quarta-feira, 13 de abril de 2016

Existia amor verdadeiro em seu lar?


O que vocês têm para oferecer aos jovens? O que vocês têm para dar-lhes — suas preocupações, seus problemas, suas absurdas realizações? Naturalmente qualquer pessoa inteligente há de revoltar-se contra tudo isso. Mas a própria revolta traz em si o germe da conformidade: a conformidade com o que se passa no interior do grupo e a oposição a outro grupo. Os jovens começam por revoltar-se contra a conformidade e acabam por conformar-se da maneira mais absurda, de forma igualmente total. Vocês viveram para o prazer e eles querem viver para a sua própria espécie de prazer. Vocês ajudaram a provocar a guerra e, naturalmente, eles são contra a guerra. Tudo o que vocês fizeram, construíram e produziram foi para o bem-estar material, que tem seu lugar, mas quando este se torna um fim em si mesmo, começa o caos. Pomo-nos a imaginar se vocês realmente amam os seus filhos? Não o que os outros fazem em outras partes do mundo; não se trata disso. Podem cuidar deles quando muito novos, dar-lhes o que querem, proporcionar-lhes a melhor comida, mimá-los, tratá-los como brinquedos e usá-los para a própria realização e o próprio prazer de vocês. Nisso não existe uma única restrição, a menor sensibilidade ao rigor, que não é, de modo algum, a aspereza do monge. Entendem que eles precisam mover-se livremente, não podem ser reprimidos, ninguém deve dizer-lhes o que devem fazer; vocês seguem o que os especialistas recomendam e o que dizem os psiquiatras. Produzem, assim, uma geração sem controle e, quando eles se revoltam, vocês ficam horrorizados, ou satisfeitos, de acordo com o condicionamento de vocês. E são responsáveis por tudo isso.

Este quadro não estará indicando, porventura, que não existe o verdadeiro amor? O amor tornou-se mera forma de prazer, um entretenimento espiritual ou físico. Apesar de todos os cuidados que lhes dispensaram quando eram pequenos, permitem que sejam mortos. No coração de vocês querem que se conformem, não com o vosso padrão de pais, mas com a estrutura de uma ordem social corrupta. Ficam horrorizados quando eles cospem em tudo isso mas, de um modo estranho, o admiram. Afigura-se-lhes uma demonstração de grande independência. Afinal de contas, historicamente, vocês deixaram a Europa para serem independentes e, assim, o círculo se repete ab eterno.

Jiddu Krishnamurti - Conversações com os pais e com o pessoal de Brockwood Park
Extraído do livro: O Começo do Aprendizado

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"Acredito que o maior presente que alguém me pode dar é ver-me, ouvir-me, compreender-me e tocar-me. O maior presente que eu posso dar é ver, ouvir, entender e tocar o outro. Quando isso acontece, sinto que fizemos contato" — Virginia Satir

"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti