Mostrando postagens com marcador condicionamento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador condicionamento. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de maio de 2016

O condicionamento familiar


A família é a causa raiz de todas as neuroses. Nós temos que entender a estrutura psicológica da família, o que ela causa à consciência humana.

A primeira coisa é: ela condiciona a criança a certa ideologia religiosa, a um dogma político, a alguma filosofia, a alguma teologia. E a criança é tão inocente, tão receptiva, tão vulnerável que ela pode ser explorada. Ela ainda não pode dizer não, e mesmo que soubesse dizer não, não diria porque ela é muito dependente de sua família, absolutamente dependente. Ela é tão desamparada que tem que concordar com a família, com qualquer tipo de insensatez que a família queira que ela concorde. A família não ajuda a criança a perguntar; dá-lhe crenças e crenças são venenosas. Uma vez que a criança se torna sobrecarregada de crenças, suas perguntas se tornam enfraquecidas, paralisadas, suas asas são cortadas. Quando ela se tornar capaz de perguntar ela estará tão condicionada que se moverá a cada investigação com um certo preconceito – e com preconceito sua investigação não será autêntica. Você já está carregando uma conclusão a priori; está simplesmente buscando provas para apoiar sua conclusão inconsciente. Você se torna incapaz de descobrir a verdade.

Por isso existem tão poucos buddhas no mundo: a causa raiz é a família. Toda criança nasce um buddha, vem com o potencial para alcançar a suprema consciência, para descobrir a verdade, para viver uma vida de benção. Mas a família destrói todas essas dimensões; faz dela um ser totalmente plano.

Cada criança vem com uma tremenda inteligência, mas a família a faz medíocre, porque viver com uma criança inteligente é problemático. Ela duvida, ela é cética, ela pergunta, ela é desobediente, ela é rebelde. E a família quer alguém que seja obediente, pronto para seguir, imitar. Por isso desde o início a semente da inteligência tem que ser destruída, quase que completamente exterminada, para que não haja nenhuma possibilidade de algum broto florescer dela. 

É por milagre que poucas pessoas como Zarathustra, Jesús, Lao-Tzu, Buddha, escaparam da estrutura social, do condicionamento familiar. Eles parecem ser grandes picos de consciência, mas de fato cada criança nasce com a mesma qualidade, com o mesmo potencial.

Noventa e nove ponto nove por cento das pessoas podem se tornar buddhas -- apenas a família tem que desaparecer. Senão haverão cristãos, maometanos, hindus, jainas budistas, mas não Buddhas, não Maomés, não Mahaviras, isto não será possível. Maomé se rebelou contra suas bases e Jesus se rebelou contra suas bases. Estes são todos rebeldes – e a família é absolutamente contra o espírito rebelde.

A humanidade está passando por uma fase muito crítica. Tem que ser decidido se nós queremos viver de acordo com o passado ou se nós queremos viver um novo estilo de vida. C h e g a !. Nós tentamos o passado e seus padrões e todos eles falharam. Já é tempo, amadurecido, de sair fora das garras do passado e criar um novo estilo de vida na terra. Para mim, um estilo alternativo é a comunidade – é o melhor.

OSHO - Filosofia Última...ch.3

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Deixando de funcionar por "padrões de repetição"

Creio que a maioria de nós percebe a necessidade de uma revolução radical de que resulte uma nova dimensão do pensamento, isto é, que comecemos a pensar num nível completamente diferente, pois, de modo nenhum podemos continuar como estamos, e sempre estivemos, ou seja, repetindo um padrão e "funcionando" dentro de seus limites. O comportamento ou conduta restrita a um conceito — seja o chamado conceito religioso ou político, seja do centro, da extrema esquerda, ou da extrema direita — o funcionar dentro de um padrão constitui uma continuidade do que foi; e penso que a maioria de nós está bem consciente de que essa "revolução de repetição" , não é verdadeira revolução. 

Observa-se no mundo — talvez melhor ainda neste país — a deterioração que está invadindo todos os níveis de nossa existência. E, observando esse fenômeno, sem emoção nem sentimentalidade, somos naturalmente levados a investigar  se não existirá um caminho diferente, uma maneira diferente de considerar o problema da existência e das relações humanas, se não haveria a possibilidade de uma revolução que projete todo o processo do pensar numa dimensão inteiramente nova. Em primeiro lugar, acho que à maioria de nós, tanto aqui como fora daqui, no mundo, se apresenta bem clara a necessidade de uma mudança profunda, radical, no comportamento humano, nas relações humanas e, por conseguinte, no pensar humano. 

Mas, como, de que maneira e em que nível irá realizar-se essa revolução? Veja o que está ocorrendo neste país: industrialmente, talvez esteja progredindo muito; cientificamente, um pouco atrasado, bastante à retaguarda, quem sabe, do Ocidente; mas, moral, intelectual e religiosamente, acha-se estagnado. Não estou dizendo nada de estranho, nada de injurioso, pois se trata de um fato óbvio, cotidiano. E observa-se, também, que a mente, o próprio cérebro se tornou mecânico e, por conseguinte, repetitivo: ensine-se a ele um certo padrão de comportamento, certas normas de conduta, certas atitudes, desejos, ambições, etc., e ele ficará funcionando dentro desse canal, desse padrão. Observa-se tudo isso — não vamos entrar em minúcias, já que isso é irrelevante, pois qualquer um pode encontrar as minúcias se observar bem, se ler os jornais, se olhar em torno de si — tanta miséria, sordidez, ineficiência, absoluta falta de consideração por quem quer que seja, total ausência de afeição, de amor, a perpétua repetição de frases, ideias, teorias sobre a existência de Deus, o padrão socialista, o padrão religioso, o padrão comunista, etc. 

Ora, observando-se tudo isso, percebe-se a necessidade de uma radical transformação da própria natureza do cérebro. O cérebro, dizem os antropólogos, existe há dois milhões de anos. E podemos continuar por outros dois milhões de anos a repetir o mesmo padrão: sofrimento, dor, mulher, família, filhos, marido, disputas, nacionalidades, a esquerda, a direita, a asserção de que há Deus, a asserção de que não há Deus, de que devemos ser virtuosos, de que devemos ser isto ou aquilo. Podemos continuar indefinidamente a repetir o mesmo padrão — ligeiramente modificado, alterado, mas sempre repetido.

Pode-se, por conseguinte, ver que a própria natureza do cérebro deve passar por uma tremenda revolução — revolução que lhe interessa, não na qualidade de indivíduo unicamente interessado em seu próprio cérebro, porém na qualidade de ente humano. Não sei se se pode diferenciar entre o indivíduo e o ente humano — eu pelo menos quero diferenciar. Sempre que falamos a respeito de mudança, nos referimos à mudança individual. Isto é, você muda e eu mudo, promovendo uma diferente atividade, estabelecendo um padrão diferente em nosso insignificante cérebro — cada um de nós, como indivíduo, em certa posição, em certo estado de relação; como indivíduo que vive a lutar e a lutar por se tornar um pouco melhor, possuir um pouco mais de caráter, um pouco mais de inteligência, ser um pouco mais bondoso, ter um emprego melhor, etc.; como indivíduo, a funcionar na estreita esfera de sua própria consciência. É isso o que em geral se chama "um indivíduo"; e se, nessa existência insignificante e condicionada, a pessoa se torna um pouco atenta, vigilante, trata de fazer alguma coisa, a fim de provocar alguma transformação, por ação da vontade, do controle, da repressão; e fica perenemente a fazer alguma coisa dentro da limitada esfera de sua própria existência. É isso o que chamamos "o indivíduo", em oposição ao "coletivo" — sendo este a multidão, a sociedade, a nação, a raça, etc. etc.

Ora, esse "indivíduo" existe de fato, ou o que há é apenas uma divisão artificial entre o coletivo e ele próprio? Se uma pessoa se observa sem paixão, sem choque ou reação emocional, pode ver o que ela própria é: o coletivo. Você é o coletivo, é o resultado de seu ambiente, de sua sociedade, de seus dogmas religiosos, de suas pressões religiosas, do clima, da alimentação, do sol — não você, como indivíduo, porém o "coletivo", o grupo. Um ente humano total só existe fora desse padrão do "coletivo" e do "indivíduo". Observe! Não é questão de concordar ou discordar — pois isso não tem nenhuma significação. Porque não estamos aqui a discutir teorias ou opiniões com que você concorda ou discorda. Estamos observando fatos: e a respeito de fatos não há disputar. Você pode dizer que não vê o fato, ou pode não querer vê-lo, já que sua mente se acha muito confortavelmente instalada em determinada rotina e a repetir incessantemente que não deseja ver coisa alguma fora de seu próprio âmbito. Pelo exame do fato, pode-se ir ao encontro de algo completamente diferente, algo que não é nem o "indivíduo" nem o "coletivo", porém que se acha além, muito além de um e de outro. E — no meu sentir — só o descobrimento dessa coisa produzirá aquela extraordinária mutação no próprio cérebro

Atualmente, nos servimos do cérebro num limitado sentido, ou seja como indivíduo tentando modificar o coletivo, ou como coletivo controlando o indivíduo: a sociedade moldando o cérebro segundo um certo padrão, com crenças religiosas, crenças econômicas, crenças sociais, etc. E tal atividade da consciência dentro dessa esfera particular, por mais ampla que seja, é sempre limitada e, por conseguinte, essa consciência não é verdadeiramente individual. A verdadeira individualidade, que é o ente humano real, está além dessa esfera, e cabe a nós descobri-la. Para descobri-la temos de compreender o inteiro mecanismo do cérebro; e, na própria compreensão desse cérebro, ocorre uma mutação — não o tempo, porém fora do tempo. É esta que considero a coisa mais importante para examinar e compreender. Por "compreender" não entendo a compreensão meramente verbal, porém a compreensão real, o percebimento real dessa coisa; não o entendê-la teórica, argumentativa, intelectual ou verbalmente, porém o viver com ela realmente. 

A verdadeira questão, por conseguinte, é esta: É possível a você e a mim promover essa mutação no uso do próprio cérebro, uma revolução que não seja processo gradativo, no tempo, porém revolução, mutação imediata, resultante da compreensão imediata? Quando falamos de "compreensão" entendemos, com efeito, que compreendemos alguma coisa imediatamente, e não que a "compreenderemos depois de amanhã" — não é exato? Em geral se entende, pela palavra "compreender", compreender imediatamente. Ela implica, por conseguinte a inexistência do amanhã. Compreendemos, não filosoficamente ou pela ideação, porém realmente. Ou compreendemos uma coisa de imediato, ou não a compreendemos em absoluto. Buscar a compreensão por meio das ideias supõem o tempo, um período, uma distância que se tem de percorrer para atingir a compreensão, tornar-se bom, tornar-se não violento. Temos a ideia, temos a distância e, para percorrer essa distância, necessitamos de tempo; trata-se, por conseguinte, de um processo gradual. Esse é um dos fatores constitutivos da mente que tão condicionada foi pelo tempo, que pensa que só através do tempo se pode alcançar alguma coisa.

Naturalmente, necessita-se de tempo para construir uma estrada, aprender uma língua, para nos transportarmos daqui a outro lugar. Esse é um tempo absolutamente necessário. Mas o tempo ideológico — a ideia de uma perfeição, de um Deus, do que quer que seja, só atingível por meio do tempo — esse é um dos tradicionais padrões, de nosso pensamento, radicado no próprio cérebro. E perceber a sua falsidade é compreender a vital importância de uma completa transformação, agora mesmo. 

Não sei se você já refletiu nisto. Se o amanhã não existe, realmente, psicologicamente, interiormente, então sua atenção se acha, toda inteira, no presente; e sua atitude perante a vida é perfeitamente integrada, perfeitamente inteiriça, não fragmentária. E essa é uma das mais importantes mutações que se pode verificar. Ao perceber o significado dessa ideia da existência de um amanhã e de que nesse amanhã nos tornaremos algo; ao perceber a verdade de que não existe amanhã, psicologicamente, então toda a estrutura cerebral, mental, emocional, psicológica, sofrerá uma tremenda transformação. A nosso ver, é essa a única revolução possível, atualmente, quem sabe sempre. 

Não compare o que estamos dizendo com suas palavras sânscritas ou com o que foi dito por alguém; não exclame: "Ele está dizendo o mesmo que X disse, nos Puranas, nos Vedas, no Upanishads, etc." Quando você compara o que ouve com o que tem lido, cessou a compreensão. Naturalmente você não está escutando: só está escutando o que já sabe e comparando-o com o que ouve, para ver se as duas coisas "conferem" entre si; só isso. E quando o que você ouve dizer está de acordo com o que disse uma certa pessoa religiosa, você se sente altamente estimulado e diz: "Nada temos que recear; estamos em segurança." Não estamos falando de segurança. Ao contrário, estamos falando da necessidade de uma tremenda revolução, uma revolução que, obviamente, tem de ser religiosa. 

Por "revolução religiosa" entendo uma revolução completa, total, não fragmentária. Trata-se da realidade total, e não da realidade econômica, da realidade social, da realidade psicológica, que são realidades fragmentárias. E toda revolução fragmentária só levará à repetição do que foi, apenas modificado; isso tem sido provado repetidamente... a Revolução Francesa, a Revolução Comunista... tais revoluções retornam sempre ao velho padrão, em nível um pouco mais alto ou mais baixo. 

Assim, observando não apenas a si mesmo, mas qualquer revolução social ou econômica; observando, sem ideias nem teorias — você chegará sem dúvida a compreender a necessidade de uma completa mutação na mente, no cérebro, para se proporcionar ao homem uma existência pacífica — tendo-se em vista, não só a ameaça da bomba atômica, senão também todas as estúpidas divisões nacionais e religiosas. E é forçoso perceber a extraordinária importância dessa mutação, não para o indivíduo, mas para o homem como um todo. "O homem" significa você, e não o indivíduo. Nesse "homem" deverá verificar-se uma completa revolução. Ora, como promovê-la? 

Percebe-se a necessidade dessa revolução; percebe-se que, para realizá-la, requer-se ardor, madureza e energia. E como produzir essa madureza e essa energia? O indivíduo está amadurecido — não em relação ao tempo, à idade, etc. — amadurecido, rico, completo, quando é capaz de olhar, de observar, de viver sem amargor, sem medo, sem desejo de preenchimento, pois tudo isso denota falta de madureza. Pertencer a uma dada classe de pessoas, a certas religiões, certas nacionalidades — tudo isso é infantil, nenhuma significação tem. Porque só depois de você jogar fora todos esses absurdos, sua mente estará amadurecida. Terá então, infalivelmente, energia — a energia de que necessita para promover aquela extraordinária mutação. 

Do que estivemos dizendo esta manhã apura-se a necessidade de imediata maturidade e daquela intensa energia a ela inerente, para que se possa operar a mutação imediata. Ora, como isso é possível? Talvez eu não tenha enunciado o problema muito claramente, deixando de entrar em muitos pormenores; mas poderíamos ficar "pormenorizando" indefinidamente, sem darmos um passo à frente. Como produzir essa madureza e essa energia? Ou ela não é produzível?[...]

[...]Percebemos a necessidade de uma revolução fundamental na própria estrutura do cérebro; "estrutura", não no sentido biológico, porém na estrutura de nosso pensar, o padrão de nossos pensamentos, impulsos e ânsias. Para se promover a revolução fundamental, necessita-se de grande quantidade de energia; e essa energia só pode se tornar existente quando há madureza — não a madureza que pensamos poder alcançar mediante o ajuntamento de muitos fragmentos. Mas, como suscitar essa madureza?[...] Se para você se trata de um problema não imposto por outrem, que solução lhe dará?[...] Se é um problema seu, e não um problema meu, que estou lhe transferindo, que fará com ele? Ora, quando você tem um problema de fome ou de sexo, trata de fazer alguma coisa. Não diz: "Sentemos e conversemos sobre este problema". Se você tem verdadeiramente fome, necessidade de alimento, faz algo. Portanto, o que você vai fazer a respeito do problema a que me refiro? Ou melhor, o que você está fazendo? Ou dirá que é um problema que lhe atinge, mas que não sabe o que fazer com ele? Isso é mais provável, não? 

Você está de acordo? Por favor, não concorde comigo. Você percebe o problema e diz a si mesmo: "Estou bem ciente de tudo; leio os jornais, as revistas; escuto, leio, e não ignoro o problema; mas não sei o que fazer". Exato? Ora, quem poderá lhe dizer o que fazer a respeito desse problema? Você tem fé em algum líder, inclusive na pessoa que está sentada neste estrado? Não ria! Por certo, você tinha toda confiança nos políticos, nos instrutores, nos homens religiosos; tinha toda confiança nos livros, nesta ou naquela coisa "sagrada", e agora tudo isso perdeu sua significação, não é verdade? As guerras continuam; há ódio, aflição, confusão, fome; e os políticos oferecem o céu deles. Mas, infelizmente, você não tem ninguém em quem confiar verdadeiramente — confiar verdadeiramente, e não teoricamente. Assim sendo, o que você fará? O que irá fazer?

Jiddu Krishnamurti em, Uma Nova Maneira de Agir 

terça-feira, 19 de abril de 2016

É possível sermos novamente entes humanos totais?


Ao se tornar consciente do seu condicionamento, você compreenderá a totalidade da sua consciência. A consciência é o campo total onde funciona o pensamento e existem as relações. Todos os motivos, intenções, desejos, prazeres, temores, inspiração, anseios, esperanças, dores, alegrias, se encontram nesse campo. Mas nós dividimos a consciência em ativa e latente, em nível superior e nível inferior; quer dizer, na superfície todos os pensamentos, sentimentos e atividades de cada dia e, abaixo deles, o chamado subconsciente, as coisas que não nos são familiares, que ocasionalmente se expressam por meio de certas sugestões, intuições e sonhos. 

Ocupamo-nos com um pequeno canto da consciência, que constitui a maior parte de nossa vida; quanto ao resto, a que chamamos subconsciente, com todos os seus motivos, temores, atributos raciais e hereditários, não sabemos sequer como penetrá-lo. Agora, pergunto: Existe mesmo tal coisa como subconsciente? Empregamos muito livremente essa palavra. Admitimos que essa coisa existe e todas as frases e terminologias dos analistas e psicólogos se insinuaram na nossa linguagem; mas, ela existe? E, por que razão lhe atribuímos tamanha importância? A mim ela parece tão trivial e estúpida como a mente consciente, tão estreita, tão fanática, condicionada, ansiosa e sem valor quanto ela. 

Assim, será possível ficarmos completamente cônscios de todo o campo da consciência e não meramente de uma parte, de um fragmento? Se você puder se tonar cônscio da totalidade, agirá sempre com sua atenção total e não com uma atenção parcial. Importa compreender isso, porque, quando se está cônscio de todo o campo da consciência, não há atrito. Quando se divide a consciência —  toda ela constituída de pensamento, sentimento e ação — em diferentes níveis, é então que há atrito. 

Vivemos de maneira fragmentária. No escritório somos uma coisa, em casa somos outra coisa; você fala de democracia e, no íntimo, é autocrata; fala de amor ao próximo e ao mesmo o tempo o está matando na competição; uma parte de você está ativa, a olhar, independentemente da outra. Você está consciente dessa existência fragmentária em si mesmo? E será possível ao cérebro, que dividiu seu próprio funcionamento, o seu próprio pensar em fragmentos, tornar-se cônscio do campo inteiro? É possível olharmos o todo da consciência completa e totalmente, o que significa sermos entes humanos totais?

Se, a fim de compreender a estrutura total do "eu", de extraordinária complexidade, você proceder passo a passo, descobrindo camada por camada, examinando cada pensamento, sentimento e motivo, você se verá enredado no processo analítico, que levará semanas, meses, anos; e quando admitimos o tempo no processo da autocompreensão, temos de estar preparados para toda espécie de deformação, porquanto o "eu" é uma entidade complexa, que se move, vive, luta, deseja, nega; sujeita a pressões e tensões de toda espécie, que nela atuam continuamente. Você descobrirá, assim, por si mesmo, que não é esse o caminho que deve seguir; compreenderá que a única maneira de olhar a si mesmo é faze-lo totalmente, imediatamente, fora do tempo; e você só pode ver a totalidade de si mesmo quando a mente não está fragmentada. O que você vê em sua totalidade é a verdade

Mas, você é capaz disso? A maioria não o é, porque nunca nos abeiramos do problema com seriedade, porque na realidade nunca olhamos a nós mesmos. Nunca! Lançamos a culpa nos outros, nos satisfazemos com explicações, ou temos medo de olhar. Mas, quando você olhar totalmente, aplicará toda a sua atenção, todo o seu ser, tudo o que tem, seus olhos, seus ouvidos, seus nervos; estará atento com o mai completo auto-abandono e não haverá então mais lugar para o medo, para a contradição e, por conseguinte, não haverá mais conflito. 

Atenção não é a mesma coisa que concentração. A concentração é exclusão; a atenção é percebimento total, que nada exclui. A maioria de nós não me parece estar cônscia, não só do que estamos dizendo aqui, mas também de nosso ambiente, das cores que nos rodeiam, das pessoas, da forma das árvores, das nuvens, do movimento da água. Isso acontece, talvez, porque estamos tão interessados em nós mesmos, em nossos insignificantes problemas, nossas próprias ideias, nossos prazeres, ocupações e ambições, que não podemos ficar objetivamente cônscios. Entretanto, muito se fala de percebimento.[...] Não estamos conscientes nem das coisas exteriores nem das interiores. Se você deseja compreender a beleza de uma ave, de uma mosca, de uma folha, de uma pessoa, com todas as suas complexidades, tem de lhe dispensar toda a sua atenção — e isso é percebimento. E você só pode dar toda atenção  quando tem zelo, quer dizer, quando realmente ama o compreender; você aplica então ao descobrimento todo o seu coração e toda a sua mente. 

Esse percebimento é coisa semelhante a você viver com uma serpente em seu quarto; observa cada um de seus movimentos, você é altamente sensível a cada ruído que ela produz. Um tal estado de atenção é energia total; nesse percebimento se revela instantaneamente a totalidade de si mesmo.

Ao se olhar dessa maneira profunda, você pode descer mais fundo ainda. Empregando as palavras "mais fundo" não estamos fazendo comparação. Nós pensamos comparativamente — profundo e superficial, feliz e infeliz. Estamos sempre medindo e comparando. Mas, será que existe em alguém mesmo tal estado — o superficial e o profundo? Quando digo "minha mente é superficial, mesquinha, estreita, limitada" — como sei dessas coisas? Porque comparei minha mente com a sua mente, que é mais brilhante, tem mais capacidade, é mais inteligente e alertada. Posso conhecer minha pequenez sem comparação? Quando sinto fome, não comparo essa fome com a fome que senti ontem. A fome de ontem é uma ideia, uma lembrança. 

Se estou sempre a me medir por você, a me esforçar para ser igual a você, estou negando a mim mesmo. Por conseguinte, estou criando uma ilusão. Ao compreender que a comparação, em qualquer forma, só leva a uma ilusão e um sofrimento maiores ainda, ao compreender que todos esses processos só levam a mais ajustamento e conflito, abandono toda a comparação. Minha mente já não está buscando. É muito importante compreender isso. Minha mente já não está tanteando, buscando, indagando. Isso não significa estar satisfeito com as coisas como são, porém, sim, que a mente não tem ilusão nenhuma. Pode então mover-se numa dimensão totalmente diferente. A dimensão na qual vivemos nossa vida cotidiana, de dor, de prazer, de medo, condiciona a mente, limita-lhe a natureza, e quando aquela dor, aquele prazer e aquele medo deixaram de existir (o que não significa não ter mais alegria; a alegria é coisa totalmente diferente do prazer), a mente passa então a funcionar numa dimensão diferente, na qual não existe conflito, nenhuma ideia de diferença.

Verbalmente, só podemos chegar até esse ponto; o que existe além não pode ser expresso em palavras, porque a palavra não é a coisa. té aqui, pudemos descrever, explicar, mas nem palavras nem explicações podem abrir a porta. O que abrirá a porta é o percebimento e a atenção diários — percebimento da maneira como falamos, do que dizemos, de nossa maneira de andar, do que pensamos. Isso é como limpar e manter em ordem o aposento. Manter o aposento em ordem é importante a um respeito e totalmente sem importância a outro respeito. Deve haver ordem no aposento, mas a ordem não abrirá a porta ou a janela. O que abre a porta não é a sua volição ou desejo. Não se pode de modo nenhum chamar o outro "estado de espírito". O que se pode fazer é apenas manter o aposento em ordem, o que significa ser virtuoso por amor à virtude e não pelo que isso nos trará, ser equilibrado, racional, ordenado.Então, talvez, se você tiver sorte, a janela se abrirá e a brisa entrará. Ou pode ser que não. Tudo depende do estado da sua mente. E esse estado da mente só pode ser compreendido por si mesmo ao observá-lo sem tentar moldá-lo, sem ser parcial, sem contrariá-lo, sem jamais concordar, justificar, condenar, julgar; quer dizer, estar vigilante sem fazer nenhuma escolha. E, em razão desse percebimento sem escolha, a porta talvez se abrirá e você conhecerá aquela dimensão em que não existe o conflito nem o tempo. 

Krishnamurti em, Liberte-se do Passado

Vemos a vida com os olhos do ambiente em que fomos criados

Como ser livre para olhar e aprender, quando nossa mente, da hora do nascimento à hora da morte, é moldada por uma determinada cultura, no estreito padrão do "eu"? Há séculos vimos sendo condicionados pela nacionalidade, a casta, a classe, a tradição, a religião, a língua, a educação, a literatura, a arte, o costume, a convenção, a propaganda de todo gênero, a pressão econômica, a alimentação que tomamos, o clima em que vivemos, nossa família, nossos amigos, nossas experiências — todas as influências possíveis e imagináveis — e, por conseguinte, nossas reações a cada problema são condicionadas. 

Percebe que está condicionado? Esta é a primeira coisa que deve perguntar a si mesmo, e não como se libertar do condicionamento. Pode ser que nuca se liberte dele, e se disser "preciso me livrar dele", pode cair noutra armadilha, noutra forma de condicionamento. Assim, você percebe que está condicionado?[...]

Como você pode saber que está condicionado? Que é que lhe diz isso? Que é que lhe diz que você está com fome? — não cono teoria, porém o fato real da fome? Do mesmo modo, como é que você descobre o fato real de que está condicionado? Pela sua reação a um problema, a um desafio, não é? Você reage a cada desafio segundo seu condicionamento e como seu condicionamento é inadequado reagirá sempre inadequadamente. 

Quando você se torna cônscio dele, esse condicionamento de raça, de religião e cultura lhe faz sentir aprisionado? Considere uma única modalidade de condicionamento, a nacionalidade, considere-a seriamente, com pleno percebimento, para ver se lhe agrada ou se lhe revolta, e se lhe causa revolta, se sente vontade de se libertar de todo condicionamento. Se o seu condicionamento lhe satisfaz, é óbvio que nada fará a respeito dele; mas, se não se sente satisfeito ao se tornar consciente dele, perceberá que nunca faz coisa alguma sem ele. Nunca! Por conseguinte, você está sempre vivendo no passado, com os mortos. 

Você só percebe por si mesmo o quanto está condicionado quando se manifestar um conflito na continuidade do prazer ou na fuga á dor. Se tudo ao redor de você decorre de maneira perfeitamente feliz, sua esposa o ama, você a ama, tem uma bonita casa, filhos interessantes e dinheiro à farta, nesse caso não está consciente de seu condicionamento. Mas, quando surge uma perturbação, quando sua esposa olha para outro homem, ou você perde sua fortuna, ou se vê ameaçado pela guerra ou qualquer outra coisa que cause dor ou ansiedade — então sabe que está condicionado. Quando luta contra uma perturbação qualquer ou se defende de uma dada ameaça exterior ou interior, sabe então que está condicionado. E, como a maioria se vê perturbada na maior parte do tempo, seja superficialmente, seja profundamente, essa nossa perturbação indica que estamos condicionados.  Enquanto um animal é mimado, reage agradavelmente, mas no momento em que se vê hostilizado, toda a violência de sua natureza se revela. 

Nos vemos perturbados a respeito da vida, da política, da situação econômica, do horror, da brutalidade e do sofrimento existentes tanto no mundo como em nós mesmos, e essa perturbação nos revela quão estreitamente condicionados estamos. Que devemos fazer? Aceitar a perturbação e ir vivendo com ela, como faz  a maioria dos homens? Nos acostumar com ela, assim como nos acostumamos com uma dor nas costas? Nos conformarmos com ela? 

É tendência de todos nós nos conformarmos com as coisas, nos acostumar com elas, delas culpando as circunstâncias.[...] sempre culpando os outros, o nosso ambiente ou a situação econômica pelas nossas perturbações. 

Se nos acostumamos com a perturbação, isso significa que nossa mente se embota, assim como uma pessoa pode se acostumar de tal maneira com a beleza que a cerca, que nem a nota mais. Nos tornamos indiferentes, calejados, insensíveis, e nossa mente se embota cada vez mais. Se não podemos nos acostumar com a perturbação, dela tratamos de fugir, recorrendo a uma certa droga, ou ingressando num partido político, bradando, escrevendo, ou assistindo a uma partida de futebol, indo a uma igreja ou templo, ou procurando outro tipo de divertimento.

Por que razão fugimos dos fatos reais? Temos medo da morte — isso apenas para exemplo — e inventamos teorias, esperanças e crenças de toda espécie, para disfarçarmos o fato da morte, mas esse fato continua existente. Para compreendermos um fato cumpre olhá-lo e não fugir dele. Em geral, temos tanto medo do viver como do morrer. Temos medo de nossa família, da opinião pública, de perder nosso emprego, nossa segurança, medo de centenas de coisas. O fato simples é que temos medo disto ou daquilo. Mas, porque é que não podemos enfrentar esse fato?

Só podemos enfrentar um fato no presente; mas, se você nunca o deixam estar no presente,porque estamos sempre a fugir dele, nunca poderemos enfrentá-lo, e, tendo criado uma verdadeira rede de fugas, estamos dominados pelo hábito da fuga. 

Ora, se você é sensível, sério, por pouco que seja, não só estará cônscio de seu condicionamento, mas também dos perigos dele decorrentes, da brutalidade e do ódio a que ele conduz. Por que então, se você está vendo o perigo do seu condicionamento, não age? É por que é indolente? Indolência é falta de energia; entretanto, não lhe faltará energia em presença de um perigo físico imediato — uma serpente em seu caminho, um precipício, um incêndio. Por que então você não age ao ver o perigo do condicionamento? Se você visse o perigo do nacionalismo para sua própria segurança, não agiria? 

A resposta é que você não vê. Por um processo intelectual de análise você pode ver que o nacionalismo leva à autodestruição, mas nisso não há nenhum conteúdo emocional. Só quando há esse conteúdo emocional, você tem vitalidade. 

Se você vê o perigo do seu condicionamento como um mero conceito intelectual, jamais fará coisa alguma em relação a ele. No perceber um perigo como uma mera ideia, há conflito entre a ideia e a ação e esse conflito tira-lhe a energia. Só quando você vê o condicionamento e o seu perigo imediatamente, tal como vê um precipício, é só então que age; portanto, ver é agir

A maioria de nós percorre a vida desatentamente, reagindo sem pensar, de acordo com o ambiente em que fomos criados, e tais reações só acarretam servidão, mais condicionamento; mas, no momento em que você aplicar toda a atenção em seu condicionamento, se verá inteiramente livre do passado; ele se desprenderá naturalmente de você. 

Krishnamurti em, Liberte-se do Passado
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Postagens populares

"É porque se espalha o grão que a semente acaba
por encontrar um terreno fértil."-
Júlio Verne


>>>>>>>>>>>>>>

"A aventura é, sempre e em todos os lugares, uma passagem pelo véu que separa o conhecido do desconhecido; as forças que vigiam no limiar são perigosas e lidar com elas envolve riscos; e, no entanto, todos os que tenham competência e coragem verão o perigo desaparecer." — Joseph Campbell em, O Herói de Mil Faces

"Acredito que o maior presente que alguém me pode dar é ver-me, ouvir-me, compreender-me e tocar-me. O maior presente que eu posso dar é ver, ouvir, entender e tocar o outro. Quando isso acontece, sinto que fizemos contato" — Virginia Satir

"A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se (isto é, sofrer ofensa), porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança.[...] A mente em conflito não tem nenhuma possibilidade de compreender a Verdade" — Krishnamurti