quarta-feira, 4 de maio de 2016

A desadulteração psíquica não é um resultado final


Uma mente que só pensa no futuro, é incapaz de agir no presente; e, por conseguinte, essa mente não visa à transformação, pois está justamente a evitar a transformação. E o que quer dizer "transformação"?

A transformação não está no futuro, nunca pode ocorrer no futuro, ela só pode ocorrer agora, de momento a momento. Mas, o que entendemos por transformação? Ora, é muito simples: é ver o falso como falso, e o verdadeiro como verdadeiro. É ver a verdade que está contida no falso, é ver o falso naquilo que se aceitou como verdade. Ver o falso como falso, e o verdadeiro como verdadeiro, é transformação. Porque, no momento em que você vê claramente uma coisa como verdadeira, essa verdade liberta. Ao ver que uma coisa é falsa, essa coisa falsa se desvanece. Quando você vê que as cerimônias são puras e vãs repetições, ao perceber a verdade que há nisso, e não o justificar, ocorre uma transformação — não é verdade? porque você ficou livre de mais uma prisão. Ao ver que a distinção de classe é coisa falsa, que ela cria conflito, sofrimento, divisão entre as pessoas — ao perceber essa verdade, ela própria o liberta. A percepção dessa mesma verdade é transformação, não é? E como estamos rodeados de tantas coisas falsas, a percepção da falsidade, momento por momento, é transformação. A verdade não é acumulativa. Ela está presente momento por momento. O que é acumulativo, o que se acumula, é a memória, e pela memória nunca se pode achar a verdade; porque a memória é produto do tempo — do passado, do presente e do futuro. O tempo, que é continuidade, nunca pode achar o que é eterno; a eternidade não é continuidade. O que tem duração não é eterno. A eternidade está no momento presente. A eternidade está no agora. O agora não é um reflexo do passado, não é continuação do passado, através do presente, rumo ao futuro. 

A mente desejosa de transformação futura, ou que visa à transformação como um resultado final, nunca poderá achar a verdade. Porque a verdade é uma coisa que deve vir de momento a momento, que precisa sempre ser descoberta de novo; e, naturalmente, não pode haver descobrimento mediante acumulação. Como é possível você descobrir o que é novo, com a carga do que é velho? É só pelo desaparecimento dessa carga que se descobre o novo. Portanto, para se descobrir o novo, o eterno, no presente, momento a momento, é necessário uma mente extraordinariamente alerta, uma mente não interessada em "vir a ser". A mente empenhada em "vir a ser" não conhecerá jamais a perfeita e suprema felicidade do contentamento; não o contentamento que é pura satisfação , não o contentamento derivado da consecução de um resultado, mas o contentamento que se manifesta quando a mente percebe a verdade no "que é", e o falso no "que é". A percepção dessa verdade é de cada momento; e essa percepção é retardada pela "verbalização" do momento. 

Portanto, a transformação não é um resultado final. A transformação não é um resultado. Todo resultado implica resíduo, implica uma causa e um efeito. Onde há casualidade, há necessariamente efeito. O efeito é meramente o resultado do seu desejo de ser transformado. Quando você deseja ser transformado, está ainda pensando em "vir a ser", e aquilo que está no "vir a ser", nunca poderá conhecer o que é ser. A verdade é o ser, momento a momento; e a felicidade que tem continuidade não é a felicidade. A felicidade é aquele estado que está fora do tempo. Esse estado atemporal só pode se manifestar quando há extraordinária insatisfação — não a insatisfação que descobriu um mecanismo de fuga, mas a insatisfação que não tem nenhuma saída, que não tem possibilidade de fuga, que já não busca preenchimento. Só então, em tal estado de insatisfação, pode despontar a Realidade. Essa Realidade não se pode comprar, se vender, se repetir, e não pode ser colhida nos livros. Ela tem de ser achada momento a momento, no sorriso, na lágrima, sob a folha morta, nos pensamentos erradios, na plenitude do amor. Porque o amor não é diferente da verdade. O amor é aquele estado no qual o processo do pensamento, como tempo, desapareceu de todo. E onde está o amor, há transformação. Sem amor, nada significa a revolução, porque em tal caso a revolução é só destruição, decomposição, desgraça cada vez maior e cada vez mais geral. Onde há amor há revolução, porque o amor é transformação, momento a momento. 

Jiddu Krishnamurti em, O que te fará feliz      
20 de fevereiro de 1949

Um comentário:

  1. Nao sei como expressar a gratidao por sua dedicaçao. Obrigado Alt. Deca e todos os confrades q somaram para o resgate desse Ser. Muito obrigado.

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"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti