terça-feira, 17 de maio de 2016

Renuncia a ele e abandona teus parentes

Transitório é este mundo: 
Como fantasmas e sonhos, ele não tem substância alguma. 
Renuncia a ele e abandona teus parentes...

Estas palavras: “Renuncia a ele e abandona teus parentes” foram mal entendidas. Houve uma razão para isso; todos os que não as entenderam eram renunciantes e pensaram que Tilopa estava falando daquilo em que acreditavam. Mas Tilopa não podia dizer tal coisa, porque vai contra todas as suas concepções. Se o mundo é como um sonho, que significação tem renunciar a ele? Podes renunciar à realidade, mas não podes renunciar a um sonho - seria tolice demais. Podes renunciar a um mundo substancial, mas não podes renunciar a um mundo fantasma. De manhã, sobe ao topo da tua casa, chama todos os que estão próximos e declara: - “Renunciei aos sonhos! Na noite passada tive sonhos demais e renunciei a eles.” Quem te ouvir rirá; todos pensarão que enlouqueceste - ninguém renuncia aos sonhos. Todos acordam, simplesmente; ninguém renuncia aos sonhos.

Um Mestre Zen acordou, certa manhã, e disse a um de seus discípulos: - “Tive um sonho a noite passada. Quer interpretá-lo para mim, dizer-me o que significa?”

O discípulo disse: - “Espera! Deixa-me trazer-te uma xícara de chá.”

O Mestre tomou a xícara de chá e perguntou: - “E agora, o sonho?”

Disse o discípulo: - “Esquece-te dele, porque um sonho é um sonho e não precisa de interpretação. Uma xícara de chá é interpretação suficiente - acorda!”

O Mestre falou: - “Certo, absolutamente certo! Se tivesses interpretado meu sonho, eu te expulsaria do meu mosteiro, porque só os tolos interpretam sonhos. Fizeste bem; de outra maneira, terias sido definitivamente expulso e eu nunca mais olharia para tua cara.”

Quando tiveres um sonho, o que precisas é de uma xícara de chá e fim de conversa. Freud, Jung e Adler ficariam muito preocupados se ouvissem essa história, porque desperdiçaram sua vida inteira preocupados se ouvissem essa história, porque desperdiçaram sua vida inteira interpretando sonhos alheios. Um sonho tem que ser transcendido. Simplesmente por saberes que se trata de um sonho, tu o transcendes - isso é a renúncia.

Tilopa tem sido erroneamente interpretado porque há, no mundo, renunciantes demais, condenadores. Pensaram que ele estava dizendo que se renunciasse ao mundo. Não era isso o que ele estava dizendo. Dizia: - “Aprende que ele é transitório; isso é renúncia.” “Renuncia a ele” - diz Tilopa e quer dizer: aprende que ele é um sonho.

Abandona teus parentes - e pensaram que ele estivesse dizendo: - “Deixa tua família, tuas relações, tua mãe, teu pai, teus filhos.” Não, ele não estava dizendo isso, não podia dizer isso; é impossível que Tilopa diga tal coisa. Não deves pensar que alguém é tua esposa, pois esse “ser meu” é um fantasma, um sonho. Não deves dizer: - “Esta criança é meu filho”, porque esse “ser meu”, esse “meu” é um sonho. Ninguém é teu, ninguém pode ser teu. Renuncia a essas atitudes que dizem que alguém é teu - marido, esposa, amigo, inimigo; renuncia a todas essas atitudes. Não construas pontes: “meu”, “teu” - põe de lado essas palavras.

Se puseres de lado essas palavras, renunciarás aos teus parentes: ninguém é teu. Isso não significa que devas escapar, que devas fugir de tua esposa, porque, se fugiras, mostrarás que pensas que ela é substancial. Fugir sempre mostrará que ainda pensas que ela é tua, caso contrário, por que foges?

Isto aconteceu: um hindu sannyasin, Swami Ramteerth, voltou da América. Estava no Himalaia e sua esposa veio vê-lo, o que o deixou um pouco perturbado. Seu discípulo, pessoa de mente muito penetrante, Sardar Poorn Singh, estava sentado ao lado dele. Observou e sentiu que o Swami ficara perturbado. Quando a esposa se foi, Ramteerth arrancou, subitamente, suas vestes de cor laranja. Poorn indagou: - “Que é isso? Eu estava observando e vi que ficaste um pouco perturbado; senti que não eras tu mesmo.”

O outro respondeu: - “É por isso que estou arrancando estas roupas. Encontrei tantas mulheres e nunca me perturbei. Nada há de especial nessa mulher - a não ser que ela é minha esposa. Esse “minha” ainda está presente. Não sou digno de usar estas roupas. Não renunciai ao “minha”, renunciei apenas à esposa. A esposa não é o problema; nenhuma outra mulher me perturbou, mas chega a minha mulher - mulher comum como qualquer outra - e, de repente, fico perturbado. A ponte ainda está aí.” Morreu vestido com roupas comuns, jamais usou as de cor laranja. Dizia: - “Não sou digno.”

Tilopa não dirá que renuncies à tua esposa, a teu filho, aos teus parentes. Não. Ele está dizendo que renuncies às pontes, que as deixes e isso é um problema teu, nada tem a ver com tua esposa. Se ela continua a pensar em ti como seu marido, é problema dela, não teu. Se o filho continua a pensar que és seu pai, isso não é problema, ele é uma criança que precisa amadurecer.

Eu te digo: Tilopa se refere à renúncia quanto aos sonhos interiores, às pontes, ao mundo interior.

.. e medita em bosques e montanhas. 

E, com isso, também não está dizendo que fujas para os bosques e montanhas. Houve quem o interpretasse assim e muitos fugiram de suas esposas e filhos e foram para as montanhas - coisa absolutamente errada. O que Tilopa está dizendo é mais profundo, não é tão superficial, porque podes ir para a montanha e permanecer na praça pública. A questão é a tua mente. Podes sentar-te no Himalaia e pensar na praça pública, em tua esposa, em teus filhos e no que estará acontecendo a eles.

Isto aconteceu: um homem renunciou à sua esposa, filhos família e veio a Tilopa para ser iniciado como seu discípulo. Tilopa estava estagiando num templo fora da cidade. O homem veio. Quando entrou estava sozinho e Tilopa também estava sozinho. Tilopa olhou em torno dele e disse: - “Vieste, está bem, mas por que essa multidão?” O homem também olhou para trás, porque ali não havia ninguém. Tilopa disse: - “Não olhes para trás! Olha para dentro! - a multidão está aí.” O homem fechou os olhos e a multidão ali estava: sua esposa chorava ainda, seus filhos estavam chorosos e tristes, tinham permanecido na fronteira da cidade, ponto até onde o haviam acompanhado - amigos, família, outras pessoas, todos estavam ali. E Tilopa disse: - “Vai-te embora; deixa a multidão. Eu inicio pessoas, não multidões.”

Não; Tilopa não dirá que renuncies ao mundo e vás para a montanha. Ele não é tão tolo. Não pode dizer isso - é um homem Desperto. O que ele quer dizer é o seguinte: que renuncies aos teus sonhos, às pontes, aos relacionamentos - não às relações; se renuncias à tua mente vais encontrar-te, de repente, nos bosques e nas montanhas. De repente, estás sozinho. Só tu estás ali, mais ninguém.

Podes estar na multidão e sozinho, e podes estar sozinho e na multidão. Podes estar no mundo, e não ser do mundo. Podes estar no mundo, e pertencer aos bosques e montanhas.

Esse é um fenômeno interior. Há bosques e montanhas interiores; Tilopa não pode dizer nada sobre montanhas e bosques externos, porque eles também são sonhos. Um Himalaia é um sonho, tanto como a praça do mercado em Poona, porque um Himalaia é um fenômeno externo, como o é a praça do mercado. Os bosques também são sonhos. Precisas entrar no interior - ali é que a realidade está. Tens que entrar cada vez mais na profundeza de teu ser; então chegarás ao Himalaia verdadeiro, alcançarás os verdadeiros bosques do teu ser, chegarás aos picos e vales do teu ser, às alturas e profundidades do teu ser.

Osho

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