E não reclame. Não existe ninguém que seja responsável por isso. Esse drama é seu. Se você gosta desse caminho, se gosta de estar num caminho miserável, se quer passar pela vida na miséria, essa escolha é sua, o jogo é seu. Você o está jogando. Jogue-o bem!

Mas então não vá perguntar às pessoas como não ser miserável. Isto é absurdo. Não vá perguntar aos Mestres e gurus como ser feliz. As pessoas chamadas de gurus existem porque vocês são tolos. Vocês criam a miséria, e depois vão perguntar aos outros como livrar-se dela. E continuam criando miséria, porque não estão conscientes do que estão fazendo.

A partir desse momento, tentem, experimentem ser felizes e alegres.

O S H O 

Por que os pais são tão cruéis com seus filhos?


Os pais são cruéis com seus filhos porque têm um certo investimento neles. Os pais têm certas ambições que gostariam de satisfazer através de seus filhos — por isso são tão cruéis. Eles querem usar os filhos. No momento em que você quer usar alguém, fatalmente você será cruel. A própria ideia de usar alguém como meio, está permeada de crueldade, de violência.

Jamais trate outra pessoa como um meio! — porque cada pessoa é um fim em si mesma.

Os pais são cruéis porque estão cheios de ideias: querem que os filhos sejam isso e aquilo. Eles gostariam que os filhos fossem ricos, famosos, respeitados; gostariam que seus filhos satisfizessem os seus egos insatisfeitos. Os filhos se tornam sua viagem.

O pai queria ser rico mas não teve sucesso; e agora a morte está se aproximando; mais cedo ou mais tarde será eliminado da vida. Ele sente-se frustrado: ainda não alcançou o seu objetivo. Ele ainda estava tentando, buscando... e agora vem a morte — e isso parece tão injusto! Ele gostaria que o filho prosseguisse com o trabalho, porque o filho o representa. Ele é seu sangue, é sua projeção, é uma parte dele — é sua imortalidade. Quem conhece a alma? Ninguém a conhece com certeza. As pessoa acreditam, mas a crença nasce do medo, no fundo a dúvida permanece.

Cada crença carrega a dúvida dentro de si. Sem a dúvida não pode existir qualquer crença. Para reprimir a dúvida, nós criamos a crença — mas a dúvida permanece correndo o coração como uma lagarta corrói a maçã; ela o vai correndo por dentro, ela o vai apodrecendo por dentro. Quem conhece Deus e quem conhece a alma? Eles podem não existir.

A única imortalidade conhecida pelo homem é através dos filhos — isso é um fato. O pai sabe: "Eu estarei vivendo em meu filho. Eu estarei morto, em breve estarei sob a terra, mas meu filho estará aqui. E meus desejos permaneceram insatisfeitos". Ele impõe esses desejos, implanta esses desejos no inconsciente do filho: "Você tem que satisfazê-los. Se você os satisfizer, eu ficarei feliz. Se você os satisfizer, você estará pagando suas dívidas para com o seu pai. Se você não os satisfizer, você estará me traindo".

É por aí que a crueldade entra. Agora, o pai começa a moldar a criança de acordo com o seu desejo. Ele esquece que a criança tem sua própria alma, que a criança tem sua própria individualidade, que a criança tem seu próprio desenvolvimento interior que deve desabrochar. O pai impõe suas ideias. Ele começa a destruir a criança.

E ele pensa que a ama: ele ama somente a própria ambição. Ele ama o filho porque este vai se tornar um instrumento; o filho vai ser um meio. Isso é crueldade.

Você me pergunta: "Por que os pais são tão cruéis com seus filhos?"

Eles não podem mudar isso, porque têm ideias, ambições e desejos insatisfeitos. Eles querem satisfazê-los, querem continuar a viver através dos filhos. Naturalmente eles podam, eles cortam, eles moldam, eles dão um padrão para a criança. E as crianças são destruídas.

Essa destruição fatalmente acontece — a menos que um novo ser humano, que ame por amar, surja sobre a terra; a menos que uma nova paternidade, em que você ama a criança pela simples alegria de amar, em que você ama a criança como uma dádiva de Deus, seja concebida. Você ama a criança porque Deus foi tão... uma tamanha benção para você. Você ama a criança porque a criança é vida, um convidado que veio do desconhecido e que se aninhou em seu lar, em seu ser, que o escolheu como seu ninho. Você está grato e você ama a criança.

Se você realmente ama a criança, não dará as suas ideias para a criança. O amor jamais dá qualquer ideia, jamais dá qualquer ideologia. O amor dá liberdade. Você não o amoldará. Se o filho quiser se tornar um músico, você não tentará dissuadi-lo. E você sabe perfeitamente bem que ser músico não é o tipo de emprego mais indicado, que ele será pobre, que ele jamais se tornará muito rico, que ele jamais se tornará um Henry Ford. Ou a criança quer se tornar um poeta e você sabe que ele será apenas um mendigo. Você sabe disso! Mas você aceita isso porque respeita a criança!

O amor é sempre respeitoso. O amor é reverente. Você respeita! Porque se esse é o desejo de Deus a ser cumprido através de uma criança, então permita que assim seja. Você não interfere, você não se intromete no caminho. Você não diz: "Isso não está certo. Eu conheço melhor a vida, eu vivi a vida — você é apenas um ignorante, não conhece a vida e suas experiências. Eu sei o que significa ter dinheiro. A poesia não vai lhe dar dinheiro. É melhor que se torne um político, ou pelo menos se torne um engenheiro ou médico". E a criança quer se tornar um cortador de lenha, ou a criança quer se tornar um sapateiro, ou a criança simplesmente quer se tornar um vagabundo, e quer desfrutar a vida... descansar sob as árvores, nas praias do mar, vagar pelo mundo...

Se você ama, você não interfere; você diz: "Ok, vá com minhas bênçãos. Procure, busque a sua verdade. Seja tudo aquilo que deseja ser. Eu não vou ficar no seu caminho. E não vou incomodá-lo com minhas experiências — porque minhas experiências são minhas experiências. Você não é eu. Você pode ter vindo através de mim, mas você não é eu — você não é minha cópia. Você não deve ser uma cópia de mim. Você não deve me imitar. Eu vivi a minha vida — você viva a sua. Não vou sobrecarregá-lo com minhas experiências não vividas. Eu não vou sobrecarregá-lo com meus desejos não satisfeitos. Eu farei com que permaneça leve. E eu o auxiliarei — seja tudo aquilo que quiser ser, com todas as minhas bênçãos e com toda a minha ajuda".

Os filhos vêm através de vocês, mas eles pertencem a Deus, pertencem à totalidade. Não os possua. Não comece a pensar que eles lhes pertencem. Como podem lhe pertencer?

Uma vez que essa visão aflore em você, — então não haverá mais crueldade.

Você pergunta: "Por que os pais são tão cruéis com os filhos? Faz algum sentido responsabilizá-los?"

Não, eu não estou dizendo que faz qualquer sentido colocar a responsabilidade sobre os pais — porque eles sofreram por causa dos pais deles, e assim por diante... É necessário entender. Encontrar bodes expiatórios não é de qualquer ajuda. Você pode simplesmente dizer: "Eu estou destruído porque meus pais me destruíram — o que eu posso fazer?" Eu sei, os pais são destrutivos, mas se você se torna alerta e consciente, você pode sair do padrão que eles criaram e teceram à sua volta.

Você sempre é capaz de sair de qualquer armadinha que tenha sido armada à sua volta. A sua liberdade pode ter sido enjaulada, mas a liberdade é tal, é tão intrínseca, que não pode ser completamente destruída. Ela sempre permanece, e você pode encontrá-la novamente. Talvez seja difícil, árduo, duro, uma tarefa penosa, mas não é impossível.

Não faz sentido simplesmente jogar a responsabilidade sobre outros, porque isso o torna irresponsável. É justamente isso o que os psicanalistas freudianos têm feito às pessoas — esse é o seu mal. Você vai a um psicanalista e ele o faz sentir-se perfeitamente bem quando diz: "O que você pode fazer? Seus pais eram tais — sua mãe era isso, seu pai era aquilo, toda a sua criação foi errada. É por isso que você está sofrendo de todos esses problemas." Você se sente bem — agora não é mais responsável.

Durante dois mil anos o cristianismo tem feito você sentir-se responsável, sentir-se culpado, sentir-se um pecador. Agora a psicanálise vai para o outro extremo: simplesmente diz que você não é o pecador, que não precisa se sentir culpado — você está perfeitamente ok. Esqueça tudo a respeito de culpa e esqueça tudo a respeito de pecado. Os outros são responsáveis!

O cristianismo causou muitos danos ao criar a ideia de culpa — agora a psicoanálise está causando danos no outro extremo ao criar a ideia de irresponsabilidade.

Você deve se lembrar: os pais fizeram certas coisas porque foram ensinados a fazer certas coisas — os pais deles os haviam ensinado. Eles também foram educados por pais; eles não vieram diretamente do céu. Assim, qual é o sentido de jogar a responsabilidade para trás? Isso não ajuda; não ajudará a solucionar qualquer problema. Simplesmente o ajudará a se aliviar da culpa. Isso é bom, o lado bom; o lado benéfico da psicanálise é que ela o alivia da culpa. E o lado prejudicial é que ela o deixa ali, não o fazendo sentir-se responsável.

Sentir-se culpado é uma coisa; sentir-se responsável é outra coisa. Eu lhe ensino responsabilidade. O que quero dizer com responsabilidade? Você não é responsável por seus pais, você não é responsável para com Deus algum e você não é responsável para com qualquer sacerdote — você tem responsabilidade para com seu ser interior. Responsabilidade é liberdade! Responsabilidade é a ideia de que "Eu tenho que tomar as rédeas de minha vida em minhas próprias mãos. Já chega! Meus pais têm me prejudicado — tudo que eram capazes de fazer, fizeram: o bem e o mal, fizeram ambos. Agora me tornei uma pessoa madura. Eu deveria tomar tudo em minhas próprias mãos e começar a viver conforme as coisas forem surgindo dentro de mim. Eu deveria devotar toda a minha energia para minha vida agora". E imediatamente você se sentirá tomado por uma grande força.

OSHO

Sobre a relação de pais e professores para com as crianças

Excerto legendado da palestra de Jiddu Krishnamurti em Madras, 1981

A questão da autoridade


Os pais têm responsabilidade de dar os filhos uma orientação adequada e a segurança que lhes é devida e ambas exigem que eles exerçam sua autoridade. Há pais que jamais se atrevem a castigar ou a praticar uma autoridade sadia. Esse defeito se deve a culpa, porque o amor real, generoso, afetuoso e alentador não é parte integrante de sua personalidade imatura. Outros pais chegam a ser muito severos, rigorosos demais. Assim, exercem uma autoridade dominadora mal-tratando a criança e impedindo o desenvolvimento de sua individualidade. Ambos os tipos fracassam como pais, e suas atitudes errôneas, absorvidas pela criança, abrirão feridas e prepararão a caminhada da não-realização.

Eva Pierrakos - O Caminho da Autotransformação

Incapacidade de amar com maturidade

Pelo fato de que, como crianças, as pessoas raramente recebem amor maduro e afeto suficientes — e a menos que essa carência e feridas se tornem conscientes e sejam tratadas adequadamente — elas passam toda sua vida desejando preencher-se com esses sentimentos. Se não tomarem medidas definitivas, como adultos, passarão pela vida clamando inconscientemente pelo que não tiveram na infância. Isto as tornará incapazes de amar com maturidade. Você pode ver como essa condição se transmite de geração em geração. 

Eva Pierrakos — O Camiho da Autotransformação
- Cap. 3 compulsão de recriar e de superar as feridas da infância

Mudar é sempre mais difícil do que permanecer o mesmo


“Mudar é sempre mais difícil do que permanecer o mesmo. É preciso coragem para se encarar no espelho e ver além do reflexo. Para encontrar o que você deveria ter sido. O que você perdeu pelos cruéis eventos de infância. Eventos que pegaram a trajetória natural da sua vida e a distorceram. Mudar para algo inimaginável, ou mesmo incrível, te dando a coragem para abraçar o seu legado, o seu destino.” 

Richard "Dick" Grayson, 1º Robin, Asa Noturna.
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"É porque se espalha o grão que a semente acaba
por encontrar um terreno fértil."-
Júlio Verne


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"A aventura é, sempre e em todos os lugares, uma passagem pelo véu que separa o conhecido do desconhecido; as forças que vigiam no limiar são perigosas e lidar com elas envolve riscos; e, no entanto, todos os que tenham competência e coragem verão o perigo desaparecer." — Joseph Campbell em, O Herói de Mil Faces

"Acredito que o maior presente que alguém me pode dar é ver-me, ouvir-me, compreender-me e tocar-me. O maior presente que eu posso dar é ver, ouvir, entender e tocar o outro. Quando isso acontece, sinto que fizemos contato" — Virginia Satir

"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti