terça-feira, 12 de julho de 2016

Vem sentar-te ao pé de mim


Ah! Vem sentar-te ao pé de mim, Junto ao mar aberto e livre.

E eu te falarei dessa calma interior
E do profundo silêncio; 
Da interna liberdade
E bem assim dos céus;
Dessa ventura interna
E das bailantes água. 

E tal como abre, a lua, uma esteira silenciosa pelos mares escuros,
Junto a mim eu tenho o iluminado caminho do puro entendimento.
A tristeza que geme está oculta em um sorriso de escárnio,
O coração está opresso sob o peso do amor corruptível,
As decepções da mente corrompem o pensamento. 

Ah! Vem sentar-te ao pé de mim, 
Franco e liberto. E como o sereno fluxo da clara luz do sol,
Assim virá a ti o entendimento. 
O temor fatigante da ansiosa espera
Afastar-se-á de ti, como recuam as águas ante os ventos impetuosos.

Ah! Vem sentar-te ao pé de mim, 
E terás o entendimento do verdadeiro amor. 
E, como a mente afasta as nuvens que a cegam,
Um claro pensar eliminará teus brutais preconceitos. 

Está do sol a lua enamorada
E as estrelas enchem o céu como o seu riso.

Ah! Vem sentar-te ao pé de mim
Franco e liberto.

Krishnamurti
   

A crise de abstinência de objetivos condicionados

A crise de abstinência de objetivos condicionados

Antes só do que estar sendo condicionado

Não há nada de Eterno no externo

domingo, 3 de julho de 2016

O processo


O processo de retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa tem o seu início quando o indivíduo se sente farto de representar papéis sociais que não condizem com a realidade de sua Consciência. 

O processo se intensifica quando, em reação aos ditames desta Consciência, se vê assolado pelo bombardeio de imagens, memórias e monólogos mentais, que o infernizam numa atmosfera de culpa, desespero e auto-repugnância.

Este é um momento muito solitário pois o indivíduo "iniciante" ressente-se da mediocridade do meio em que se vê inserido, sendo que este se mostra absolutamente impossibilitado de compartilhar de seu atual estado de percepção.

É inevitável que, com este novo e ainda imaturo estado de percepção, o iniciante traga consigo um olhar ácido, rancoroso e sedento de retalhação, ainda que, na grande maioria dos casos, devido a profunda dependência emocional do meio (e por vezes física), não o sustente externá-las. 

De fato,  não é fácil estar-se vivo num ambiente onde, espiritualmente, a maioria se apresente num estado de morto-vivo. 

Somente quando o iniciante se percebe, não de modo intelectual, mas sim em suas mais profundas entranhas, a realidade de suas próprias circunstâncias, totalmente distanciadas da realidade do amor é que aceita "embarcar" em direção à mares conscienciais, nunca sequer imaginados de serem um dia navegados. 

Outsider 

A vida não é uma loja de departamento

Recado ao Aprendiz de Samurai

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Atravessando a arrebentação da mente adquirida

Lave e limpe sua mente

Lave e limpe sua mente para obter a verdadeira visão original, pode você estar sem contaminação?

Desista de aprender e se torne livre de preocupações.

Cale seu conhecimento; feche a porta da sua inteligência.

Aprenda a como não precisar aprender, para evitar repetir o erro dos outros.

Aqueles que sabem a verdade não possuem conhecimento. Aqueles que possuem conhecimento não conhecem a verdade.

Lao Tzu

domingo, 19 de junho de 2016

Sobre a repressão infantil

Como a criança que existe dentro de si foi reprimida, você vai reprimir os seus filhos. Ninguém deixa os filhos dançar, cantar, gritar, pular. Por razões triviais: podem partir qualquer coisa, podem ficar com a roupa molhada se andarem a correr, e por causa destas pequenas coisas destrói-se completamente uma grande quantidade espiritual, a vontade de brincar.

A criança obediente é elogiada pelos pais, pelos professores, por toda a gente; a criança brincalhona é condenada. A sua vontade de brincar pode ser absolutamente inofensiva, mas ela é condenada porque existe nela um perigo potencial de rebeldia. Se a criança continuar a crescer com total liberdade para ser brincalhona, acabará por se converter num rebelde. Não será facilmente escravizada; não será facilmente alistada em exércitos para destruir pessoas ou para ser destruída.

A criança rebelde acabará por ser um jovem rebelde. Sendo assim, ninguém o poderá forçar a casar; ninguém o poderá forçar a ir para um determinado emprego; sendo assim, a criança não pode ser forçado a realizar os desejos e anseios que os pais não realizaram. O jovem rebelde seguirá o seu próprio caminho. Viverá a sua vida de acordo com os seus próprios desejos mais profundos, e não de acordo com os ideais de outra pessoa qualquer.

O rebelde é basicamente natural. A criança obediente está quase morta, e, portanto, os pais estão muito felizes, porque ela está sempre sob controlo.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Um olhar sobre o futuro das crianças


Certo dia, na estrada que leva até o mar, caminhando sob as palmeiras e as árvores pesadas pela chuva, olhando para milhares de coisas, um grupo de crianças entoava cânticos. Elas pareciam tão felizes, inocentes e absolutamente alheias ao mundo. Uma delas nos reconheceu, aproximou-se sorrindo e caminhamos de mãos dadas por alguns instantes. Caminhamos em silencio e, ao chegarmos perto da casa, ela fez uma saudação e desapareceu dentro da casa. O mundo e a família irão destruí-la e ela também terá filhos, chorara por eles e, por intermédio da astúcia do mundo, eles também serão destruídos. Mas, naquele fim de tarde, ela estava feliz e cheia de vida ao compartilhar um caminhar juntos de mãos dadas.

Krishnamurti em, Apontamentos de Krishnamurti

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O absurdo do pecado original

[...] Disseram-lhe que você nasceu no pecado. Que estupidez! Que absurdo!

O homem não nasce no pecado, mas na inocência. Nunca houve nenhum pecado original, a única coisa que houve foi a inocência original. Toda criança nasce na inocência. Nós fazemos com que se sinta culpada – começamos a dizer: “Assim você não pode ser. Você deve ser deste modo.” E a criança é natural e inocente. Nós a castigamos por ser natural e inocente e a recompensamos por ser artificial e esperta. O inocente é condenado, o inocente é considerado quase como um sinônimo de criminoso. O inocente é considerado tolo, o esperto é considerado inteligente. O falso é aceito – o falso se encaixa na sociedade falsa.

Então, toda a sua vida não passa de um esforço para criar cada vez mais punições para si mesmo. E tudo o que você faz é errado; então você tem de se punir por todas as alegrias. Até mesmo quando a alegria vem – a despeito de você mesmo, lembre-se, quando a alegria vem a despeito de você, quando às vezes a Existência simplesmente se choca contra você e você não pode evitá-lo – imediatamente você começa a se punir. Algo deu errado – como isso pôde acontecer a uma pessoa horrível como você?

Na verdade, quando alguém o ama, você fica um tanto surpreso. “Quem...eu? Uma pessoa me ama?” A ideia surge na sua mente: “É porque ela não me conhece. É isso. Se vier a me conhecer, se me observar melhor, ela nunca me amará.” E assim os amantes começam a se esconder uns dos outros. Eles guardam muitos segredos, não abrem os seus segredos porque têm medo de que, no momento em que abrirem o coração, o amor irá desaparecer – porque não conseguem se amar, como podem imaginar que alguém os ama?

O amor começa com o amor por si mesmo. Não seja um narciso, não seja obcecado por si mesmo – mas o amor por si mesmo é um dever, um fenômeno básico. O amor só é possível quando existe uma profunda aceitação de si mesmo, do outro. A aceitação cria um ambiente em que o amor prospera, o solo em que o amor viceja.

Osho

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Será que realmente amamos nossos filhos?

[...] PERGUNTAM OS PAIS alguma vez a si mesmos por que têm filhos? Têm filhos para perpetuar o seu nome, conservar sua propriedade? Desejam filhos unicamente para deleite próprio, para satisfação de suas necessidades emocionais? Se assim é, tornam-se os filhos mera projeção dos desejos e temores dos pais.

Podem os pais protestar amor aos filhos quando, educando-os erroneamente, fomentam a inveja, a inimizade e a ambição? É amor estimular antagonismos nacionais e raciais, conducentes à guerra, à ruína e à aflição extrema? É amor lançar os homens uns contra os outros em nome de religiões e ideologias?

Muitos pais impelem os filhos para as vias do conflito e do sofrimento, não só permitindo que sejam inconvenientemente educados, mas também pela própria conduta na vida; e depois, quando os filhos crescem e sofrem, rezam por eles ou procuram escusas para seu comportamento. O sofrimento dos pais pelos filhos é uma espécie de autocompaixão, decorrente do sentimento de posse; tal coisa só pode acontecer quando não existe amor.

Se os pais amarem os filhos, não serão nacionalistas, nem se identificarão com nação alguma, porque o culto do Estado produz a guerra, que mata e lhe mutila os filhos. Se os pais amarem os filhos, descobrirão a relação correta com a propriedade, porque o instinto de posse conferiu à propriedade um extraordinário e falso significado, que está destruindo o mundo. Se os pais amarem os filhos deixarão de pertencer a qualquer organização religiosa, porque o dogma e a crença dividem os indivíduos em grupos antagônicos, criando inimizade entre os homens. Se os pais amarem os filhos porão fim à inveja e à competição e tratarão de alterar fundamentalmente a estrutura da moderna sociedade.

Enquanto desejarmos que nossos filhos sejam poderosos, ocupem posições mais importantes e melhores, alcancem êxitos cada vez maiores, não existirá amor em nossos corações, pois o culto do bom êxito fomenta o conflito e o sofrimento. Amar os filhos é estar em perfeita comunhão com eles, é interessar-se em que tenham a espécie de educação que os ajude a ser sensíveis, inteligentes e integrados.

Krishnamurti, A educação e o significado da vida

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Filme: Bem vindo a vida

Filme: Bem Vindo à Vida
(Disponível na Netflix)
2012 ‧ Drama ‧ 2 horas
Data de lançamento: 29 de junho de 2012 (EUA)
Direção: Alex Kurtzman
Música composta por: A. R. Rahman
Figurino: Mary Zophres
Roteiro: Alex Kurtzman, Roberto Orci, Jody Lambert
Sinopse: Após a morte do pai, Sam (Chris Pine) recebe a incumbência de entregar parte da herança para Frankie (Elizabeth Banks), uma irmã que ele não conhecia. Ao procurar iniciar um contato com ela, sem revelar o parentesco, Sam acaba mudando toda sua vida, incluindo as relações com a mãe (Michelle Pfeiffer) e com a namorada (Olivia Wilde).

terça-feira, 17 de maio de 2016

Por que toda criança é bela?

Uma criança nasce completamente nova e virgem - sem passado, sem ego. Eis porque as crianças são tão belas. Elas não têm nenhum passado. São novas e virgens. 

Não podem dizer 'eu', porque de onde trarão o eu? O eu tem de desenvolver-se gradualmente. As crianças serão educadas, recompensadas, punidas, serão apreciadas, condenadas e o eu virá. 

A criança é bela porque não tem ego. Um homem velho fica feio, não por causa da velhice, mas porque tem muito passado, ego demais. Um homem velho também pode tornar-se belo novamente, e até mais bonito do que uma criança, se conseguir abandonar o ego. Então terá uma segunda infância, um renascimento. 

Este é o significado da ressurreição de Jesus. Não é um fato histórico, é uma parábola. Jesus é crucificado e ressuscita. O homem que foi crucificado não existe mais. Mm? - aquele era Jesus, o filho do carpinteiro. Agora, Jesus está morto, crucificado. Uma nova entidade surge a partir desse momento. A partir dessa morte, uma nova vida nasce. Este é o Cristo não o filho de um certo carpinteiro de Belém, não o judeu, não o homem. Este é Cristo algo novo, sem ego. 

E o mesmo acontecerá a você quando seu ego for crucificado. Quando seu ego for crucificado, haverá uma ressurreição, um renascimento. Você renascerá. E esta infância será eterna, porque este é um renascimento do espírito, não do corpo. 

Depois disso, nunca mais será velho. Será sempre e sempre novo, virgem tão virgem quanto a gota de orvalho da manhã, tão virgem quanto a primeira estrela da noite. Permanecerá sempre virgem, novo, uma criança inocente porque esta será uma ressurreição do espírito. 

Osho

Retorne ao seu estado natural

A meditação é um estado natural — que nós perdemos. É um paraíso perdido; mas o paraíso pode ser recuperado. Olhe dentro dos olhos de uma criança... olhe e você verá tremendo silêncio, inocência. Toda criança vem com um estado meditativo, mas ela tem de ser iniciada nas normas da sociedade — ela tem de aprender como pensar, como calcular, como raciocinar, como argumentar — ela tem de aprender palavras, a língua, os conceitos. E pouco a pouco perde sua inocência. Ela fica contaminada, poluída pela sociedade. Torna-se um mecanismo eficiente; não é mais um ser humano. 

Tudo o que é preciso é recuperar esse espaço outra vez. Você já o conheceu antes, por isso, quando, pela primeira vez, você conhece a meditação, você fica surpreso — porque surge uma forte sensação em você, como se já a tivesse conhecido antes. E essa sensação é verdadeira — você já a conheceu antes. Você se esqueceu. O diamante perdeu-se num monte de lixo. Mas se puder remover o lixo, descobrirá o diamante novamente — ele é seu. 

Ele não pode realmente ser perdido: só pode ser esquecido. Nascemos como meditadores, depois aprendemos os modos da mente. Mas a nossa verdadeira natureza permanece oculta em algum lugar bem no fundo, como uma corrente subterrânea. Um dia, depois de cavar um pouco, você encontra a fonte ainda jorrando, a fonte de água pura. E a maior alegria na vida é encontrá-la. 

Osho

Não nascemos neuróticos!

Certa vez Sigmund Freud disse que o ser humano nasce neurótico. Essa é uma meia-verdade; o ser humano não nasce neurótico, mas nasce numa humanidade neurótica, e a sociedade à volta mais cedo ou mais tarde leva todos à neurose. O ser humano nasce natural, real e normal, mas no momento em que o recém-nascido se torna parte da sociedade, a neurose começa a funcionar.
Como somos, somos neuróticos. E a neurose consiste numa divisão, numa profunda divisão. Você não é uno, e sim dois ou mesmo muitos. Isso precisa ser entendido profundamente, e somente então poderemos ir em direção ao Tantra. Seu sentimento e seu pensamento se tornaram duas coisas diferentes, e essa é a neurose básica. 

Sua parte pensante e sua parte que sente se tornaram duas, e você está identificado com a parte pensante, e não com a que sente. E o sentir é mais real e natural do que o pensar. Você veio com um coração que sente, e o pensamento é cultivado, é dado pela sociedade. E o seu sentimento se tornou algo suprimido; mesmo quando você diz que sente, você somente pensa que sente. O sentimento se tornou morto, e isso aconteceu por certas razões. 

Quando uma criança nasce, ela é um ser que sente, ela sente coisas; ela ainda não é um ser pensante. Ela é natural, como qualquer coisa natural na natureza — uma árvore ou um animal. Mas começamos a moldá-la, a cultivá-la. Ela precisa suprimir seus sentimentos, pois sem isso ela estará sempre em dificuldades. Quando ela quer chorar, ela não pode chorar, pois seus pais não aprovarão isso. Ela será condenada, não será apreciada e amada. Ela não é aceita como ela é; ela precisa se comportar, se comportar de acordo com uma ideologia particular, com ideais, e somente então será amada. 

O amor não é para ela como ela é. Ela pode ser amada somente se seguir certas regras, as quais são impostas e não-naturais. O ser natural começa a ser suprimido, e o não-natural, o irreal, lhe é imposto. Esse "irreal" é a sua mente, e chega um momento em que a divisão é tão grande que não se pode construir uma ponte. Você segue se esquecendo completamente o que era a sua natureza real — ou é. 

Você é uma face falsa; a face original se perdeu. E você também fica com medo de sentir a original, pois no momento em que a sentir, toda sociedade ficará contra você. Assim, você próprio fica contra a sua natureza real. Isso cria um estado muito neurótico. Você não sabe o que quer, não sabe quais são suas necessidades reais e autênticas, e então caminha em direção a necessidades não autênticas, pois somente o coração que sente pode lhe dar o sentido, a direção... Qual é a sua necessidade real? Quando ela é suprimida, você cria necessidades simbólicas.  

[...] Toda neurose é cisão. Se você se unir novamente, você se tornará novamente uma criança, inocente. E uma vez conhecida essa inocência, você pode continuar a se comportar em sua sociedade como ela requer, mas agora esse comportamento é apenas um teatro, uma encenação. Você não se envolve; é uma exigência e você o faz, mas você não está na coisa, e sim apenas encenando. Você terá que usar faces irreais, pois você vive num mundo irreal; senão, o mundo o esmagará e o matará. 

Assassinamos muitas faces reais. Crucificamos Jesus porque ele começou a se comportar como um ser humano real. A sociedade irreal não tolerará isso. Envenenamos Sócrates por que ele começou a se comportar como um ser humano real. 

Comporte-se como a sociedade exige; não crie dificuldades desnecessárias para você mesmo e para os outros. Mas uma vez conhecido o seu ser real e a totalidade, a sociedade irreal não poderá levá-lo à neurose, não poderá deixá-lo louco. 

Osho 

Do nascimento da criança

A criança nasce una, inteira. É por isso que toda criança é tão bonita. A beleza se deve à totalidade. A criança não tem brechas, cisões, divisões ou fragmentos. A criança é una; o real e o irreal não estão presentes e a criança é simplesmente real e autêntica. Não se pode dizer que a criança seja a moral; ela não é moral nem imoral, e simplesmente não está ciente de que há algo moral ou imoral. No momento em que ela fica ciente, começa a cisão, e então ela começa a se comportar de maneiras irreais, pois ser real fica cada vez mais difícil. 

Lembre-se, isso acontece por necessidade, pois a família precisa regular, os pais precisam regular. A criança precisa ser civilizada, educada, receber boas maneiras, bons costumes, senão seria impossível para ela entrar na sociedade. É preciso que lhe digam: "Faça isso, não faça aquilo." E quando dizemos: "Faça isso", a realidade da criança pode não estar pronta para fazê-lo, aquilo pode não ser real, pode não haver nenhum desejo real dentro da criança para fazê-lo. E quando dizemos: "Não faça isso ou não faça aquilo", a natureza da criança pode querer fazê-lo. 

Condenamos o real e forçamos o irreal, pois o irreal será de ajuda numa sociedade irreal e será conveniente onde todos os demais são falsos. O real não será conveniente. Uma criança real estará numa dificuldade básica com a sociedade, pois a sociedade inteira é irreal. Este é um círculo vicioso. Nascemos numa sociedade, e até agora não existiu na terra nem uma única sociedade que fosse real. Isso é vicioso! Uma criança nasce numa sociedade, e a sociedade já existe com as suas regras fixas, regulamentações, comportamentos, moralidades... a criança precisa aprender. 

Quando ela crescer, ela se tornará falsa. Então ela gerará outras crianças e as ajudará a torná-las falsas, e isso segue adiante. O que fazer? Não podemos mudar a sociedade; ou, se tentarmos, não estaremos presentes quando a sociedade mudar, pois isso levará uma eternidade. O que fazer? 

O indivíduo pode ficar consciente desta divisão interna básica: o real foi reprimido e o irreal foi imposto. Isso é dor, sofrimento, o inferno. Não podemos obter qualquer satisfação através do irreal, pois através dele são possíveis somente satisfações irreais. E isso é natural. Somente através do real podem acontecer satisfações reais; através do real você pode alcançar a realidade, a verdade, e através do irreal você pode alcançar cada vez mais alucinações, ilusões e sonhos. E através de sonhos você pode enganar a si mesmo, mas nunca pode ficar satisfeito. 

Osho

Renuncia a ele e abandona teus parentes

Transitório é este mundo: 
Como fantasmas e sonhos, ele não tem substância alguma. 
Renuncia a ele e abandona teus parentes...

Estas palavras: “Renuncia a ele e abandona teus parentes” foram mal entendidas. Houve uma razão para isso; todos os que não as entenderam eram renunciantes e pensaram que Tilopa estava falando daquilo em que acreditavam. Mas Tilopa não podia dizer tal coisa, porque vai contra todas as suas concepções. Se o mundo é como um sonho, que significação tem renunciar a ele? Podes renunciar à realidade, mas não podes renunciar a um sonho - seria tolice demais. Podes renunciar a um mundo substancial, mas não podes renunciar a um mundo fantasma. De manhã, sobe ao topo da tua casa, chama todos os que estão próximos e declara: - “Renunciei aos sonhos! Na noite passada tive sonhos demais e renunciei a eles.” Quem te ouvir rirá; todos pensarão que enlouqueceste - ninguém renuncia aos sonhos. Todos acordam, simplesmente; ninguém renuncia aos sonhos.

Um Mestre Zen acordou, certa manhã, e disse a um de seus discípulos: - “Tive um sonho a noite passada. Quer interpretá-lo para mim, dizer-me o que significa?”

O discípulo disse: - “Espera! Deixa-me trazer-te uma xícara de chá.”

O Mestre tomou a xícara de chá e perguntou: - “E agora, o sonho?”

Disse o discípulo: - “Esquece-te dele, porque um sonho é um sonho e não precisa de interpretação. Uma xícara de chá é interpretação suficiente - acorda!”

O Mestre falou: - “Certo, absolutamente certo! Se tivesses interpretado meu sonho, eu te expulsaria do meu mosteiro, porque só os tolos interpretam sonhos. Fizeste bem; de outra maneira, terias sido definitivamente expulso e eu nunca mais olharia para tua cara.”

Quando tiveres um sonho, o que precisas é de uma xícara de chá e fim de conversa. Freud, Jung e Adler ficariam muito preocupados se ouvissem essa história, porque desperdiçaram sua vida inteira preocupados se ouvissem essa história, porque desperdiçaram sua vida inteira interpretando sonhos alheios. Um sonho tem que ser transcendido. Simplesmente por saberes que se trata de um sonho, tu o transcendes - isso é a renúncia.

Tilopa tem sido erroneamente interpretado porque há, no mundo, renunciantes demais, condenadores. Pensaram que ele estava dizendo que se renunciasse ao mundo. Não era isso o que ele estava dizendo. Dizia: - “Aprende que ele é transitório; isso é renúncia.” “Renuncia a ele” - diz Tilopa e quer dizer: aprende que ele é um sonho.

Abandona teus parentes - e pensaram que ele estivesse dizendo: - “Deixa tua família, tuas relações, tua mãe, teu pai, teus filhos.” Não, ele não estava dizendo isso, não podia dizer isso; é impossível que Tilopa diga tal coisa. Não deves pensar que alguém é tua esposa, pois esse “ser meu” é um fantasma, um sonho. Não deves dizer: - “Esta criança é meu filho”, porque esse “ser meu”, esse “meu” é um sonho. Ninguém é teu, ninguém pode ser teu. Renuncia a essas atitudes que dizem que alguém é teu - marido, esposa, amigo, inimigo; renuncia a todas essas atitudes. Não construas pontes: “meu”, “teu” - põe de lado essas palavras.

Se puseres de lado essas palavras, renunciarás aos teus parentes: ninguém é teu. Isso não significa que devas escapar, que devas fugir de tua esposa, porque, se fugiras, mostrarás que pensas que ela é substancial. Fugir sempre mostrará que ainda pensas que ela é tua, caso contrário, por que foges?

Isto aconteceu: um hindu sannyasin, Swami Ramteerth, voltou da América. Estava no Himalaia e sua esposa veio vê-lo, o que o deixou um pouco perturbado. Seu discípulo, pessoa de mente muito penetrante, Sardar Poorn Singh, estava sentado ao lado dele. Observou e sentiu que o Swami ficara perturbado. Quando a esposa se foi, Ramteerth arrancou, subitamente, suas vestes de cor laranja. Poorn indagou: - “Que é isso? Eu estava observando e vi que ficaste um pouco perturbado; senti que não eras tu mesmo.”

O outro respondeu: - “É por isso que estou arrancando estas roupas. Encontrei tantas mulheres e nunca me perturbei. Nada há de especial nessa mulher - a não ser que ela é minha esposa. Esse “minha” ainda está presente. Não sou digno de usar estas roupas. Não renunciai ao “minha”, renunciei apenas à esposa. A esposa não é o problema; nenhuma outra mulher me perturbou, mas chega a minha mulher - mulher comum como qualquer outra - e, de repente, fico perturbado. A ponte ainda está aí.” Morreu vestido com roupas comuns, jamais usou as de cor laranja. Dizia: - “Não sou digno.”

Tilopa não dirá que renuncies à tua esposa, a teu filho, aos teus parentes. Não. Ele está dizendo que renuncies às pontes, que as deixes e isso é um problema teu, nada tem a ver com tua esposa. Se ela continua a pensar em ti como seu marido, é problema dela, não teu. Se o filho continua a pensar que és seu pai, isso não é problema, ele é uma criança que precisa amadurecer.

Eu te digo: Tilopa se refere à renúncia quanto aos sonhos interiores, às pontes, ao mundo interior.

.. e medita em bosques e montanhas. 

E, com isso, também não está dizendo que fujas para os bosques e montanhas. Houve quem o interpretasse assim e muitos fugiram de suas esposas e filhos e foram para as montanhas - coisa absolutamente errada. O que Tilopa está dizendo é mais profundo, não é tão superficial, porque podes ir para a montanha e permanecer na praça pública. A questão é a tua mente. Podes sentar-te no Himalaia e pensar na praça pública, em tua esposa, em teus filhos e no que estará acontecendo a eles.

Isto aconteceu: um homem renunciou à sua esposa, filhos família e veio a Tilopa para ser iniciado como seu discípulo. Tilopa estava estagiando num templo fora da cidade. O homem veio. Quando entrou estava sozinho e Tilopa também estava sozinho. Tilopa olhou em torno dele e disse: - “Vieste, está bem, mas por que essa multidão?” O homem também olhou para trás, porque ali não havia ninguém. Tilopa disse: - “Não olhes para trás! Olha para dentro! - a multidão está aí.” O homem fechou os olhos e a multidão ali estava: sua esposa chorava ainda, seus filhos estavam chorosos e tristes, tinham permanecido na fronteira da cidade, ponto até onde o haviam acompanhado - amigos, família, outras pessoas, todos estavam ali. E Tilopa disse: - “Vai-te embora; deixa a multidão. Eu inicio pessoas, não multidões.”

Não; Tilopa não dirá que renuncies ao mundo e vás para a montanha. Ele não é tão tolo. Não pode dizer isso - é um homem Desperto. O que ele quer dizer é o seguinte: que renuncies aos teus sonhos, às pontes, aos relacionamentos - não às relações; se renuncias à tua mente vais encontrar-te, de repente, nos bosques e nas montanhas. De repente, estás sozinho. Só tu estás ali, mais ninguém.

Podes estar na multidão e sozinho, e podes estar sozinho e na multidão. Podes estar no mundo, e não ser do mundo. Podes estar no mundo, e pertencer aos bosques e montanhas.

Esse é um fenômeno interior. Há bosques e montanhas interiores; Tilopa não pode dizer nada sobre montanhas e bosques externos, porque eles também são sonhos. Um Himalaia é um sonho, tanto como a praça do mercado em Poona, porque um Himalaia é um fenômeno externo, como o é a praça do mercado. Os bosques também são sonhos. Precisas entrar no interior - ali é que a realidade está. Tens que entrar cada vez mais na profundeza de teu ser; então chegarás ao Himalaia verdadeiro, alcançarás os verdadeiros bosques do teu ser, chegarás aos picos e vales do teu ser, às alturas e profundidades do teu ser.

Osho

Além da pequena família

Você nasce com uma tremenda possibilidade de inteligência. Você nasce com uma luz dentro de você. Escute a tranquila e pequena voz dentro de você, e ela irá lhe guiar. Ninguém mais pode lhe guiar, ninguém mais poderá ser um modelo para sua vida, porque você é único. Jamais houve alguém que tenha sido exatamente como você, e jamais haverá alguém que seja exatamente como você. Esta é sua glória, sua grandeza - que você é totalmente insubstituível, que você é somente você mesmo e ninguém mais.

Jesus ainda era uma criancinha e seus pais foram ao grande templo para o festival anual. Jesus perdeu-se em meio à multidão, e só ao anoitecer seus pais puderam encontrá-lo. Ele estava sentado com alguns eruditos, apenas uma criança, e estava discutindo coisas com eles. Seu pai disse, “Jesus, o que você está fazendo aqui?  Estávamos preocupados com você.” Jesus disse, “ Não se preocupem. Eu estava cuidando dos  negócios de meu pai.” O pai falou, “Eu sou seu pai – e que negócio você está cuidando aqui? Sou um carpinteiro.” Jesus disse, “Meu pai está no paraíso. Você não é meu pai.”

Assim como uma criança tem que deixar o corpo da mãe, senão ela morrerá – ela precisa sair do útero – o mesmo  acontece mentalmente também. 

Um dia ela tem de sair do útero do pai e da mãe. Não só fisicamente, mas também mentalmente.  Não só mentalmente, mas também espiritualmente. E quando nasce a criança espiritual, tendo rompido completamente com o seu passado, pela primeira vez ela se torna um eu, uma realidade independente, sobre seus próprios pés. Antes disso ela era apenas uma parte da mãe, ou do pai, ou da família – mas nunca era ela mesma. O que quer que você esteja fazendo, pensando, decidindo,  preste atenção: isso está vindo de você ou é outra pessoa falando? E você ficará surpreso de descobrir a verdadeira voz; talvez seja sua mãe – você a ouvirá falar novamente. Talvez seja seu pai; não é tão difícil detectar. Isso permanece aí, gravado em você exatamente como  lhe foi dado pela primeira vez – o conselho, a ordem, a disciplina, o mandamento. 

Você pode encontrar muitas pessoas, o padre, os professores, os amigos, os vizinhos, os parentes. Não há nenhuma necessidade de lutar. Basta saber que essa não é sua voz mas a voz de outra pessoa – seja lá quem for essa outra pessoa – você sabe que você não vai seguir isso. Seja quais forem as consequências, agora você está decidido a mover-se por si mesmo, você está decidido a amadurecer. Você permaneceu criança por bastante tempo. Você permaneceu dependente por bastante tempo. Você ouviu todas essas vozes e as seguiu por bastante tempo. E aonde estas o levaram? Uma confusão. Portanto, uma vez que você percebeu de quem são essas vozes, diga adeus a isso... pois a pessoa que lhe deu essa voz não era sua inimiga. A intensão dela não era ruim, mas a intensão dela não é a questão. O problema é que ela impôs algo sobre você que não está vindo de sua própria fonte interior; e qualquer coisa que esteja vindo de fora lhe faz um escravo psicológico. Somente sua própria voz lhe conduzirá ao florescimento, à liberdade.

Osho

É a família um fator de fragmentação?

Osho: sobre a família

O condicionamento familiar


A família é a causa raiz de todas as neuroses. Nós temos que entender a estrutura psicológica da família, o que ela causa à consciência humana.

A primeira coisa é: ela condiciona a criança a certa ideologia religiosa, a um dogma político, a alguma filosofia, a alguma teologia. E a criança é tão inocente, tão receptiva, tão vulnerável que ela pode ser explorada. Ela ainda não pode dizer não, e mesmo que soubesse dizer não, não diria porque ela é muito dependente de sua família, absolutamente dependente. Ela é tão desamparada que tem que concordar com a família, com qualquer tipo de insensatez que a família queira que ela concorde. A família não ajuda a criança a perguntar; dá-lhe crenças e crenças são venenosas. Uma vez que a criança se torna sobrecarregada de crenças, suas perguntas se tornam enfraquecidas, paralisadas, suas asas são cortadas. Quando ela se tornar capaz de perguntar ela estará tão condicionada que se moverá a cada investigação com um certo preconceito – e com preconceito sua investigação não será autêntica. Você já está carregando uma conclusão a priori; está simplesmente buscando provas para apoiar sua conclusão inconsciente. Você se torna incapaz de descobrir a verdade.

Por isso existem tão poucos buddhas no mundo: a causa raiz é a família. Toda criança nasce um buddha, vem com o potencial para alcançar a suprema consciência, para descobrir a verdade, para viver uma vida de benção. Mas a família destrói todas essas dimensões; faz dela um ser totalmente plano.

Cada criança vem com uma tremenda inteligência, mas a família a faz medíocre, porque viver com uma criança inteligente é problemático. Ela duvida, ela é cética, ela pergunta, ela é desobediente, ela é rebelde. E a família quer alguém que seja obediente, pronto para seguir, imitar. Por isso desde o início a semente da inteligência tem que ser destruída, quase que completamente exterminada, para que não haja nenhuma possibilidade de algum broto florescer dela. 

É por milagre que poucas pessoas como Zarathustra, Jesús, Lao-Tzu, Buddha, escaparam da estrutura social, do condicionamento familiar. Eles parecem ser grandes picos de consciência, mas de fato cada criança nasce com a mesma qualidade, com o mesmo potencial.

Noventa e nove ponto nove por cento das pessoas podem se tornar buddhas -- apenas a família tem que desaparecer. Senão haverão cristãos, maometanos, hindus, jainas budistas, mas não Buddhas, não Maomés, não Mahaviras, isto não será possível. Maomé se rebelou contra suas bases e Jesus se rebelou contra suas bases. Estes são todos rebeldes – e a família é absolutamente contra o espírito rebelde.

A humanidade está passando por uma fase muito crítica. Tem que ser decidido se nós queremos viver de acordo com o passado ou se nós queremos viver um novo estilo de vida. C h e g a !. Nós tentamos o passado e seus padrões e todos eles falharam. Já é tempo, amadurecido, de sair fora das garras do passado e criar um novo estilo de vida na terra. Para mim, um estilo alternativo é a comunidade – é o melhor.

OSHO - Filosofia Última...ch.3

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Qual é a verdadeira vocação do homem?

[...] PERGUNTA: Podeis dizer-nos o que entendeis pelas palavras “nossa vocação”? Parece-me que entendeis coisa diferente da significação comum das palavras.

Krishnamurti: cada um de nós segue uma dada vocação — o advogado, o militar, o policial, o negociante, etc. É bem óbvio que há certas profissões prejudiciais à sociedade: o advogado, o militar, o policial, o negociante que não cuida de tornar outros homens igualmente ricos.
Quando desejamos, quando escolhemos uma dada vocação, quando estamos educando os filhos para seguirem uma determinada profissão, não estamos criando um conflito com a sociedade? Escolheis uma profissão, e eu escolha outra; e isso não faz nascer conflito entre nós dois? Não é isso o que está acontecendo no mundo, visto que nunca pudemos achar a nossa verdadeira vocação? Estamos apenas sendo condicionados pela sociedade, por uma determinada civilização, a aceitar certas profissões, que geram competição e ódios entre os homens. Sabemos disso, estamo-lo vendo.
Ora, existe alguma outra maneira de viver, em que vós e eu possamos exercer as nossas verdadeiras vocações? Não existe uma vocação única para o homem? Tende a bondade de prestar atenção, Senhores. Há vocações diferentes para o homem? Vemos que há: um é funcionário de escritório, outro engraxate; um é engenheiro, outro político. Vemos que há inúmeras variedades de profissões e que todas elas estão em conflito entre si. Assim, pois, por causa da sua vocação o homem está em conflito com o homem, o homem odeia o homem. Sabemos disso. São-nos familiares esses fatos da vida, de cada dia. Pois bem, vejamos se não existe uma só vocação para o homem. Se pudermos descobri-la, então a expressão de diferentes capacidades não produzirá conflito entre os homens. Eu afirmo existir apenas uma vocação para o homem. Uma só, e não muitas. A vocação do única do homem é a de descobrir o que é o Real. Senhores, não vos mostreis espantados; isto não é uma asserção mística.
Se estamos, vós e eu, aplicados a descobrir o que é a Verdade, o que constitui a nossa verdadeira vocação, então, nessa busca, não haverá competição entre nós. Não competirei convosco, não lutarei contra vós, ainda que expresseis essa verdade de maneira diversa. Podeis ser Primeiro Ministro, mas eu não serei ambicioso e não desejarei tomar-vos o posto, porque estou buscando, do mesmo modo que vós, a Verdade. Por conseguinte, enquanto não descobrirmos aquela verdadeira vocação do homem, estaremos necessariamente em competição uns com os outros, e haveremos de odiar-nos mutuamente; e, sejam quais forem as leis que promulgardes, nesse nível só podeis produzir mais caos.
Não é possível, pois, desde a infância, mediante educação adequada, ministrada por verdadeiros educadores, ajudar o jovem, o estudante, a ser livre, para descobrir o que é a Verdade, a Verdade relativa a todas as coisas, e não simplesmente a Verdade em abstrato; descobrir a Verdade existente em todas as relações — a relação do jovem com a máquina, com a natureza, com o dinheiro, com a sociedade, o governo, etc.? Requer isso, não achais, — uma outra espécie de preceptores, cujo interesse seja o de ajudar o jovem, o estudante, dando-lhe liberdade, para que seja capaz de descobrir a maneira de cultivar uma inteligência nunca suscetível de ser condicionada por uma sociedade em perene decomposição.
Não existe, pois, uma vocação para o homem? O homem não pode existir no isolamento; ele só existe em relação. E quando, nessas relações, não há o descobrimento da Verdade respeitante ao estado de relação, há então conflito.
Há tão-somente uma vocação para vós e para mim. E na busca dessa vocação encontraremos a expressão em que não entraremos em conflito um com o outro, em que não nos destruiremos mutuamente. Mas tudo deve começar, sem dúvida, pela educação correta, ministrada por educador adequado. O educador também necessita de educação. Fundamentalmente, o verdadeiro preceptor não é meramente um homem que transmite conhecimentos, mas aquele que faz nascer no estudante a liberdade, a revolta que o habilitará a descobrir o que é a Verdade.


Krishnamurti em, Autoconhecimento — Base da Sabedoria

domingo, 15 de maio de 2016

Filme: Traumas da Infância

Traumas de Infância (The Adderall Diaries)

Sinopse: O decadente escritor Stephen Elliott (James Franco, Planeta dos Macacos A Origem) fica obcecado por um crime de grande repercussão, envolvendo um empresário (Christian Slater, Amor à Queima-Roupa) que assassinou brutalmente a mulher. À medida que mergulha no complicado caso, Elliott é atormentado pelas lembranças de sua própria infância sofrida. Quando seu pai (Ed Harris, Apollo 13 Do Desastre ao Triunfo) reaparece misteriosamente, dizendo que todas as tenebrosas memórias do filho são inventadas, Elliott, com sua namorada Riana (Amber Heard, Machete Mata) vai procurar separar a realidade da ficção, mas rapidamente tudo foge do controle. 
Direção: Pamela Romanowsky 
Música: Michael Andrews 
Roteiro: Pamela Romanowsky 
Autor: Stephen Elliott

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Filme: Um Sonho Chamado Fred


Sinopse: Um mulher perturbada recebe a visita de seu amigo imaginário de infância e as confusões acontecem. Este é o tema desta comédia de fantasia onde muitos poderão achá-la ofensiva pelo comportamento repulsivo de Fred (o amigo imaginário).
Título no Brasil: Um Sonho Chamado Fred

Título Original: Drop Dead Fred
País de Origem: EUA / Reino Unido
Gênero: Comédia
Classificação etária: 10 anos
Tempo de Duração: 01 hora 39 minutos
Ano de Lançamento: 1991
Direção: Ate de Jong

terça-feira, 10 de maio de 2016

Filme: Chegadas e Partidas


CHEGADAS E PARTIDAS (Netflix)
Quoyle (Kevin Spacey) é um jornalista que resolve retornar à sua cidade natal, a pequena cidade pesqueira de Newfoundland, após passar por uma experiência traumática, em que sua ex-esposa Petal (Cate Blanchett) vendeu a filha do casal para uma agência ilegal de adoção de crianças. Lá ele e sua filha buscam reconstruir sua vida, sendo que Quoyle aceita um emprego para trabalhar no jornal local, assinando uma coluna própria. Com o passar do tempo a coluna de Quoyle faz sucesso junto à população local, sendo que ele próprio acaba descobrindo segredos de sua família e se envolve com Wavey Prouse (Julianne Moore), uma mãe solteira que guarda seu próprio segredo.
Data de lançamento desconhecida (1h 52min)
Direção: Lasse Hallström
Elenco: Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench mais
Gênero Drama
Nacionalidade Eua
Data de lançamento desconhecida (1h 52min)Direção: Lasse HallströmElenco: Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench maisGênero DramaNacionalidade Eua


O sentido da existência e o apego parental

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Não adultere a expressão do vazio

Fomos educados erroneamente


[...] Percebo que fui educado muito erradamente. Que posso fazer? Posso reeducar-me, ou estou mutilado para o resto da vida?

Quando a mente está doente, quando o cérebro está doente, é impossível a educação, não achais? Mas nós somos entes humanos vivos, e em nós existe aquela qualidade, aquela inteligência que pode ser despertada e que pode educar-se a si própria. Não há entidade humana que esteja tão mutilada, que não possa promover sua própria regeneração.

E muito difícil compreendermos que fomos educados erroneamente. Antes de dizerdes que tendes de reeducar-vos, não deveis saber que fostes educados erroneamente? É tão fácil dizer que fomos educados erroneamente! Isto é, podeis ter sido educado para exercerdes uma determinada profissão técnica, e descobrirdes que ela não corresponde à vossa vocação, mantendo-vos nela, entretanto, por causa das vossas responsabilidades. Abandonar aquela profissão e adotar outra — isso é educação? Ou o aprender outra língua, aprender outra técnica, é educação? Sem dúvida, para se descobrir o que é educação correta, requer-se muito percebimento e penetração. Não é tão fácil asseverar que os mais de nós fomos educados erroneamente.

Nossa educação, desde a infância, foi sempre o cultivo do temor, e é só ele que conhecemos. Sempre nos criaram desse modo. Fazem-nos estúpidos, por meio dos exames, da comparação com o aluno inteligente, com o pai, com a mãe, com o tio; pela compulsão, sob várias formas, por parte dos pais, dos mestres, da sociedade; quer dizer, pelo cultivo do temor. Saindo do colégio, ajustamo-nos a um falso padrão de vida, para fazermos o que nos mandam fazer.

O medo determina o inevitável curso da nossa vida; e, na medida em que crescemos, a vida se torna mais sombria e confusa. Eis o que é a vossa vida; mas os pais não compreendem que o medo destrói e que o medo não nasce, quando, desde a infância, não se fazem comparações, não se fazem exames e, sim, somente, observações e anotações a respeito de cada criança.

Toda a nossa educação, religiosa, econômica, social, está baseada no cultivo do temor. Vós desejais ser alguém; do contrário, não sois ninguém; por isso, lutais, competis e vos destruís. Só o homem que não tem medo é ninguém. Ser ninguém é que é a verdadeira educação. Há o espírito do anonimato nas grandes coisas da vida criadora. A verdade é anônima, não é vossa nem minha. Não pode haver anonimato, quando a mente tem medo.

Assim, pois, descobrir os modos de ação do temor, e ser livre — não no fim da vida, mas ser livre desde o começo, compreendendo o que é o temor — isto é que é a verdadeira educação. Desde a meninice precisamos compreender os modos de ação do temor, para que, crescendo, saibamos enfrentar o temor e todos os problemas da vida; para que a nossa mente, ainda que encontre problemas contínuos, seja sempre fresca, nova; e para que nunca haja fator algum de deterioração, tal como a memória de ontem.

Krishnamurti em, Morrer para renascer

quarta-feira, 4 de maio de 2016

A desadulteração psíquica não é um resultado final


Uma mente que só pensa no futuro, é incapaz de agir no presente; e, por conseguinte, essa mente não visa à transformação, pois está justamente a evitar a transformação. E o que quer dizer "transformação"?

A transformação não está no futuro, nunca pode ocorrer no futuro, ela só pode ocorrer agora, de momento a momento. Mas, o que entendemos por transformação? Ora, é muito simples: é ver o falso como falso, e o verdadeiro como verdadeiro. É ver a verdade que está contida no falso, é ver o falso naquilo que se aceitou como verdade. Ver o falso como falso, e o verdadeiro como verdadeiro, é transformação. Porque, no momento em que você vê claramente uma coisa como verdadeira, essa verdade liberta. Ao ver que uma coisa é falsa, essa coisa falsa se desvanece. Quando você vê que as cerimônias são puras e vãs repetições, ao perceber a verdade que há nisso, e não o justificar, ocorre uma transformação — não é verdade? porque você ficou livre de mais uma prisão. Ao ver que a distinção de classe é coisa falsa, que ela cria conflito, sofrimento, divisão entre as pessoas — ao perceber essa verdade, ela própria o liberta. A percepção dessa mesma verdade é transformação, não é? E como estamos rodeados de tantas coisas falsas, a percepção da falsidade, momento por momento, é transformação. A verdade não é acumulativa. Ela está presente momento por momento. O que é acumulativo, o que se acumula, é a memória, e pela memória nunca se pode achar a verdade; porque a memória é produto do tempo — do passado, do presente e do futuro. O tempo, que é continuidade, nunca pode achar o que é eterno; a eternidade não é continuidade. O que tem duração não é eterno. A eternidade está no momento presente. A eternidade está no agora. O agora não é um reflexo do passado, não é continuação do passado, através do presente, rumo ao futuro. 

A mente desejosa de transformação futura, ou que visa à transformação como um resultado final, nunca poderá achar a verdade. Porque a verdade é uma coisa que deve vir de momento a momento, que precisa sempre ser descoberta de novo; e, naturalmente, não pode haver descobrimento mediante acumulação. Como é possível você descobrir o que é novo, com a carga do que é velho? É só pelo desaparecimento dessa carga que se descobre o novo. Portanto, para se descobrir o novo, o eterno, no presente, momento a momento, é necessário uma mente extraordinariamente alerta, uma mente não interessada em "vir a ser". A mente empenhada em "vir a ser" não conhecerá jamais a perfeita e suprema felicidade do contentamento; não o contentamento que é pura satisfação , não o contentamento derivado da consecução de um resultado, mas o contentamento que se manifesta quando a mente percebe a verdade no "que é", e o falso no "que é". A percepção dessa verdade é de cada momento; e essa percepção é retardada pela "verbalização" do momento. 

Portanto, a transformação não é um resultado final. A transformação não é um resultado. Todo resultado implica resíduo, implica uma causa e um efeito. Onde há casualidade, há necessariamente efeito. O efeito é meramente o resultado do seu desejo de ser transformado. Quando você deseja ser transformado, está ainda pensando em "vir a ser", e aquilo que está no "vir a ser", nunca poderá conhecer o que é ser. A verdade é o ser, momento a momento; e a felicidade que tem continuidade não é a felicidade. A felicidade é aquele estado que está fora do tempo. Esse estado atemporal só pode se manifestar quando há extraordinária insatisfação — não a insatisfação que descobriu um mecanismo de fuga, mas a insatisfação que não tem nenhuma saída, que não tem possibilidade de fuga, que já não busca preenchimento. Só então, em tal estado de insatisfação, pode despontar a Realidade. Essa Realidade não se pode comprar, se vender, se repetir, e não pode ser colhida nos livros. Ela tem de ser achada momento a momento, no sorriso, na lágrima, sob a folha morta, nos pensamentos erradios, na plenitude do amor. Porque o amor não é diferente da verdade. O amor é aquele estado no qual o processo do pensamento, como tempo, desapareceu de todo. E onde está o amor, há transformação. Sem amor, nada significa a revolução, porque em tal caso a revolução é só destruição, decomposição, desgraça cada vez maior e cada vez mais geral. Onde há amor há revolução, porque o amor é transformação, momento a momento. 

Jiddu Krishnamurti em, O que te fará feliz      
20 de fevereiro de 1949

terça-feira, 3 de maio de 2016

Pode-se dissolver de imediato a adulteração psíquica?

Nós somos o resultado do passado. Nosso pensamento se baseia no dia de ontem e em muitos milhares de dias passados. Somos o resultado do tempo, e todas as nossas reações, todas as nossas atitudes no presente, representam o efeito acumulativo de muitos milhares de momentos, incidentes e experiências. Por consequência, para a maioria de nós o passado é o presente, e isso é um fato inegável. Você — seus pensamentos, suas ações, suas reações — é resultado do passado. Ora bem, o interrogante deseja saber se o passado pode ser apagado imediatamente, isto é, não dentro de certo tempo, porém, imediatamente; ou esse passado acumulado exige algum tempo, até que a mente esteja livre no presente?[...] Já que cada um de nós é resultado do passado, com um fundo de inumeráveis influências, a variarem e a se modificarem constantemente, é possível apagar-se esse fundo sem   se passar pelo  processo do tempo? Isso está claro?[...]

O que é o passado? O que entendemos por passado? Não nos referimos, naturalmente, ao passado cronológico, ao segundo que precedeu, não nos referimos a isso, que é coisa definitivamente acabada. Nos referimos, é claro, às experiências acumuladas, às reações, lembranças, tradições e conhecimentos acumulados, ao nosso depósito subconsciente de inumeráveis pensamentos, sentimentos, influências e reações. Com uma tal bagagem não é possível compreender a realidade, porquanto necessariamente, a realidade não pertence ao tempo: ela é eterna. Por isso, não se pode compreender o eterno com uma mente que é produto do tempo. O interrogante deseja saber se é possível se libertar a mente, ou se é possível que a mente , que é resultado do tempo, subitamente deixe de existir; ou se é necessário que se proceda uma longa série de exames e análises para, desse modo, se libertar a mente de suas acumulações.[...]

Ora, a mente é o nosso cabedal de ideias e experiências; a mente é o resultado do tempo; a mente é o passado, a mente não é o futuro. Ela pode se projetar no futuro; e a mente se serve do presente como de uma passagem para o futuro; por conseguinte, o que quer que faça, seja qual for a sua atividade — ela está sempre presa na rede do tempo. É possível que a mente deixe de existir totalmente, isto é, que o processo do pensamento termine? Ora, é bem certo que há muitas camadas constituindo a mente; o que chamamos consciência tem muitas camadas, cada uma delas relacionada com outra, cada uma dependente da outra e atuando reciprocamente uma sobre a outra; e o total de nossa consciência não é apenas o processo de experimentar, mas também o de nomear, designar e, ainda, armazenar na memória. Tal é o processo completo da consciência, não é?[...]

Quando falamos de consciência, não nos referimos ao processo de experimentar, de nomear ou designar à experiência e guardá-la, dessa maneira na memória? Tudo isso, certamente, em níveis diferentes, constitui a nossa consciência. E pode a mente, que é resultado do tempo, mediante a um processo de análise, chegar, passo a passo, a se libertar da experiência acumulada? Ou é possível ficar-se inteiramente livre do tempo e contemplar-se diretamente a realidade?[...] Esta questão, é realmente importante, pois é possível, como logo explicarei, ficarmos livres da experiência acumulada e, assim, renovarmos imediatamente a nossa vida, sem dependermos do tempo, recriar-nos prontamente, independente do tempo.[...]

Para ficarmos livres da experiência acumulada, dizem muitos analistas que devemos examinar cada reação, cada complexo, cada empecilho, cada obstáculo, o que necessariamente implica em processo de tempo; e significa, também, que o analista tem de compreender o que está analisando; e que não deve interpretar erroneamente aquilo que está analisando. Porque, se o interpretar falsamente, tal interpretação o levará a conclusões errôneas, com o que se constituirá um novo acervo mental.[...] Por consequência, o analista precisa ser capaz de analisar os seus pensamentos, sem o mais leve desvio; e não deve errar um só passo, na sua análise, porquanto qualquer passo em falso, qualquer conclusão errônea, significa a formação de um novo fundo mental de ordem diferente e em nível diferente. E surge, também, o seguinte problema: Será o analista diferente da coisa analisada? Não representam o analista e a coisa analisada um fenômeno conjunto?[...]

Indubitavelmente, o indivíduo que experimenta e a sua experiência constituem um fenômeno conjunto, não são dois processos separados. Vejamos, pois, em primeiro lugar, a dificuldade de analisar. É quase impossível analisar tudo o que se contém em nossa consciência e ficar-se livre, por um tal processo. Porque, afinal de contas, quem é o analista? O analista não é diferente da coisa analisada, embora assim o pense. Pode separar-se da coisa que analisa, mas sempre faz parte dela. Tenho um pensamento, tenho um sentimento, sinto, por exemplo, cólera. A pessoa que analisa a cólera faz parte, ainda, da cólera; por conseguinte, o analista e a coisa analisada constituem um fenômeno conjunto, e não duas forças ou processos separados. Assim, pois, a dificuldade de nos analisarmos, de nos descerrarmos, de olharmos a nós mesmos, página por página, observando cada reação, cada resposta, é incalculável e exige muito tempo.[...] Portanto, essa não é a maneira indicada para nos libertarmos do complexo de nossos sentimentos.[...] Deve, portanto, haver uma maneira de proceder mais simples e direta; é o que vamos verificar. Mas, para o verificarmos, precisamos abrir mão de tudo o que é falso. A análise, pois, não é o processo correto e devemos abandoná-la. Assim como você não tomaria um caminho que não leva a parte alguma, assim também cumpre evitar o processo de análise, que não o levará a parte alguma; ele está, por conseguinte, fora de seu sistema. 

O que lhe resta, então?[...] O observador que observa — sendo o observador e a coisa observada um fenômeno conjunto — o observador que observa e procura analisar a coisa observada, não conseguirá se libertar do seu acervo mental. Se é assim — e de fato é — você deve abandonar tal processo, não?[...] Ao perceber que tal método é falso, ao compreender, não apenas verbalmente, porém, realmente, que é falso esse processo, o que acontece, então, à sua análise? Você desiste de analisar, não é verdade? Então, o que lhe resta?[...] Se a análise não é o método correto, o que lhe resta ainda? Qual é o estado da mente habituada a analisar, pesquisar, perscrutar, dissecar, tirar conclusões, etc.? Qual é o estado de sua mente se esse processo se detém? 

Você diz que a mente fica vazia. Pois bem: continue a penetrar nessa mente vazia. Por outras palavras, ao jogar fora, como falso, o que é conhecido, o que acontece à sua mente? Afinal de contas, o que foi que você jogou fora? Jogou fora o falso processo resultante de seus acervo de ideias e experiências. Não é assim? De um só golpe, por assim dizer, jogou fora tudo isso. Por conseguinte, a sua mente, depois de rejeitar o processo analítico e tudo o que ele implica, e de o reconhecer como falso, fica liberta do "ontem", sendo, assim, capaz de observar diretamente, sem passar pelo processo do tempo, com o que se desfaz, imediatamente, do seu acervo de ideias e experiências. 

[...] O pensamento é resultado do tempo, não é verdade? O pensamento é resultado do ambiente, de influências sociais e religiosas, e tudo isso faz parte do tempo. Pois bem: pode o pensamento ficar livre do tempo? Isto é, o pensamento, que é resultado do tempo, pode parar e ficar livre do processo do tempo? O pensamento pode ser controlado, modelado; mas o controle do pensamento está ainda compreendido nos domínios do tempo, e, por isso, a nossa dificuldade é a seguinte: Como pode uma mente, que é resultado do tempo, de milhares de dias passados, ficar   livre, instantaneamente, desse complexo acervo de influências? E a verdade é que você pode se libertar de tal acervo, não amanhã, porém no presente, no agora. Só é possível isso ao perceber aquilo que é falso; e o falso é, obviamente, o processo analítico, e este é a única coisa que temos. Cessando de todo o processo analítico, não mediante compulsão, porém pela compreensão da inevitável falsidade desse processo, você verá então que a sua mente  ficará completamente dissociada do passado — o que não significa que você deixará de reconhecer o passado, porém, que a sua mente não terá mais comunhão direta com o passado. Pode, portanto, a mente se libertar, imediatamente, do passado, e essa dissociação do passado, essa completa libertação do ontem — psicologicamente e não cronologicamente — é possível, e essa é a única maneira de se compreender a realidade. 

Agora, expressando-o de maneira muito simples; quando você deseja compreender uma coisa, qual é o estado da sua mente? Quando deseja compreender o seu filho, quando deseja compreender alguém, ou alguma coisa, qual é o estado da sua mente? Você não fica analisando, criticando, julgando o que o outro está dizendo, fica apenas escutando, não é verdade? Sua mente se acha num estado em que o processo do pensamento está inativo, porém muito atento. Isso é exato? E essa atenção não se relaciona com o tempo. O que você está e, simplesmente, alertado, passivamente receptivo, mas ao mesmo tempo plenamente atento; e é só nesse estado que há compreensão. Naturalmente, quando a mente está agitada, interrogando, afligindo-se, dissecando, analisando, não há compreensão. E quando há o desejo ardente de compreender, a mente está evidentemente tranquila. Isto naturalmente você terá de experimentar, e não deve aceitá-lo somente porque estou dizendo. Mas é fácil verificar que quanto mais você analisa, tanto menos compreende. Você pode compreender certos fatos, certas experiências; mas não é possível esvaziar a consciência de todo o seu conteúdo, por meio do processo analítico. Só é possível isso ao perceber a falsidade do método analítico. Ao reconhecer o falso como falso, começará a ver o que é verdadeiro; e a verdade é que o libertará das influências do passado. Para perceber essa verdade, deve a mente desistir de ser analítica, não deve ficar presa ao processo do pensamento, que, evidentemente, é análise, o que nos conduz a outra questão inteiramente diferente, ou seja: O que é a meditação correta? — da qual trataremos noutra ocasião. 

Jiddu Krishnamurti em, O que te fará feliz
23 de janeiro de 1949
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Postagens populares

"É porque se espalha o grão que a semente acaba
por encontrar um terreno fértil."-
Júlio Verne


>>>>>>>>>>>>>>

"A aventura é, sempre e em todos os lugares, uma passagem pelo véu que separa o conhecido do desconhecido; as forças que vigiam no limiar são perigosas e lidar com elas envolve riscos; e, no entanto, todos os que tenham competência e coragem verão o perigo desaparecer." — Joseph Campbell em, O Herói de Mil Faces

"Acredito que o maior presente que alguém me pode dar é ver-me, ouvir-me, compreender-me e tocar-me. O maior presente que eu posso dar é ver, ouvir, entender e tocar o outro. Quando isso acontece, sinto que fizemos contato" — Virginia Satir

"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti