domingo, 3 de abril de 2016

Estratégias de Sobrevivência: Manipulação e Controle


Outro mecanismo comum e aparentemente eficaz que dá uma aparência de ordem a nossas vidas é a tentativa de manipular ou controlar uma situação e as pessoas envolvidas nela. Como crianças feridas que são dominadas ou vitimadas por outros, usamos nossas forças para de algum modo sair do nosso papel subjugado e exercer alguma força aparente. Esse esforço pode tomar muitas formas. Alguns de nós reagem prendendo-se à realidade, tentando desesperadamente controlar o máximo possível dela. Vi crianças cujos corpos retos e retesados e a rigidez comportada negam a dor e o caos internos. É como se estivessem dizendo com seus botões: "Segure-se. Sorria. Não se mexa. Nem mesmo respire fundo. Se o fizer, tudo vai desabar." 

Algumas crianças tornam-se dominadoras e exigentes para ter uma sensação de poder sobre suas vidas. Podem usar qualquer força possível para coagir os outros a se comportarem de acordo com suas exigências. As amizades tornam-se veículos para uma demonstração de força. Esses indivíduos intimidam irmãos mais jovens ou colegas mais fracos e o conseguem por causa do seu tamanho.

Se não nos encontramos numa posição reconhecida de poder, ainda podemos exercer algum tipo de controle através de meios menos explícitos. Podemos aprender a ser engraçadinhos, flertadores, brincalhões ou mesmo sedutores para conseguir o que queremos. Ligamos o nosso charme. Tornamo-nos extra-simpáticos, virtuosos ou atenciosos às necessidades de outra pessoa, para que a outra pessoa corresponda. Logo querem algo de nós que só nós podemos lhes dar: nossa atenção, nossa assistência, nosso favor. 

Quando passamos a ter algum comando sobre a situação, sentimo-nos mais seguros. Estamos no comando. É o garotinho que desenvolve maneiras intricadas de induzir as pessoas mais velhas a lhe dar o que quer, exagerando ou dramatizando o seu charme. São as crianças identificadas como mascotes da família, mestres em adotar respostas positivas como método de controlar ou outros. Sendo engraçadinhos ou fazendo palhaçadas, também desviam a atenção da dor ou tensão que há dentro do sistema. 

Podemos mobilizar nossos recursos para parecermos a pessoa perfeita, uma "boa menina" ou um "bom menino", a menina dos olhos de papai e mamãe. Fazemos tudo para agradar aos outros. Antecipamos e agimos sobre as expectativas que têm de nós e fazemos um enorme esforço para construir uma fachada de excelência e capacidade. Estudamos muito na escola, apresentamo-nos como estudantes-modelo e trabalhamos para parecer impecáveis no nosso comportamento. E uma atitude muito solitária. Em algum lugar lá dentro, sabemos da disparidade entre a nossa imagem polida e a realidade do nosso turbilhão interno. Nós nos separamos dos indivíduos menos exemplares, e provavelmente criamos para nós uma série de expectativas extremamente difíceis, impossíveis de realizar.

Outra forma de comportamento controlador é a tentativa constante de tomar conta dos outros. Antecipamos todos os seus caprichos, para ter certeza de que estaremos lá para ajudá-los sempre que necessário. Precisamos de que alguém precise de nós e nos tornamos indispensáveis, de modo que possamo-nos sentir no domínio da situação. Também podemos acreditar que somos capazes de mudar as pessoas que ajudamos de acordo com as nossas expectativas. Por mais doloroso e sem recompensas que esse papel possa ser, ele muitas vezes se torna necessário tanto para o que cuida como para o que é cuidado. Os nossos dependentes precisam da nossa supervisão. Sem nós, o que seria deles? Durante algum tempo, fazemos o possível para ter certeza de que continuarão a depender de nós, porque sem eles não teríamos nenhuma função. O nosso mundo se despedaçaria. Perderíamos a sensação de poder. 

As crianças muitas vezes são forçadas a esse papel pelas circunstâncias. Vivem com um pai que padece de doença séria ou invalidez, ou é alcoólatra ou viciado. Elas se tornam responsáveis por cuidar do paciente ou do alcoólatra, limpar suas coisas, ajudá-lo a ir para cama. À medida que essas crianças são chamadas a ajudar, sentem-se fortes e importantes em contraste com o viciado descabelado ou com o progenitor frágil. Quando adultos, muitos tendem para profissões de auxílio, como enfermagem, assistência social ou psicologia, para viver sua necessidade de ajudar. 

Como sabemos, muitos filhos de alcoólatras, viciados ou outros pais dependentes eventualmente alcançam um ponto em que já não podem suportar a situação dolorosa e enganadora em que se encontram. No entanto, se o viciado pára com o seu comportamento de dependência e caminha para a recuperação, o atendente subitamente perde a função. Já não é necessário, perde a aparência de controle sobre uma situação incontrolável. No meio da alegria e celebração pelo processo de cura de um ente querido, o protetor sente medo e ansiedade. A realidade conhecida, por mais terrível que seja, subitamente mudou. 

Também podemos tentar controlar os outros tornando-nos mártires ou vítimas. Os verdadeiros mártires da história foram os que desinteressadamente desistiram de suas vidas, de sua posição ou de suas posses em prol de uma convicção ou crença. Fizeram-no devido a um senso de compromisso ético e de bondade. O tipo de mártir de que falo aqui também se sacrifica, às vezes intensamente, mas é motivado por medo, vergonha e raiva. Ele passa a se identificar profundamente com o seu próprio sofrimento, e usa a sua miséria para conseguir a atenção e o amor dos outros. 

O mártir é a pessoa que diz: "Não se preocupe comigo. Não sou tão importante. Enquanto vocês estiverem bem..." E a mãe que dá aos membros da família as maiores porções de comida no almoço, reservando ostensivamente apenas uma pequena quantidade para si, ou o pai que perpetuamente lembra aos filhos dos tremendos sacrifícios que fez para que pudessem ir para a faculdade. Pessoas assim são generosas para com os outros, mas geralmente seus presentes são amarrados com um rolo inteiro de barbante. 

O comportamento de um mártir muitas vezes serve de triste caricatura de sua baixa auto-estima. Como os mártires se sentem tão indignos e incapazes de respeitara si mesmos, forçosamente promovem a gratidão dos outros. Às vezes, desde o início aprendem que, se se comportarem como mártires, receberão muita atenção dos outros. Alimentando grandes expectativas, exercem poder e influência enquanto coagem as pessoas ao redor a que respondam com compromisso e confiança: "Oh, mas você é importante para mim." "Muito obrigado pela sua generosidade. Espero poder fazer o mesmo por você algum dia." Os mártires requerem as expressões de amor, preocupação e apreciação por que anseiam, mas que nunca preenchem o vazio dentro deles. Esse vazio é sobra de um passado que lhes roubou o senso de identidade e que não pôde dar do que precisavam. 

Um mártir também pode ser uma vítima. As vítimas se identificam com os que sofreram profundas injustiças. O mundo conspira contra elas. Sentem-se completamente à mercê dos planos das pessoas ao redor. Essa é a maneira de abdicarem da responsabilidade por seus problemas. As dificuldades são sempre culpa de outra pessoa, e a vítima simplesmente as suporta e sofre. É fácil para uma vítima deslizar para uma posição inferior em um relacionamento. Faz sentido que a outra pessoa seja dominante. Como os demais mecanismos de sobrevivência, ser vítima é muitas vezes um exagero da história desse indivíduo: ele provavelmente foi vitimado de tal modo, que esse papel se tornou familiar. 

Relacionada à tendência de algumas pessoas a se controlar e a controlar os outros, existe ainda a necessidade de controlar rigidamente o ambiente imediato. Desenvolvemos ideias inamovíveis de como queremos que o nosso mundo funcione. Descobrimos que, se fizermos as coisas de certa maneira, nos sentiremos seguros e ordenados. Se desenvolvermos uma rotina, e enquanto nos mantivermos presos a ela, sentiremos alguma segurança. No entanto, se o nosso senso de continuidade muda, muitas vezes sentimos medo e ansiedade. Se, por exemplo, estamos acostumados a começar nossas manhãs de determinada maneira e uma modificação no horário escolar interrompe nosso ritual diário, podemos ficar assustados ou ansiosos. Ou, se fazemos o nosso trabalho à nossa maneira e vem alguém que o faz de modo diferente, podemo-nos sentir estranhamente inseguros e sem controle da situação. 

Podemos gostar de manter nossos bens numa determinada ordem ou desordem, dispostos no quarto da maneira como nós queremos. Desse modo, sentimos que o lugar é realmente nosso, um abrigo familiar. Não apreciamos a interferência de ninguém, mesmo uma oferta bem-intencionada de ajuda para limpar o quarto. Indivíduos cujas profissões exigem freqüentes viagens regularmente entram em novas situações, quartos de hotéis ou lares desconhecidos. Alguns descrevem uma sensação de ansiedade cada vez que se mudam. Descobrem que, uma vez desfeitas as malas, penduradas as roupas no armário, postos os livros e um relógio de viagem no criado-mudo e a escova de dentes no banheiro, sentem-se mais em casa. Tornando o lugar um recanto deles, sentem-se mais seguros. 

Naturalmente, essa necessidade de segurança e estrutura pode ser levada a extremos, a comportamentos obsessivos. Mas, mesmo nas suas expressões menos graves e selvagens, a nossa busca de segurança e invulnerabilidade pode levar à rigidez e à necessidade de nos tornarmos autoritários. Uma atitude inflexível pode causar problemas conosco e com as pessoas com quem nos tentamos relacionar. 

Chrtistina Grof em, Sede de Plenitude - Apego, Vício e Caminho Espiritual     

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"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti