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sábado, 23 de abril de 2016

Não sabemos o que significa amar


Temos de morrer para tudo, para cada dia, para todas as relações. Reflita bem nisso, para ver o que implica. Se você não morre para as suas relações, seja com sua mulher, seja com seus filhos ou seu patrão, continuará meramente num hábito; e todo hábito embota a mente, a torna insensível, incapaz de criar. Por essa razão, você está sempre com medo da morte, porque a morte é algo desconhecido. Você não pode apreende-la com a mente, com o pensamento. Não pode apreender o amor com o pensamento, nem pode cultivar o amor com o pensamento. Só pode compreender o amor e saber o que significa amar, quando morre para o ciúme, para a estreita esfera da família, quando o pensamento não dita as ações da vida. Quando você ama, pode fazer tudo o que deseja fazer, porque a vida é sem conflito. 

A mente que é ambiciosa, ávida, invejosa, desejosa de autoridade - essa mente não tem amor, embora fale muito de amor, com os políticos, os gurus, que estão sempre e sempre falando em amor, com o coração vazio, e cheios de conflitos e de ardentes desejos; nunca há um momento em que, dentro deles próprios, tudo esteja morto, a sua mente esteja inteiramente vazia. Só quando a mente está completamente vazia, é possível compreender essa coisa extraordinária chamada "amor". Quando você diz "Amo meu marido, amo meu filho", não ama; porque, se o marido ou a mulher lhe vira as costas, você sente ciúme, sente cólera, amargor. É isso o que você chama "amor". O amor não tem apego. E, portanto, amor não significa "amor à família".

Assim, para se compreender essa coisa extraordinária chamada "amor", é necessária a compreensão do tempo. E para se saber o que é o amor, deve haver a morte — morte para tudo que você tem acumulado, do contrário, não pode ter uma mente nova. Você necessita de uma mente nova, uma mente jovem, uma mente inocente, porque o mundo está marchando com muita rapidez e você não terá possibilidade de compreendê-lo, se dele não se aproximar com uma mente fresca, nova, inocente. Se você se aproxima como discípulo, como hinduísta, ou como católico, ou com as tolices que cada um leva consigo, como poderá compreender essa coisa extraordinária e tão vasta que se chama "a vida"? Para compreender a imensidade da vida, você deve morrer todos os dias para tudo o que conhece. Daí, então, é possível estar em intimidade com a morte. Quando não há medo de espécie alguma, há então amor. Não se divide então o amor em "mundano" e "espiritual"; só há amor. E, se você não ama, não importa o que faça, nunca resolverá os problemas do mundo, nem seus próprios problemas.

O amor implica afeto — afeto por seus filhos, para que recebam a educação correta, alimentação correta, roupas adequadas; afeto para com os seus servidores, se os possui. Mas, neste país ninguém conhece afeto; todos estão cheios de ideias, de especulações, de ideais e prontos para discutir interminavelmente sobre o que deve ser o amor, cintar incontáveis livros; mas não sabem o que significa amar. Amor significa afeto, e você não pode ter afeto se está competindo, se está comparando, se está educando seus filhos por meio da competição. Por conseguinte, só pode haver amor quando há esse extraordinário afeto em relação a tudo que está fazendo — também o que está fazendo no escritório, porque seu emprego não difere da vida. É um emprego "detestável", porém é sua vida; não pode eliminá-lo de sua vida. Nele você passa quarenta anos e deve, portanto, exercê-lo com afeto — no que você faz, no que pensa, no que sente, no que ordena.

Se você não sabe o que é o amor, morre como um ente humano lastimável, sem conhecer aquela imensidade que se chama a "vida". E, no conhecer a plenitude da vida, encontra-se a plenitude do "desconhecido". Só a mente que percebeu o significado do tempo, da morte e do amor — os três estão relacionados entre si — só essa mente pode "explodir" no "desconhecido".

Jiddu Krishnamurti em, Uma Nova Maneira de Agir

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Você foi iludido pelo que chamam de educação


Na sociedade é muito difícil de encontrar seres humanos que lhe deem liberdade para ser você mesmo. Isso criou um mundo de retardados. As nações necessitam de idiotas.[...] Toda a estrutura da sociedade foi construída de maneira que algumas poucas pessoas explorem milhões de outras.[...]

Toda história da humanidade tem sido um desastre. E a menos que comecemos a nos revoltar como indivíduos, abandonando todas as nacionalidades, todas as religiões, todas as raças, e declaremos que todo este globo nos pertence e que todas as linhas do mapa são fictícias e falsas... A menos que indivíduos comecem a mudar todo o sistema educacional... O sistema educacional deveria ensinar-lhe a arte de viver, deveria ensinar-lhe a arte de amar, deveria ensinar-lhe a arte de meditar, deveria ensinar-lhe a arte de morrer gloriosamente. O seu sistema de educação não é educacional. Ele cria apenas balconistas, chefes de estação, carteiros, soldados, e você chama isso de educação. Você foi iludido, mas a fraude é tão antiga que você a esqueceu completamente. E você continua na mesma velha rotina. 

Eu levanto minha mão contra todo o passado da humanidade. Ele não foi civilizado, não foi humano, não foi, de maneira alguma, um auxílio para que as pessoas florescessem. O passado não foi uma primavera. Foi uma calamidade. Um crime cometido em uma escala tão vasta... Mas alguém tem que se levantar contra isso. E alguém tem que insistir no fato de que nós repudiamos nosso passado. E nós começaremos a viver de acordo com nosso próprio ser interior e criaremos nosso próprio futuro. Não permitiremos que o passado crie o futuro. 

[...] Todas essas pessoas que criaram esta humanidade retardada, eliminaram toda a essência, toda a risada, todos os sorrisos, e forçaram todos a serem inautênticos, insinceros, você jamais pode desenvolver a semente que lhe foi dada por este imenso universo cheio de compaixão. 

[...] A vida não deveria ser uma coisa séria. Ela deveria ser uma profunda brincadeira, uma diversão. E cada indivíduo deveria ter liberdade absoluta de ser ele mesmo. A única restrição seria que ninguém pode interferir na esfera de vida de outro indivíduo. Pode ser a sua esposa, pode ser o seu marido, pode ser o seu filho, não importa. Um imenso respeito pelo indivíduo, para mim, é o âmago, a essência da verdadeira religiosidade. Seja você mesmo e deixe que os outros sejam eles mesmos, e esta vida, este planeta podem ser tornar o paraíso de lótus, aqui e agora. 

[...] Limpe a si mesmo, torne-se Adão e Eva novamente. E desobedeça a Deus novamente. Somente então há uma possibilidade de que essa visão se torne uma realidade. Não se preocupe com o mundo inteiro. Se pudermos criar a ideia de revolta em uma pequena minoria no mundo, isso será o suficiente. Uma única semente pode tornar a terra inteira verde. E um único homem, revoltando-se, pode criar um mundo totalmente novo, uma humanidade totalmente nova. Eu não estou envolvido em qualquer revolução organizada porque todas as organizações basicamente destroem o indivíduo. Eu estou a favor do indivíduo, da sua dignidade, e não existe ninguém que esteja acima do indivíduo; temos que dar este tremendo salto quântico, da vida organizada para o florescimento do indivíduo.[...] E se a chama da individualidade se espalhar, ela pode se tornar um fogo generalizado porque, bem no fundo, cada indivíduo está sofrendo. Ele quer se revoltar contra tudo aquilo que tem sido reprimido, tudo aquilo que lhe foi imposto.

Osho

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A educação é uma fábrica de conformistas


[...]Na sala, com sua varanda sobranceira ao rio, que corria uns trinta pés abaixo, um grupo de pais sentara-se no chão sobre um tapete limpo. Todos bem alimentados, trigueiros, asseados, possuíam um ar de fátua respeitabilidade. Tinham vindo como pais para falar sobre o seu relacionamento com os filhos e sobre a educação dos filhos. Nessa parte do mundo a tradição é ainda muito forte. Deviam ter sido todos bem educados, ou melhor, tinham granjeado alguns diplomas em universidades e, no seu entender, ótimos empregos. O respeito estava entranhado neles, não só pelos seus superiores hierárquicos, mas também pelas pessoas religiosas. Isso faz parte dessa hedionda respeitabilidade. O respeito se associa invariavelmente ao desrespeito, à total desatenção pelas pessoas situadas abaixo deles. 

Um deles disse:

— Como pai, eu gostaria de falar sobre meus filhos, sua educação e o que vão fazer. Sinto-me responsável por eles. Minha esposa e eu os educamos com muito cuidado, com tanto cuidado quanto nos foi possível, dizendo-lhes o que deviam e o que não deviam fazer, guiando-os, afeiçoando-os, ajudando-os. Mandei-os para cá, para esta escola e estou preocupado com o que vai acontecer-lhes. Tenho duas filhas e dois filhos. Como pais, minha esposa e eu fizemos o melhor possível e o melhor talvez não baste. Sabeis, senhor, que há uma explosão da população, os empregos estão-se tornando mais difíceis, os padrões educacionais mais baixos, e os universitários entraram em greve porque não querem padrões mais altos de exames. Querem notas fáceis; na verdade, não querem trabalhar nem estudar. Por isso estou preocupado e pergunto a mim mesmo como eu, ou a escola, ou a universidade, poderemos preparar meus filhos para o futuro. 

Outro acrescentou: 

— Este é precisamente o meu problema. Tenho três filhos; os dois meninos estão aqui na escola. Passarão, sem dúvida, em alguma espécie de exame, ingressarão na universidade, e os diplomas que obtiverem nem sequer se aproximarão dos padrões europeus ou americanos. Mas são crianças inteligentes e sinto que a educação que vão receber, não nesta escola, porém mais tarde, lhes destruirá o brilho dos olhos e a vivacidade do coração. Todavia, é preciso que consigam um diploma a fim de encontrar um modo de vida qualquer. Fico extremamente perturbado ao observar as condições deste país, a superpopulação, a pobreza esmagadora, a total incapacidade dos políticos e o peso da tradição. Tenho de casar minha filha; ela deixará o assunto inteiramente aos meus cuidados, pois como poderá saber com quem deve casar? Preciso escolher um marido que lhe convenha e que, com a ajuda de Deus, tenha um diploma e encontre um bom emprego em algum lugar. Não é fácil e estou muito preocupado. 

Os três outros pais concordaram; assentiram com um movimento solene da cabeça. Suas panças estavam cheias; eram hindus até ao âmago, encharcados de mesquinhas tradições e superficialmente preocupados com os filhos. 

Condicionastes com muito cuidado vossos filhos, embora talvez sem compreender a fundo o problema. Não somente vós mas também a sociedade, o meio, a cultura em que foram educados, tanto econômica quanto social, os alimentaram e afeiçoaram segundo determinado padrão. Eles passarão pela experiência da chamada educação. Se tiverem sorte, lograrão um emprego através das vossas manipulações e se instalarão em seus larezinhos com esposas e maridos igualmente condicionados, para levar uma vida monótona e insípida. Mas, afinal de contas, é isso o que desejais — uma posição segura, um casamento para que eles se tornem promíscuos, tendo a religião por ornamento. A maioria dos pais o deseja, não é verdade? — um lugar seguro na sociedade, embora seja uma sociedade corrupta, como eles mesmos estão cansados de saber em seus corações. Isto é o que desejais e para isso criastes escolas e universidades. Dais-lhes certos conhecimentos tecnológicos, que lhes assegurarão a subsistência, e esperais pelo melhor, esquecendo o resto do problema humano ou fechando propositadamente os olhos para ele. Estais preocupado com um fragmento e não tomais em consideração os muitos fragmentos da existência humana. Na realidade, não quereis preocupar-vos, não é assim? 

— Não somos capazes disso. Não somos filósofos, não somos psicólogos, não somos especialistas para examinar as complexidades da vida. Fomos treinados para ser engenheiros, médicos, profissionais liberais e havemos mister todo o nosso tempo e energia para atualizar-nos porque muitas coisas novas estão sendo descobertas. Pelo que dissestes, quereis que sejamos proficientes no estudo de nós mesmos. Não temos tempo, nem inclinação, nem interesse. Passo a maior parte das minhas horas, como todos aqui, num escritório, numa construção ou num consultório. Só podemos especializar-nos num campo e fechar os olhos para o resto. Não nos sobra tempo sequer para ir ao templo: deixamos essa tarefa para as mulheres. Quereis provocar uma revolução, não só em religião mas também em educação. Nisso não podemos ajudar-vos. Eu talvez gostasse de fazê-lo, mas não tenho tempo. 

A gente fica a imaginar se realmente não tendes tempo. Dividistes a vida em especialidades. Separastes a política da religião, a religião dos negócios, o homem de negócios do artista, o profissional do leigo, e assim por diante. Essa divisão é que está atrapalhando, não só no campo da religião mas também no da educação. Vossa única preocupação é fazer que vossos filhos tenham um diploma. A competição está-se acirrando; neste país os padrões da educação estão sendo abaixados e continuais teimando em que não tendes tempo para considerar o conjunto da existência humana. É o que quase toda a gente diz com palavras diferentes. E, portanto, sustentais uma cultura em que haverá uma competição cada vez maior, maiores diferenças entre os especialistas e mais conflito humano e tristeza. É a vossa tristeza, não a tristeza alheia. No entanto, alegais falta de tempo e vossos filhos repetirão a mesma coisa. No Ocidente há revolta entre os estudantes e os jovens; a revolta é sempre contra alguma coisa, mas os que se revoltam são tão conformistas quanto os que lhes inspiram a revolta. Quereis que vossos filhos se conformem: toda a estrutura religiosa e econômica se baseia nessa conformidade. Vossa educação zela por que eles se conformem. Porque esperais, através da conformidade, não ter problemas, acreditais que os problemas só surgem quando há perturbação, mudança. Não percebeis que não é a mudança que gera problemas, mas a própria conformidade. Receais que qualquer alteração do padrão produza o caos, a confusão e, portanto, condicionais vossos
filhos a aceitar as atividades tradicionais; condicionai-los a conformar-se. Os problemas nascidos dessa conformidade são inúmeros. Toda revolução física começa quebrando o padrão físico da conformidade, como na Rússia e na China. Cada qual acredita que, por efeito da sua conformidade, haverá segurança. Com o movimento de conformidade vem a autoridade. Tal como é agora, a educação ensina os jovens a obedecer, a aceitar e a seguir, e os que se revoltam contra isso têm seu próprio padrão de obediência, aceitação e subserviência. Com o aumento da população e com o rápido crescimento da tecnologia, vós, os pais, vos vedes presos numa armadilha de problemas crescentes e incapazes de resolvê-los. A todo esse processo chamais educação. 

— O que dizeis é perfeitamente verdadeiro. Estais expondo um fato, mas que haveremos de fazer? Colocai-vos em nosso lugar. Engendramos filhos, nossos apetites são muito fortes. Nossas mentes foram condicionadas pela cultura em que nos criaram, como hindus ou maometanos e, diante desse enorme problema da vida — que é enorme — viver segundo a vossa sugestão, como seres humanos completos, integrais, é desconcertante. Estamos comprometidos, temos de ganhar a vida, temos responsabilidades. Não podemos retroceder e recomeçar. Estamos realmente presos numa armadilha, como dizeis. 

Mas podeis zelar por que vossos filhos não caiam na armadilha. Essa é a vossa responsabilidade: não os empurrar, através de exames estúpidos, mas diligenciar, como pais, para que, desde a infância, eles não se vejam enredados nos laços armados por vós e pelas gerações passadas. Dai um pouco do vosso tempo à tarefa de mudar o meio, a cultura; fazei que surjam as espécies certas de escolas e universidades. Não encarregueis disso o governo. O governo é tão remisso quanto vós, tão indiferente, tão insensível. Em vez de perpetuar o padrão da cilada, vossa responsabilidade reside em velar por que não haja cilada. Tudo isso significa que deveis estar despertos, não só em vossa profissão ou carreira particulares mas para o imenso perigo de perpetuar a armadilha. 

— Vemos o perigo mas parecemos incapazes de agir, até mesmo quando o vemos. 

Vedes o perigo verbal e intelectualmente, e à visão chamais perigo, o que na realidade não é. Quando o vedes de fato, não teorizais a respeito dele. Não se opõe dialeticamente uma opinião a outra: se vísseis, com efeito, a verdade do perigo, como vedes o perigo de uma cobra agiríeis. Mas recusais-vos a vê-lo porque isso significaria ter de despertar. Há perturbações e elas vos assustam. É o que vos leva a dizer que não tendes tempo, o que obviamente não é verdade.

Dessarte, como pais preocupados, deveis estar total e completamente empenhados em que vossos filhos não caiam na armadilha: por conseguinte criareis diferentes escolas, diferentes universidades, políticas diferentes, maneiras diferentes de conviver, o que quer dizer que precisais cuidar de vossos filhos. O cuidado dos filhos supõe o tipo certo de comida, o tipo certo de roupas, o tipo certo de livros, o tipo certo de divertimentos, o tipo certo de educação; e, portanto, vos preocupais com o tipo certo de educador. O educador é o que menos respeito vos merece. O vosso respeito se dirige para os que têm dinheiro, posição e prestígio, e desprezais de todo o educador, que tem a responsabilidade da geração vindoura. O educador necessita de educação tanto quanto vós, os pais, necessitais dela. 

O sol estava começando a esquentar, as sombras faziam-se mais densas, a manhã se escoava. Debaixo do céu já menos azul, as crianças brincavam no campo, libertas das aulas, das lições repetitivas e da insipidez dos livros.
Jiddu Krishnamurti - Conversações com os pais e com o pessoal de Brockwood Park
Extraído do livro: O Começo do Aprendizado

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Educar o educador

[...]Através do mundo todo vem se tornando cada vez mais evidente que o educador precisa se educar. Não se trata de educar a criança, mas antes o educador porque ele precisa disso muito mais do que o estudante. Afinal de contas, o estudante é como uma planta tenra que requer orientação, ajuda; mas se o ajudante é ele próprio incapaz, estreito, intolerante, nacionalístico e tudo mais, naturalmente o seu produto será o que ele é. Assim, parece-me que a coisa mais importante não é tanto a técnica do ensinar, mas a inteligência do próprio educador.

Em todo o mundo, a educação tem falhado, porque produziu as duas mais colossais e destruidoras guerras da história. Desde que ela falhou, substituir meramente um sistema por outro parece-me completamente fútil, mas se existe a possibilidade de mudar o pensamento, o sentimento e a atitude do professor, então, talvez possa haver uma nova cultura, uma nova civilização. Em meio a todo este caos, miséria, confusão e luta, seguramente a responsabilidade do professor — seja ele um empregado do governo, um instrutor religioso ou apenas um professor de informação — é extraordinariamente grande.

Assim, nosso problema não é tanto a criança — o menino ou a menina — mas o professor, o educador. E educar o educador é muito mais difícil do que educar a criança, porque o educador já está conformado e fixado. Ele funciona dentro de uma rotina porque não está realmente preocupado com o processo do pensamento, com o cultivo da inteligência. Ele está somente fornecendo informação e o homem que simplesmente dá informação quando o mundo todo está desabando à sua volta seguramente não é um educador. Isto significa que a educação é um meio de vida? Encará-la como um meio de vida, explorar as crianças em proveito próprio parece-me contrário ao propósito real da educação.

É possível proporcionar o ambiente certo, as ferramentas necessárias e tudo mais, porém o importante é o educador descobrir o que significa toda esta existência. Porque vivemos, lutamos, educamos, porque existem guerras, discórdia permanente entre homem e homem? Estudar todo este problema e pôr nossa inteligência em ação é seguramente a função de um verdadeiro mestre.

O professor que não pede nada para si mesmo, que não usa o ensino como meio de adquirir posição, poder ou autoridade; o professor que está realmente ensinando não para o lucro, não segundo uma certa linha, mas que está se dedicando, crescendo, despertando a inteligência na criança porque está cultivando a inteligência em si mesmo — tal professor tem o lugar principal na civilização. Afinal todas as grandes civilizações têm estado baseadas em professores, não em engenheiros e técnicos. Os engenheiros e técnicos são absolutamente necessários, mas aqueles que despertam a inteligência moral e ética são obviamente de primordial importância. Eles só podem ter integridade moral, estar livres do desejo de poder, posição e autoridade quando não pedem nada para si mesmos, quando estão além e acima da sociedade, não estão sob o controle dos governos e são livres da compulsão da ação social que é sempre ação segundo um padrão.

O professor precisa estar além dos limites da sociedade e de suas exigências para ser capaz de criar uma nova cultura, uma nova estrutura, uma nova civilização; mas atualmente estamos apenas preocupados com a técnica de como educar um menino ou uma menina sem cultivar a inteligência do professor — o que me parece completamente fútil. Estamos agora principalmente preocupados aprender uma técnica e aplicar esta técnica à criança e não com o cultivo da inteligência, que a ajudará a lidar com os problemas da vida.

Quando respondo estas questões, espero que tenham paciência comigo se não entrar em detalhes e sim lidar primariamente não com a técnica, mas com a abordagem correta do problema.

Interlocutor. Que papel pode a educação desempenhar na presente crise mundial?

Krishnamurti: Encarando tanto as causas quanto as conseqüências da guerra, da atual crise social e moral, naturalmente começamos a perceber que a função da educação é criar novos valores, não meramente implantar os valores existentes na mente do aluno, que simplesmente o condiciona sem despertar sua inteligência. Mas quando o próprio educador não enxergou as causas do presente caos, como pode ele criar novos valores, despertar a inteligência, impedir as novas gerações de seguir os mesmos passos, que levam em última instância a novos desastres? Seguramente é importante para o educador não simplesmente implantar certos ideais e transmitir apenas informação mas empenhar todo o pensamento, todo o cuidado, toda a afeição para criar o ambiente certo, a atmosfera certa, de maneira que quando a criança chegar à maturidade seja capaz de lidar com qualquer problema humano que surja. Assim, a educação está intimamente relacionada à presente crise mundial e todos os educadores pelo menos na Europa e na América, estão se dando conta de que a crise é conseqüência da educação errada. A educação só pode ser transformada educando o educador e não meramente criando um novo padrão, um novo sistema de ação.

Interlocutor: Os ideais têm lugar na educação?

Krishnamurti: Certamente não. Os ideais e o idealista em educação impedem a compreensão do presente. É um enorme problema tentar lidar com isto em cinco ou dez minutos; é um problema sobre o qual nossa estrutura inteira está baseada, isto é, temos ideais e educamos de acordo com estes ideais. Não é verdade que os ideais impedem a correta educação que é a compreensão da criança como ela é e não como deveria ser? Se quero entender uma criança não devo ter um ideal do que ela deveria ser. Para compreendê-la devo estudá-la como ela é. Colocá-la dentro da moldura de um ideal é meramente forçá-la a seguir um certo padrão, sirva-lhe ou não; e o resultado é que ela está sempre em contradição com o ideal ou então conforma-se tanto com ele que deixa de ser um ser humano e age como um mero autômato sem inteligência.

Portanto, não é o ideal um verdadeiro obstáculo para a compreensão da criança? Se você como pai realmente quer compreender seu filho você olha para ele através do véu de um ideal? Ou simplesmente o estuda porque tem amor no coração? Você o observa, observa seus humores, suas idiossincrasias. Porque existe amor, você o estuda. É somente quando não existe amor que há ideal. Observe-se e notará isto. Quando não há amor você tem estes enormes exemplos e ideais, através dos quais você força, compele a criança. Mas quando existe amor, você a estuda, observa e lhe dá a liberdade de ser o que é; você a orienta e ajuda, não em direção ao ideal, não de acordo com um certo padrão de ação, mas para fazê-la ser o que é.

Afinal, a função da educação é produzir um indivíduo integrado que é capaz de lidar com a vida inteligentemente - de maneira completa, não parcialmente como um técnico ou um idealista. Mas o indivíduo não pode ser integrado se estiver meramente perseguindo um padrão idealístico de ação. Obviamente os professores que se tornam idealistas são assaz inúteis. Ao observar verá que eles são incapazes de amor: têm corações duros e mentes áridas porque requer muito maior observação, maior afeição estudar e observar a criança do que forçá-la a um padrão idealístico de ação. Penso que meros exemplos que são outra forma de ideal, são também um estorvo à inteligência.

Provavelmente o que estou dizendo é contrário a tudo o que você acredita. Será preciso pensar sobre isto porque não é uma questão de recusa ou aceitação. É preciso penetrar nisto muito, muito cuidadosamente.

Interlocutor: É possível a educação na criatividade? Ou é a criatividade puramente acidental e, portanto nada pode ser feito para facilitar sua emergência?

Krishnamurti: Para formular de outra maneira a questão é se aprendendo uma técnica você será criativo, isto é, aprendendo a técnica de pintar você será um artista? A criatividade surge através da técnica ou a criatividade é independente da técnica? Você pode ir a uma escola e aprender tudo o que há para saber sobre pintura, sobre a profundidade da cor, a técnica de como segurar o pincel e tudo mais. Isto fará de você um pintor criativo? Ao passo que se você é criativo então tudo o que fizer terá a sua própria técnica. Uma vez fui ver um grande artista em Paris que não tinha aprendido uma técnica; ele desejava dizer algo e o dizia em argila, e também em mármore. A maioria de nós aprende a técnica, mas tem muito pouco a dizer. Negligenciamos, descuidamos a capacidade de descobrir por nós mesmos; temos todos os instrumentos da descoberta, mas não descobrimos nada diretamente. Assim, o problema é como ser criativo, o que engendra sua própria técnica.

Quando você deseja escrever um poema, o que acontece? Você o escreve. Se tem uma técnica, tanto melhor; mas se não tem, não importa: você escreve o poema e o deleite está no escrever. Afinal quando você escreve uma carta de amor, não está preocupado com a técnica, escreve com todo seu ser. Mas quando não há amor no seu coração você busca uma técnica, como colocar as palavras juntas. Se não ama você perdeu o principal. Você pensa que será capaz de viver feliz, criativamente, aprendendo uma técnica e é ela que destrói a criatividade — o que não significa que você não precisa dela. Afinal de contas quando se quer escrever um poema com beleza é preciso conhecer métrica e tudo mais. Mas se desejar escrevê-lo para si mesmo e não para publicar, então não tem importância: você escreve. Apenas quando se deseja comunicar algo a outro a técnica adequada é necessária, a técnica correta, para que não haja mal-entendido.

Mas seguramente ser criativo é um problema completamente diferente e requer uma extraordinária investigação de si mesmo. Não é urna questão de dom. Talento não é criatividade. Pode-se ser criativo sem ter talento. Assim o que queremos dizer com criatividade? Para penetrar nisto completa e profundamente é preciso entrar totalmente no problema da consciência. Afirmo que todos nós podemos ser criativos no verdadeiro sentido da palavra, não meramente produzir poemas e estátuas ou procriar. Certamente ser criativo significa estar naquele estado em que a verdade pode surgir. E a verdade pode surgir apenas quando se dá a completa cessação do processo do pensamento. Quando a mente está completamente quieta, sem estar compelida, forçada em direção a um certo padrão de ação; quando a mente está realmente quieta, não compelida, então, neste estado a verdade pode surgir. Esse estado é criação e criação não é para poucos, não é o talento ou o dom de poucos. Aquele estado criativo pode ser descoberto por quem quer que entregue a mente e o coração a estudar o problema.

Interlocutor. Quem você chamaria de professor perfeito?

Krishnamurti: Obviamente não o professor que tem um ideal, nem o que está tendo lucro em ensinar, nem o que construiu uma organização, nem o que é instrumento do político, nem o que está confinado a uma crença ou a um país. O mestre perfeito, certamente, é aquele que não pede nada para si mesmo, que não está preso na política, no poder, em posições, não pede nada para si mesmo porque interiormente é rico. Sua sabedoria não está nos livros, sua sabedoria está no experimentar e o experimentar não é possível se ele está buscando um fim. O experimentar não é possível para quem o resultado é mais importante que os meios; para aquele que quer mostrar que produziu muitos alunos que passaram brilhantemente nos exames e obtiveram mestrados e bacharelados de 1ª classe ou o que quer que seja. Obviamente como a maioria de nós quer um resultado, dedicamos escassa atenção aos meios empregados e, portanto nunca podemos ser professores perfeitos.

Um professor que é perfeito deve estar além e acima do controle da sociedade. Ele deve ensinar e não lhe dizerem o que ensinar, o que significa que ele não deve ter posição na sociedade, não deve ter autoridade na sociedade porque no momento em que tem autoridade ele é parte da sociedade e como a sociedade está sempre se desintegrando, um professor que é parte da sociedade nunca pode ser um mestre perfeito. Ele deve estar fora dela, o que significa não pedir nada para si mesmo; por conseguinte a sociedade deve ser tão esclarecida que suprirá suas necessidades. Mas nós não queremos tal sociedade nem tais professores. Se nós tivéssemos tais professores então a sociedade atual estaria em perigo. A religião não é crença organizada; a religião é a busca da verdade que não pertence a nenhum país, a nenhuma crença organizada, não está em nenhum templo, igreja ou mesquita. Sem a busca da verdade nenhuma sociedade pode existir por muito tempo e enquanto existir está fadada a produzir desastre.

Certamente o professor não é um simples distribuidor de informação; o professor é alguém que aponta o caminho para a sabedoria. E aquele que aponta o caminho para a sabedoria não é o guru. A verdade é muito mais importante que o professor; portanto quem está em busca da verdade deve ser simultaneamente estudante e professor. Em outras palavras você deve ser o perfeito professor para criar uma nova sociedade e para engendrar o perfeito professor você deve compreender a si mesmo. A sabedoria começa com o autoconhecimento e sem autoconhecimento a mera informação leva à destruição. Sem autoconhecimento o avião torna-se o mais destrutivo instrumento da vida, mas com autoconhecimento é um meio de ajuda humana. Assim o professor deve ser alguém que não está preso nas garras da sociedade, não joga o jogo do poder dos políticos, não procura posição ou autoridade. Ele descobriu em si mesmo aquilo que é eterno e por isso é capaz de compartilhar este conhecimento que ajudará outro a descobrir seus próprios meios de iluminação.

Jiddi Krishnamurti
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"É porque se espalha o grão que a semente acaba
por encontrar um terreno fértil."-
Júlio Verne


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"A aventura é, sempre e em todos os lugares, uma passagem pelo véu que separa o conhecido do desconhecido; as forças que vigiam no limiar são perigosas e lidar com elas envolve riscos; e, no entanto, todos os que tenham competência e coragem verão o perigo desaparecer." — Joseph Campbell em, O Herói de Mil Faces

"Acredito que o maior presente que alguém me pode dar é ver-me, ouvir-me, compreender-me e tocar-me. O maior presente que eu posso dar é ver, ouvir, entender e tocar o outro. Quando isso acontece, sinto que fizemos contato" — Virginia Satir

"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti