terça-feira, 12 de abril de 2016

A infância em "O herói de mil faces"

Ao que parece, as mais permanentes disposições da psique humana são aquelas geradas pelo fato de permanecermos, no âmbito do reino animal, a espécie que fica mais tempo junto ao seio materno. Os seres humanos nascem cedo demais; quando o fazem, estão inacabados e ainda não estão preparados para o mundo. Em conseqüência, toda a defesa que têm contra um universo de perigos é a mãe, sob cuja proteção ocorre um prolongamento do período intrauterino. Daí decorre o fato de a criança dependente e sua mãe formarem, ao longo de meses após a catástrofe do nascimento, uma unidade dual, não apenas do ponto de vista físico, como também no plano psicológico. Toda ausência prolongada da mãe provoca tensão na criança e consequentes impulsos agressivos; da mesma maneira, quando se vê obrigada a controlar a criança, a mãe desperta nela respostas agressivas. Portanto, o primeiro objeto da hostilidade da criança é idêntico ao primeiro objeto do seu amor; seu primeiro ideal (que daí por diante se mantém como base inconsciente de todas as imagens de bênção, verdade, beleza e perfeição) é a unidade dual entre a Madona e o Bambino.

O desafortunado pai é a primeira intrusão radical de outra ordem de realidade na beatitude dessa reafirmação terrena da excelência da situação no interior do útero; assim sendo, o pai é vivenciado primariamente como um inimigo.

Para ele é transferida a carga de agressão originalmente vinculada à mãe "má" ou ausente. Permanece com a mãe (normalmente) o desejo vinculado à mãe "boa", ou presente, nutridora e protetora. Essa fatídica distribuição infantil de impulsos de morte (thanatos: destrudo) e amor (eros: libido) constitui o fundamento do agora celebrado complexo de Édipo, que Sigmund Freud, há uns cinqüenta anos, apontou como a grande causa do fracasso do adulto no sentido de comportar-se como ser racional. Como disse o dr. Freud: "O rei Édipo, que assassinou o pai, Laio, e desposou a mãe, Jocasta, nos mostra, tão-somente, a realização dos nossos próprios desejos infantis. Todavia, mais afortunados do que ele, fomos bem-sucedidos, na medida em que não nos tornamos psiconeuróticos, ao desvincular nossos impulsos sexuais das nossas [respectivas] mães e ao esquecer nosso ciúme com relação aos nossos [respectivos] Pais". Ou, como ele mesmo afirma: "Toda desordem patológica da vida sexual pode ser considerada, com propriedade, uma inibição do desenvolvimento".

"Quantos homens em sonhos não viram a si mesmos Dormindo com a própria mãe; mas bem mais fácil É a vida daquele que dessas coisas não cogita."
A lamentável situação da esposa cujo marido tem sentimentos que, em lugar de amadurecer, permanecem aprisionados ao romance da infância pode ser avaliada a partir do aparente absurdo presente em outro sonho moderno; e, nesse ponto, começamos a sentir, na realidade, que estamos penetrando no domínio do mito antigo, mas com uma curiosa reviravolta.

Joseph Campbell em, O Herói de Mil Faces

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"É porque se espalha o grão que a semente acaba
por encontrar um terreno fértil."-
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"A aventura é, sempre e em todos os lugares, uma passagem pelo véu que separa o conhecido do desconhecido; as forças que vigiam no limiar são perigosas e lidar com elas envolve riscos; e, no entanto, todos os que tenham competência e coragem verão o perigo desaparecer." — Joseph Campbell em, O Herói de Mil Faces

"Acredito que o maior presente que alguém me pode dar é ver-me, ouvir-me, compreender-me e tocar-me. O maior presente que eu posso dar é ver, ouvir, entender e tocar o outro. Quando isso acontece, sinto que fizemos contato" — Virginia Satir

"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti