segunda-feira, 4 de abril de 2016

Removendo os véus que ocultam nossa verdadeira identidade

À medida que trabalhamos ativamente a nós mesmos, continuamos a remover os véus que ocultam a nossa verdadeira identidade. Enfrentamos as barreiras físicas, emocionais, mentais e espirituais que todos enfrentam, barreiras que em grande parte resultam de acontecimentos do nosso passado e dos comportamentos destrutivos e autodestrutivos que desenvolvemos como resposta a eles. Através da nossa prática de Doze Passos, nossa terapia, oração, meditação ou outras formas de auto-exploração, gradualmente descobrimos e removemos as causas subjacentes aos nossos apegos. Com a orientação de outros, honestamente começamos a enfrentar as memórias, emoções e respostas que nos mantiveram reprimidos e infelizes. Gradualmente retiramos as camadas protetoras de negação em relação a nós mesmos e a nosso passado. Trabalhamos para tirar as máscaras de ilusão entre nós e o mundo, descartando as camadas da falsa personalidade. 

Usando métodos regressivos, podemos reviver o nascimento e perceber o seu efeito nas nossas vidas. Recapturamos emoções que podem ter sido aprisionadas, abafadas por nossos vícios ou descontroladas com a nossa permissão. Reconhecemos e expressamos tristeza e raiva, vergonha e medo. Aceitando que até mesmo as ditas emoções negativas fazem parte do repertório humano, descobrimos como experimentá-las e transmiti-las de maneira saudável. Já não precisamos considerar inaceitáveis ou incontroláveis sentimentos como raiva, medo e tristeza, e sim compreendê-los como respostas normais e saudáveis a algumas situações. 

Descobrimos maneiras de nos tornarmos responsáveis por nossos sentimentos, em vez de imputá-los aos outros ou permitir que fervam dentro de nós. A fúria se transforma em força. Os sobreviventes de abusos sabem que por trás da raiva, medo, vergonha e senso de traição há um enorme senso de poder pessoal esperando pela libertação. Começamos a agir em vez de reagir, a funcionar por meio da nossa própria volição em vez de constantemente nos opormos ou respondermos às situações externas e às pessoas.

Quando começamos a experimentar plenamente emoções anteriormente inaceitáveis ou "negativas", com apoio de outros, também ganhamos acesso às "positivas": alegria, felicidade, gratidão e amor. Tornamo-nos conscientes dos aspectos da nossa personalidade que nos mantêm presos ao sofrimento. A prática do inventário pessoal é parte integrante dos Doze Passos, assim como de outros métodos: acompanhar nossos defeitos, tais como autopiedade, ódio ou egoísmo; reconhecê-los quando ocorrem; e corrigi-los. Muitos desses defeitos (todos características e sentimentos humanos universais), tais como desonestidade, falso orgulho, intolerância, procrastinação ou egoísmo, opõem-se às qualidades da maturidade espiritual. A medida que aprendemos a monitorá-los e a trabalhar diariamente para descartá-los, eles terão cada vez menos influência nas nossas vidas.

Também começamos a fazer as pazes com os nossos relacionamentos. Quando alguém num relacionamento começa o trabalho de recuperação, inicia uma terapia ou entra numa senda espiritual, a dinâmica dos seus relacionamentos quase certamente muda. Quando uma pessoa numa amizade, casamento, família ou comunidade começa a crescer, toda a estrutura muda. Essa estrutura pode ter sido fundada em pressupostos pouco saudáveis, ou pode ter girado ao redor de padrões de comportamento disfuncionais, já não apropriados a uma pessoa em processo de transformação e cura pessoal.

Inevitavelmente, tais mudanças nos relacionamentos apresentam problemas. Não importa quão felizes os amigos ou a família fiquem com o fato de finalmente estarmos fazendo alguma coisa para resolver nossos problemas, quase todo o mundo tende a se apegar à segurança do passado. Não importa quão miseráveis tenham sido nossas vidas anteriores, pelo menos existíamos dentro de certos parâmetros familiares. Agora o nosso envolvimento ativo no desenvolvimento pessoal parece exigir que os outros nos sigam por territórios desconhecidos. Isso pode ser ameaçador, até mesmo assustador, para pessoas que se convenceram que éramos o problema nas suas vidas.

O que aprendemos muito rapidamente é que, no fundo, não podemos afetar o comportamento da outra pessoa. Alguns amigos, cônjuges ou outros membros da família já se envolveram com o seu próprio processo de transformação e estão felizes de dar as boas-vindas a um novo companheiro na aventura da auto-exploração. Outros se sentem inspirados pelas mudanças que veem em nós, aceitando as alterações no relacionamento como oportunidades para o seu próprio crescimento. Outros, ainda, permanecem firmemente envolvidos com as suas próprias maneiras de ver as coisas, com seus próprios comportamentos e pontos de vista. Podem resistir ativa ou sutilmente, julgar ou ficar zangados com os nossos esforços. Percebemos que as únicas pessoas que podemos mudar somos nós mesmos e que, muito embora isso possa ameaçar a segurança dos nossos relacionamentos, o nosso novo caminho de cura e redescoberta vale a pena. 

A medida que continuamos com o nosso trabalho, começamos a examinar e mudar as nossas pouco saudáveis contribuições para os relacionamentos. Se fomos exigentes e carentes, descobrimos como nos desapegarmos e confiarmos nos nossos próprios recursos. Se nos sentimos facilmente presos, sobrepujados ou perdidos, aprendemos a distinguir a realidade da nossa situação do nosso estado interior de tensão. O nosso casamento ou amizade realmente nos aprisionou, ou nos sentimos dessa maneira por toda a nossa vida, independente das circunstâncias? Sentimo-nos inúteis porque outra pessoa nos trata como lixo, ou porque, lá no fundo, nos sentimos insignificantes? Se as nossas respostas a tais questões sugerem que algo está errado com a nossa situação externa, ganhamos coragem para mudá-la. Se os problemas estão na nossa auto-imagem, descobrimos mais uma oportunidade para explorarmos a nós mesmos. 

Podemos ter medo do compromisso; outros nos feriram ou abandonaram vezes demais. Ou mantemos os que amamos afastados ou atrás de uma muralha emocional por meio da raiva, de julgamentos ou de críticas.

Talvez coloquemos nossos pais, parceiros ou filhos em pedestais e nos percamos no processo. No momento em que nos conscientizarmos dessas e de outras questões de relacionamento, estaremos no caminho certo para mudá-las. Embora a tentação de "consertar" ou mudar o nosso parceiro ou amigo nos possa atrair para fora do nosso próprio processo de cura, aprendemos a retornar à nossa própria auto-exploração. À medida que continuamos a crescer, tornamo-nos mais abertos à confiança, intimidade e amor para com nós mesmos e os outros. Podemos inclusive notar mudanças sutis e talvez inesperadas nas pessoas ao nosso redor. 

Render-se significa "desmantelar, desfazer, abrir, desistir", como o mestre tibetano Chõgyam Trungpa escreveu. Significa "tirar as nossas roupas, nossa pele, nervos, coração, cérebro, até que estejamos expostos ao universo. Nada permanecerá". Nada permanecerá das proteções e restrições que nos impediam de participar plenamente das nossas vidas. Durante o processo de cura, não estamos combatendo os nossos vícios ou evitando as tentações, mas sim neutralizando e transformando os nossos anseios. Também aprendemos a reconhecer a sede espiritual quando ela aparece, e a saciá-la de maneira saudável e realizadora. 

À medida que nos desapegamos, mais e mais facilmente abarcamos todo o drama da vida, a alegria como o sofrimento. Se não escaparmos ou negarmos qualquer aspecto do passeio na montanha-russa, se não focalizarmos seletivamente ou nos apegarmos ao sofrimento ou à alegria, tornar-nos-emos cada vez mais livres. Podemos relaxar e apreciar o passeio com um sentimento de gratidão, humildade e profundo amor a nós mesmos, aos outros e quem esteja no comando. Eventualmente, o processo de descoberta e a prática da rendição se tornam excitantes — às vezes milagrosos. Muito embora a nossa recuperação seja às vezes excruciante, persistimos porque a represa entre nós e a Personalidade mais profunda se está desintegrando e as nossas vidas estão mudando de maneira significativa.

Às vezes, trabalhar na recuperação é como entrar numa banheira de água quente. Primeiro vejo a temperatura com o dedo do pé e decido se entro ou não. Mergulho mais alguns dedos do pé, retiro-os por algum tempo, e então prossigo, até imergir o pé inteiro. E assim vou, molhando e tirando, molhando um pouco mais, recuando e resistindo, até submergir mais e mais e resistir cada vez menos. A medida que esse experimento continua, vão acontecendo coisas que me permitem saber se estou na trilha certa. Às vezes experimento sincronismos, aquelas maravilhosas coincidências que me lembram que não estou no comando, ou períodos de graça em que me sinto orientada. Durante um período de descanso ou num platô no caminho, subitamente uma nova peça do quebra-cabeça, uma memória esquecida ou uma emoção ignorada, se apresenta, e dou mais um passinho para a borda ou, recorrendo à fé, mergulho de cabeça. 

Christina Grof em, Sede de Plenitude

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"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti