Estratégia de Cura

"Amor, compaixão, honestidade, autenticidade, clareza física, emocional, mental, espiritual, responsabilidade, disciplina, serenidade, liberdade pessoal, tolerância, paciência, sabedoria, entendimento, gratidão, humildade, disposição, esperança, felicidade, alegria, humor, conexão básica com a terra e com a vida diária, habilidade de viver no momento presente e uma visão de mundo mística."
As qualidades da saúde espiritual na nossa lista,  são apenas alguns dos atributos comuns, conquanto essenciais, que se tornam disponíveis durante a cura e a transformação espiritual. Uma interpretação espiritual ou religiosa específica pode enfatizar um ou outro. É importante recordar que, embora todas essas qualidades existam como possibilidades dentro de cada um de nós, nós nos atrapalhamos quando tentamos forçá-las a existir ou quando tentamos consegui-las com demasiada intensidade. Se adotarmos uma atitude compreensiva de crescimento e cura interior, e se continuarmos a fazer o nosso trabalho com o apoio dos outros, automaticamente descobriremos esses atributos e os integraremos às nossas vidas.

O que é essa estratégia? Para que possamos descrevê-la, precisamos voltar à imagem dos seres humanos como compostos de uma pequena personalidade e de uma Personalidade mais profunda e à história que nos retrata como indivíduos que estão separados da sua fonte divina. Anteriormente, exploramos o papel do abuso, dos mecanismos de sobrevivência e da negra noite do vício. Tudo isso serve para nos afastar da Personalidade mais profunda. No entanto, não importa quão oculta esteja a nossa identidade espiritual durante o vício — ela sempre esteve lá; simplesmente não fomos capazes de vê-la. Ela estava oculta não só devido à nossa humanidade, mas também por nosso comportamento e feridas físicas, emocionais, mentais e espirituais. Bill Wilson escreveu: "Bem no fundo de cada homem, mulher e criança está a ideia fundamental de Deus. Ela pode ser obscurecida pela calamidade, pela pompa, pela idolatria de outras coisas, mas de uma forma ou de outra está lá."

Curar significa redescobrir tal ideia divina, aquele lugar de plenitude dentro de cada um de nós. A nossa tarefa na recuperação ou na jornada espiritual é retirar as camadas que se interpõem entre nós e a Personalidade mais profunda. Podemos usar a imagem de um vasto oceano contido e apartado por uma represa que nos impede de saber que ele existe. Mesmo que o nosso intelecto possa aprender que existe um oceano, não podemos concebê-lo porque nunca o experimentamos diretamente. E então, por um instante, transcendemos a barreira, e vemos e sentimos o oceano diretamente. Uma vez que isso tenha acontecido, ficamos fortemente motivados a experimentá-lo de novo, durante mais tempo. Como podemos fazê-lo?

A represa entre nós e a nossa fonte é feita de emoções, memórias e experiências não-resolvidas que nos mantêm presos e causam sofrimento às nossas vidas. Com o tempo, durante o processo de cura, removemos essa barreira entre a pequena personalidade e a Personalidade mais profunda. Esse processo não é linear; não eliminamos o medo, depois a raiva, então as memórias de abuso, e depois a vergonha, numa sequência ordenada. Em vez disso, durante a nossa prática espiritual, trabalho de recuperação ou terapia, vamos tirando lascas da barreira até que seja totalmente eliminada. Com cada golpe, um pouco mais da Personalidade mais profunda se torna disponível para nós, da mesma maneira como filetes de água escorrem por pequenas fendas numa represa. Quando eliminamos o bastante da represa, as águas fluem livremente. Não só vamos nadar no vasto espaço das nossas possibilidades, como também provar, saborear e usar os seus recursos. Num nível prático, à medida que eliminamos os obstáculos dentro de nós, tornamo-nos mais conscientes das qualidades prontamente disponíveis da maturidade espiritual. 

Essa noção é muito diferente de algumas das primeiras teorias da psicologia, que afirmava que, quanto mais fundo penetrarmos na psique humana, pior ela se tornará. Quanto mais entrarmos dentro de nós mesmos, mais descobriremos a negatividade e a desarmonia dentro de nós, os instintos primitivos e as tendências destrutivas. No nosso modelo de cura, quanto mais fundo chegarmos, mais descobriremos o nosso potencial: as qualidades positivas, leves, alegres, gratas, apaixonadas e amorosas que estavam ocultas. No caminho, encontramos o espectro de emoções, impulsos e comportamentos descritos com tanta eloquência pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud, e outros, mas eles não devem ser confundidos com a nossa verdadeira identidade. São apenas a matéria-prima com que foi construída a represa que nos separa da nossa verdadeira natureza.

[...]Eu gostaria de ter um modelo de saúde para o entendimento e tratamento dos vícios, em vez de um modelo de doença. No modelo de saúde, os seres humanos contêm um vasto potencial divino que pode estar oculto. Na nossa existência apegada e viciada, vivemos na ilusão de uma personalidade limitada e pequenina. Achamos que somos apenas isso. Existimos num estado de identidade errada; esquecemos quem realmente somos.

Durante o processo de cura, procuramos redescobrir a nós mesmos. E um processo de recordação, de reconexão com a nossa totalidade. A recuperação é na verdade a redescoberta. A definição original da palavra recuperação se entende além das aplicações da patologia. Recuperar significa "voltar, achar ou identificar de novo". Na nossa recuperação, voltamos à nossa totalidade. Unimos a nossa pequena personalidade à nossa Personalidade mais profunda, e fazemos um todo. A recuperação se aplica aos processos de cura de uma doença, mas também descreve a reconquista da nossa verdadeira natureza. Para mim está claro que parte daquilo em que estou envolvida é a cura da patologia física, emocional e mental relacionada com o meu alcoolismo e com outros aspectos da minha história. Também estou consciente de que é algo maior do que isso. Por trás e além disso, a minha "recuperação" é um processo mais profundo; é um caminho de transformação profundo e altamente influente para todo o meu ser. E cura em todos os níveis, mas também a busca do divino que fez parte da humanidade, não importando as distinções culturais e étnicas, desde o início da história. Um componente essencial desse processo de crescimento espiritual é a libertação ou transformação de apegos e vícios. 

Na verdadeira recuperação, trabalhamos para remover as barreiras entre a pequena personalidade e a Personalidade mais profunda. Nesse processo, familiarizamo-nos com o maravilhoso poder de cura dentro de cada um de nós. Esse "médico interior", como é conhecido em várias abordagens médicas e terapêuticas de orientação holística e transpessoal, é a sabedoria e o poder profundos da nossa identidade espiritual. O médico interior sabe o que fazer se lhe dermos espaço e encorajamento. Em vez de nos apoiarmos nas forças externas para a nossa cura, em vez de automaticamente dependermos de técnicas, medicamentos ou diretivas de profissionais, aprendemos que temos recursos dentro de nós. Isso não significa simplesmente que nos devamos recuperar sozinhos - muito pelo contrário. Precisamos do valioso apoio, amor e orientação de profissionais e professores bem- treinados e do conjunto de companheiros em idêntica busca. No entanto, no interior dessa estrutura de apoio, a cura, no fundo, acontece dentro de nós mesmos.

Na medicina ocidental tradicional, se as pessoas adoecem, vão a um médico, recebem tratamento e depois lhe pagam. Na antiga medicina chinesa, os pacientes pagavam ao médico enquanto estavam saudáveis. Se alguém adoecia, o médico tinha de lhe pagar. A tarefa do médico era ensinar e ajudar as pessoas a viver em estado de saúde, equilíbrio e bem-estar, aplicando os seus próprios recursos. Acredito que esta é a premissa para a recuperação do vício. Muitos de nós começam a quebrar a represa que nos impede de conhecer a nossa verdadeira identidade quando chegamos ao fundo com o nosso comportamento vicioso. A partir de então, temos a oportunidade de iniciar a jornada de recuperação e redescoberta pessoal, que acaba levando à totalidade e ao equilíbrio.

Christina Grof em, Sede de Plenitude

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"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti